sábado, 29 de agosto de 2009

Uma noite na Universal

Uma das 4500 filiais da Igreja Universal do Reino de Deus fica no bairro de botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Quem passa em frente quase não percebe a igreja. Diferentemente de outras unidades, a de botafogo tem um frontão discreto. Sim, a fachada é toda em mármore com letras góticas em prateado informando que ali é uma Igreja Universal do Reino de Deus e que Jesus Cristo é o Senhor, mas fica só nisso. Não há vitrais, não tem a logomarca em vermelho (um coração com uma pomba branca no centro) e nem ornamentos extravagantes.

Para falar da Igreja Universal, o colunista entendeu que deveria conhecê-la mais de perto. Assim, decidiu participar de um culto, ou de uma reunião, como eles gostam de chamar.

Para saber os horários, passei na Universal mais próxima da minha casa e peguei uns panfletinhos de divulgação. Minha desconfiança só fez aumentar. De gosto e visual bem duvidosos, os panfletinhos chamavam para sessões de descarrego. “O seu problema é sentimental? Nunca foi feliz no amor?”, dizia um deles. “Você sente que tem algo amarrando a sua vida?”, dizia o outro. O panfletinho também informava que havia sessões diariamente às 7:00, 10:00, 12:00, 15:00 e 19 horas. Haja descarrego!


Cheguei com 40 minutos de antecedência na sessão das 19 horas para poder observar de longe o movimento e me preparar psicologicamente para a empreitada. Passei vagarosamente em frente à igreja para pegar um exemplar da Folha Universal, fartamente distribuída na calçada, e segui para o boteco mais próximo para um breve pit-stop.

A Folha Universal é o pioneiro braço de comunicação da instituição. A que recebi era uma edição especial com uma única manchete garrafal: SUJEIRA.

Dizia:

“Nesta semana, o Brasil assistiu, perplexo, a um ataque histórico de grupos de comunicação à Igreja Universal. Quais são os interesses por trás da notícia?



A Folha Universal, com suas 24 páginas em formato tablóide, todas coloridas, imprimia em nove delas a versão da IURD para as denúncias apresentadas pelo Ministério Público de São Paulo, mas que a Igreja Universal insistia em atribuir à TV Globo. A Folha Universal usava argumentos como “denúncia vazia”, “sucessão de equívocos”, “comunicação que incomoda”, “uma história de injustiças”, “palavras desfocadas”...

Edir Macedo sabe a força das palavras e das imagens. Não é a toa que criou logo cedo sua estrutura de comunicação, que alcançaria, anos depois, o calibre de super-potência com a aquisição da Rede Record de Televisão, além de rádios, editoras, gráficas etc.

A Folha Universal passa a ser editada a partir de 1992 e hoje conta com uma tiragem semanal de 2,5 milhões de exemplares (informação impressa no próprio jornal e auditada por uma BDO Trevisan Auditores Independentes), mais que o dobro da maior publicação nacional, a Veja, hoje em seu 42º ano de existência com 1.085.852 exemplares semanais.

O jornal, bem diagramado e que trata sobre diversos assuntos do cotidiano, dedicando apenas uma parte para a propaganda da Universal (seguindo o mesmo modelo da TV Record), tem essencialmente uma linha de defesa: considera o fato notícia velha requentada (visto que nos anos 90 Edir Macedo chegou a ser preso pela mesma acusação de crimes financeiros) para tentar ofuscar o crescimento de audiência da TV Record e o lançamento de um megaportal de jornalismo, o R7. Mas no fundo o que o texto tenta vender é a idéia de que a Universal está sob uma perseguição religiosa, pois só quem o lê são os próprios fiéis.


O verbo e a verba

Às 18h45 eu estava novamente diante da escadaria da igreja. Poucos degraus levavam até um imenso salão. Uma dimensão difícil de mensurar da rua: 60 fileiras com 13 cadeiras de cada lado. Mais de 1500 lugares sentados, algo próximo da capacidade da Igreja da Candelária, uma das maiores igrejas católicas do Brasil situada no centro do Rio. Para um templo de bairro é uma capacidade bem pretensiosa.

O culto é animado, começa com música e palmas. Eu ainda descobriria que seria agitado demais, mas isso só no final. Por enquanto estávamos todos de pé cantando uma música que era o começo de um intrincado e sofisticado processo de persuasão, e que só terminaria uma hora e meia depois.


Neste lugar de adoração

vim te buscar de todo coração

a minha vida eu quero ofertar

o meu melhor eu quero consagrar.


Cantou o pastor de não mais que 25 anos. Um sujeito afinado, alinhado, acompanhado no fundo por um tecladinho melodioso. Na primeira estrofe da canção a palavra oferta já havia aparecido. E ela ainda seria repetida inúmeras vezes até o final da noite.


Pai eu abro a porta do meu coração

Venha derramar da tua unção

E fazer de mim o que quiser

Pai, eu quero ser o filho que te abraça

e levar ao mundo a tua palavra

te servir enquanto eu viver.


A esta altura já está tudo dominado. Somando o clima, o cenário e a música às almas já sofridas e vulneráveis em busca de uma palavra amiga, a dialética da Universal (e de quase todas, é preciso frisar e não esquecer) é infalível.

Em seguida o pastor mudou a entonação, deixando de cantar e passando para um tom mais professoral, um tom de sermão:


Aprendemos a viver guiado pelo senhor.

E não agir diante do que se encontra aos nossos olhos, e não pelas emoções.

Mas a ti pela fé que há dentro de nós.

Então nós queremos te pedir, meu pai, dá vitória ao teu povo diante de todas as perseguições, dá sabedoria para que seus filhos possam sair ilesos dessa guerra.

Guerra espiritual em que o mal tem usado familiares, amigos, vizinhos, que tem ligado pra essa pessoa tentando contaminar.

Dá vitória meu pai!


As palavras do pastor, para quem assistisse de fora como eu, pareciam buscar uma base sagrada para a defesa contra as acusações dos jornais. Usava uma técnica que, sutil e subliminarmente, desarmava as mentes para serem convencidas. Ao dizer que as palavras eram de Deus, e não dele, o pastor criava um distanciamento crítico. Uma técnica parecida com o terceiro-pessoismo muito utilizada por políticos e jogadores de futebol. Você já deve ter ouvido o Pelé falando do Pelé como se fosse outra pessoa. Pois é...

Mas os métodos de persuasão não param por ai. Outro muito usado em cultos evangélicos é a catarse verbal. Nele o pastor passa a falar em um ritmo cada vez mais acelerado e em um volume cada vez mais alto, repetindo frases, gritando amém, trocando palavras de lugar e mantendo sempre a pressão em um ideia central. Um pastor habilidoso é capaz de levar toda uma platéia ao transe. Os decibéis ajudam a colocar o ouvinte em estado uníssono com o que é dito, o som que sai das caixas envolve todo o seu corpo.

E é aí que começa a participação da platéia com o que é chamado de Manifestação, onde cada um pode repetir uma palavra dita pelo pastor, dizer amém ou proferir palavras que lhe vêm a cabeça, inclusive em línguas desconhecidas, o que para os fiéis da Universal é um dom dos batizados.

É assustador perceber a costura de uma ideologia política, de palavras de ordem e comando dentro do discurso sagrado. Os verbos, pinçados das frases, parecem denunciar o esquema: ofertar, derramar, fazer de mim o que quiser, servir, guiar, orientar, perseguir, guerrear.

Então está lá a palavra do dia: foi iniciada uma guerra religiosa contra a Igreja Universal. Tenta-se assim entortar a acusação, conseguindo sair de uma posição de réu para, no fim, estar confortavelmente sentado na cadeira da vítima. No final o que se tenta é desqualificar a acusação criminal e transformar o caso em uma situação de intolerância religiosa.


O culto segue:

Faz parte da pessoa de Deus ganhar, perder, estar fraco, ser repreendido, ser injustiçado, tudo isso faz parte.

E assim, como sempre se fez, o discurso do pastor parte para a outra técnica, essa comum em outras igrejas: o amolecimento do espírito revolucionário e questionador do ser humano. Amortecendo o desejo de mudar ao dizer que você vai sofrer, será injustiçado, mas isso é assim mesmo, isso faz parte... Porque não diz o contrário, porque não estimula as pessoas a mudarem, porque não diz que não, não faz parte sofrer, que não faz parte ser humilhado? Não dizem pois este sentimento é libertador. Uma vez liberto, o fiel não precisa mais da igreja.

Mas existe uma característica fundamental da Igreja Universal que a diferencia de todas as outras, principalmente das católicas: a Teologia da Prosperidade.

Ao contrário do Vaticano, que sempre defendeu o sofrimento na Terra e o paraíso no céu, em volume inversamente proporcional, a Universal resolveu inverter a ordem e dar preço ao paraíso na Terra. Combinou conceitos de uma forma nunca antes feita, associou, dentro da religião, felicidade à prosperidade financeira. E prosperidade diretamente proporcional ao dízimo oferecido. Fazem isso sem o menor pudor, sem o menor constrangimento.

No texto Palavras Desfocadas, da Folha Universal, Edir Macedo comenta uma antiga gravação de vídeo onde ele aparece falando em “dá ou desce”. O jornal apresenta uma passagem do livro “O Bispo, a história de Edir Macedo”, que tem na capa a famosa foto de Macedo lendo uma bíblia sentado em um banquinho por trás das grades (foto no blog), quando foi preso em 1995. No trecho da biografia Macedo diz o seguinte: “A expressão que usei não tem nada a ver com aquela piada suja. É como eu costumo dizer, toma lá, dá cá. Essa era a expressão que eu deveria ter usado naquele momento, mas, na hora, não usei. Não me arrependo não. É nossa mensagem de fé(...)”.

Então a Universal associou prosperidade financeira ao dízimo e tudo isso a um processo de fidelização à igreja. O discurso diz o seguinte, se você ainda não prosperou, é porque não está dizimando como deveria, não está dando realmente o que poderia dar. Acha surreal? Acha que estou exagerando? Então sigamos no culto.

Depois da parte cantada e falada, o pastor desceu para a platéia, mudou de tom novamente e mandou chamar duas pessoas. Um casal se aproximou para que todos vissem. Aparentavam uma certa timidez, ou uma certa constrição calculada.

O casal estava ali para dar seu Testemunho, outra parte fundamental dos cultos evangélicos. Os testemunhos são sempre dos casos de sucesso, daquelas pessoas que enriqueceram depois que passaram a dizimar (ou seja, a Universal juntou conceitos da religiosidade com as práticas do marketing direto, juntou Deus com a Amway!!!).

O testemunho daquela noite seria de um cidadão chamado Ronie Rap. O nome vem dos bailes funk, onde Ronie era um famoso DJ da Furacão 2000. A história de Ronie foi então contada. Casamento em frangalhos, dívidas financeiras e duas tentativas de suicídio na Ponte Rio-Niterói. Isso mesmo caro leitor, duas tentativas na ponte Rio-Niterói!!! Quem contava era sua esposa, ouvida por um Ronie cabisbaixo e com mãos entrelaçadas. O pastor pontuava: “Funk é sinônimo de que? Prostituição! Drogas! Maus elementos!”. O pastor ainda teve a cara de pau de dizer: “não estou generalizando, mas é sinônimo disso!”. Como assim cara pálida? (Alô DJ Marlboro!! Alô Fernanda Abreu!! Alô Buchecha!!).

O testemunho termina com uma listagem do sucesso financeiro de Ronie Rap, hoje um reconhecido DJ Gospel, que antes “morava de aluguel”, havia vendido o carro, sem dinheiro até para pagar o condomínio. Falidos, tinham ido morar em Macaé, cidade no norte do estado do Rio. Mas hoje, inflama-se o pastor, moram em “uma casa bacana”. O pastor ainda se entrega. “Eu sei por que eu fui vizinho dele!”.

“E você devolvia o dízimo”, perguntou o pastor? “Sim, sempre, foi a primeira coisa que aprendi na Universal”, respondeu Ronie.

Devolver o dízimo é outra prática incentivada na Universal. Significa basicamente uma retribuição em dinheiro após a graça obtida. Não é o dízimo do dia-a-dia, mas sim um dízimo especial, vindo depois de acumulada a riqueza.

O pastor, quase debochado, arremata o testemunho de Ronie Rap com uma perguntinha: “e a casa de praia, tá bacana?!”. “Tá lá, com três andares na beira da praia!”, responde Ronie sem conseguir esconder o orgulho. “E não tem só casa de praia não gente. Comprou outra em Rio das Ostras. Ou seja, está abençoado! Mas me diz, vocês vieram de ônibus?”, pergunta ironicamente o pastor já sabendo a resposta. “Vim de carro. Depois daquele carro que eu vendi, hoje eu tenho três”, responde laconicamente.

“Bem forte pra Jesus!”, pede o pastor. No que é seguido por um avassalador aplauso. “Essa é nossa resposta para quem não acredita!”, sentencia o pastor. E logo depois vem uma longa defesa sobre o dízimo. “Se um não der 100, outro dará 1000, se um não der 1000, o outro dará 10 mil”, profetiza o pastor em uma lógica bem particular. “No início deste mês uma pessoa dentre vocês aí devolveu um dízimo de R$57 mil”, diz para quem quiser acreditar.


E, é claro, depois disso não poderia ser outra coisa a não ser a distribuição dos envelopes brancos com a palavra dízimo carimbada. O pastor se mostra confiante e destemido: “Nós não vamos nos calar por que estamos sendo perseguidos. São notícias requentadas. Comida estragada cheirando à azedo. Tem uns que comem dessa comida podre que a Rede Globo tá dando e depois passam mal, espiritualmente falando, e tem uma indigestão violenta e vão parar no CTI pra depois nós termos que resgatá-las”. E segue em uma sugestão para que as pessoas parem de assistir a TV Globo: “Gostaria que você olhasse pra essa comida podre... ou melhor, gostaria que você nem olhasse pra essa comida podre. Quando as pessoas vêm falar comigo perguntando se eu vi, eu digo que não vi, não quero ver, não vou ter raiva de quem vê, mas não quero ver! Porque? ... (pausa dramática) ... deixa pra lá”.

A sacola vermelha é colocada na frente do altar, a musiquinha volta e a fila se forma. O dinheiro segue nos envelopes, mas vi gente com nota de 50 reais na mão.

Existem outras formas de arrecadação. O pastor interrompe abruptamente a música e manda buscar livros do estoque. É a já citada biografia de Edir Macedo. São para vender para os fiéis a R$10,00 cada. O pastor tem, assim como no comércio, a sua cota a cumprir. Ele quer vender 100 livros nesta noite. Mas quem comprar não vai levar. O pastor explica que eles serão doados para 100 casais que vão se reunir em uma favela carioca. O pastor ainda incentiva as pessoas que digam quantos livros estão “doando”. Assim, estimula a vaidade daquele que podem dar mais.

Depois do dízimo finalmente sentamos novamente. Sim, estávamos de pé todo este tempo. É hora de ouvir um trecho da bíblia. Veja que o que narrei até agora se parece muito com a liturgia católica, que é de onde vem, essencialmente, os evangélicos, que na verdade são protestantes. Tudo começa lá em Calvino, Lutero, entre outros (essa parte você pesquisa sozinho). O trecho que vamos ouvir hoje é do livro de Atos dos Apóstolos, capítulo 7, versículo 54. Esse livro, quinto do Novo Testamento, fala sobre? Adivinhem? Isso mesmo, perseguições aos cristãos. No caso fala de um Estevão que, mesmo sendo apedrejado, permanece fiel ao seu Deus.

Facada final em qualquer consciência de algum fiel que porventura estivesse abalada com as notícias que vem lendo no jornal. O pastor ainda pede a participação da platéia ao ler um trecho “E também Saulo consentiu na morte dele. E fez-se naquele dia uma grande... Grande o quê gente?! grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém”, repetem todos.

A leitura da Bíblia, um romance escrito em metáforas e que permite mil e uma interpretações ao gosto de quem a usa, seguiu por um bom tempo, fazendo o pastor a sua interpretação dos Atos dos Apóstolos para dizer que aquilo tudo não era um processo do Ministério Público sobre lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e evasão de divisas, mas sim uma perseguição religiosa contra a Universal. Prevista na Bíblia!!!

O culto seguiria oscilando momentos de cantoria, catarse, mais uma rodada de dízimos sob a justificativa de vender os jornais (distribuídos gratuitamente na rua) para ajudar nos custos da gráfica. O pastor pede R$1,00 por jornal, mas incentiva quem quiser mostrar sua fé doando valor maior. A catarse final ainda conta com a diminuição das luzes do salão. É neste momento que algumas pessoas batizadas começam a falar em línguas exóticas, algo próximo de um hebraico ou uma dessas línguas antigas. Os decibéis já haviam superado em muito o limite permitido em lei...

Por fim o pastor convoca a todos para que tragam alguém novo no domingo, chamado de Domingo dos Vizinhos. Todos são quase que desafiados a trazer um novo fiel. Assim cresce vertiginosamente a Igreja Universal.


E é isso que precisamos entender. Mesmo com tantas denúncias, mesmo com tudo o que se falou sobre esta igreja, mesmo assim a Universal segue crescendo. O pastor nem precisava se esforçar tanto em encontrar uma justificativa bíblica para as denúncias do MP. Nada vai acontecer com a Universal, nada vai acontecer com Edir Macedo. Ele sabe que está em uma esfera imune. Edir Macedo tem, aliás e curiosamente, um passaporte diplomático, garantido pelo governo brasileiro aos líderes religiosos. Você sabia?...

Acima de tudo o fundador da Universal percebeu que existia um mercado a ser explorado. Um mercado totalmente fora da alçada de qualquer instância governamental. Macedo viu em sua frente um empreendimento livre de impostos, de censura, de regulamentação, de registro. A prática religiosa estava, e está, inserida dentro de um buraco negro institucional. Não foi o primeiro, nem será o último, mas Macedo sofisticou o empreendimento de uma forma inédita.

Edir Macedo está protegido pela Constituição Brasileira. Diz o artigo 5º, inciso VI: "é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias". E vai além. O artigo 19, inciso I ainda amplia: “é vedado ao Estado estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança(...)”. Leia-se embaraçar como o ato de criar complicações, obstruções ou vexames. Ou seja, as igrejas estão protegidas por barreiras não só etéreas como também constitucionais. São intocáveis!

A Universal percebeu também que além do seu braço de comunicação precisava ter o seu braço político. Assim, passou a preparar pastores para assumir cargos públicos em todos os níveis, não só financiando suas campanhas como usando de seus templos para comícios e seus fiéis como eleitores. O Rio de Janeiro é hoje um estado evangélico. O ex-governador Anthony Garotinho percebeu isso. Apesar de não ser da Universal (Garotinho freqüenta a Igreja Batista Betânia) usou a comunidade evangélica para ganhar a eleição e eleger sua esposa em seguida, e depois sua filha.

Da Universal é nosso senador. Mesmo sem nenhuma carreira política anterior, mesmo sem nenhuma referência ou base eleitoral, Marcelo Crivella se elegeu senador pelo Rio de Janeiro. Veja bem, não estamos falando de um cargo de vereador, deputado estadual ou mesmo federal, elegemos um pastor da Igreja Universal como Senador pelo estado do Rio de Janeiro!!! Crivella, assim como seu tio Edir Macedo, é um homem cheio de processos e histórias mal contadas. Deve ser perseguição do Ministério Público...

A coluna já vai longe demais. Perdeu totalmente a noção da paciência do leitor que, se chegou até aqui, só pode receber o meu muito obrigado pela tolerância.

Não tenho nada contra o dízimo, se captado honestamente, seria usado para a construção de igrejas, projetos sociais, etc, mas o dízimo virou um grande negócio. Se você quer continuar doando, opção sua, mas visto o caráter comercial que o dízimo ganhou, é preciso retirá-lo da esfera da isenção tributária e passar a arrecadar impostos para o povo brasileiro, assim como penso que da mesma forma as doações para o projeto Criança Esperança também devem ser taxadas. A TV Globo diz que não ganha nada com isso e que todo o arrecadado vai direto para o UNESCO e depois aos projetos. Mentira! É claro que a TV Globo ganha, e ganha muito! Ganha em imagem, em valor agregado. O Criança Esperança é sim uma ação de marketing social

Resta acompanhar o caso e continuar tentando entender o que atrai as pessoas aos cultos da Universal (e tantas outras). Eu também quero ter muito dinheiro no bolso, mas não acredito que um Deus meça no montante de uma doação a fé de quem o ama, ou mesmo um Deus que seja capaz de retribuir mais a este do que àquele por conta dos zeros à direita do cifrão.



KF


* aos incrédulos, tanto do conteúdo como da memória do colunista, informamos que todo o culto teve seu áudio registrado em um gravador de bolso.



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domingo, 9 de agosto de 2009

José Alencar e o Deus que não habita em mim


O vice-presidente José Alencar é hoje um político mais conhecido por sua luta contra o câncer do que precisamente por sua atuação no segundo posto mais importante da república.

Tem sido impressionante a sua perseverança em conter o avanço da doença. Uma força de vontade que ele diz tirar de sua fé em Deus.

Entrevistado pelo Jornal Nacional nesta semana, em mais uma de suas saídas do hospital Sírio-Libanês, José Alencar disse, com um semblante tranqüilo, chegando quase a sorrir (se é que não sorriu de fato) que entregava seu destino à Deus, finalizando com a clássica declaração: “seja o que Ele quiser!”.

Impossível não se comover com a relação serena deste homem com a possibilidade iminente do fim da própria vida. Fez-me lembrar da minha avó, hoje com quase 99 anos e lúcida como qualquer um de nós (talvez mais). Certo dia ela me disse, ao ser indagada por que não saía mais, não passeava mais: “Estou satisfeita!”, disse com a mesma tranqüilidade demonstrada por José Alencar.

A frase ficou impressa na minha cabeça e irá me acompanhar até os meus últimos dias. E fiz dela a minha válvula de escape para suportar a sufocante realidade, absoluta e inquestionável: nossa vida um dia chegará ao final.

Talvez sufocante apenas para mim, ou aqueles que pensam como eu, aqueles que simplesmente não acreditam em Deus. Que simplesmente acreditam que ao morrer encerramos em definitivo a nossa trajetória, sem reencarnações, sem passagens, sem segunda chance, sem volta.

Durante muito tempo a palavra Ateu soou para mim como um palavrão, uma palavra proscrita, banida, uma palavra exilada nos porões das idéias assustadoras, das coisas que não devíamos falar sobre. A morte é o mais opaco de todos os tabus.

A primeira vez que vi alguém assumindo, pública e naturalmente, que era ateu foi em um programa de entrevistas da MTV: o Gordo a Go-Go. Nele o vocalista da banda punk paulistana Ratos de Porão, João Gordo, recebia sempre dois entrevistados por programa. Nesse dia, sabe-se lá por que, o assunto foi parar em fé e religião. Ao serem questionados se acreditavam em Deus, ambos responderam singelamente que não.

Os entrevistados eram o cantor Caetano Veloso e o ator Danton Mello.

A fé e a religião

Há uma frase recorrente na boca de muitos brasileiros: “não tenho religião, mas acredito em Deus”. Entender o que está por trás deste pensamento é uma tarefa que não cabe no espaço da coluna, mas podemos começar a tentar analisar a linha de raciocínio.

Antigamente, ressalvando-se os judeus e muçulmanos, todos os brasileiros nasciam católicos. Ninguém perguntava se queríamos ou não ser batizados, simplesmente era assim. Com o tempo isso mudou. Fomos descobrindo que a igreja católica não era tão bacana assim, fomos nos dando conta que era na verdade a igreja da repressão e das penitências. E, acima de tudo, uma igreja hipócrita.

As igrejas pentecostais, hoje chamadas apenas de evangélicas, perceberam a oportunidade, sacaram o desejo de muitas pessoas em praticar a sua fé sem culpa ou grãos de milho sob os joelhos. Valorizando o ser humano, reconhecendo sua sexualidade e individualidade, e tirando o dinheiro do jugo do pecado (afinal eles também queriam – e iriam – lucrar!), as igrejas evangélicas pipocaram país afora.

Acho curioso o espanto de algumas pessoas quando falo que sou ateu. “Mas como assim, não acredita em nada, nadinha?”. Algumas são capazes até de duvidar: “Ah, você deve acreditar em alguma coisa, isso é só tipo”. Outros ainda dizem: “Ah, deve haver alguma coisa depois, não é possível que seja só isso!”.

Como assim só isso?

A questão é que nunca nos foi apresentada outra opção. Aceitamos sem resistência, sem questionamento, sem pensar. Acreditamos em Deus e seguimos assim, talvez porque sabemos, no fundo, que pensar o contrário é, simplesmente, aterrorizante.


Desconstruindo Deus

Escrevemos Deus com letra maiúscula. Logo Deus é um nome próprio. Se é nome próprio é porque pertence a uma pessoa. Então Deus é uma pessoa (imagem e semelhança). Além de pessoa, Deus é homem, masculino, singular. Porque não uma mulher? Não é dela a fonte da vida?

Mas os que primeiro tiveram a idéia, acharam que seria um homem, então Deus homem se fez. E assim temos hoje um bando de igrejas machistas, ou você consegue encontrar uma mulher em posição de liderança em alguma religião? Curioso, não?

Sempre falamos no que vai acontecer logo após a nossa morte. Subimos aos céus para nos encontrarmos com Deus. Ok, mas e depois? O que acontece depois?!! Vamos ficar ali, convivendo com outras almas? Vamos encontrar todos os nossos parentes que foram antes de nós? Vamos encontrar com todo mundo?! De Montezuma a Cleópatra? Vamos nos encontrar com bilhões e bilhões de almas que já passaram por este planeta? É muita gente!

Os que morrem criança, permanecem criança? Os com síndrome de down, autistas, especiais, continuarão assim ou a alma livre se cura dos males do corpo? E qual será nossa relação com a eternidade, nossas almas sentirão o passar do tempo, veremos a luz do dia e a escuridão das noites? Já paramos para pensar o quão cansativa e angustiante deve ser a eternidade? Isso sem falar no tédio...

Será que não nos damos conta de que essa história simplesmente não fecha?

Vamos lá, voltando à criação. Deus então criou tudo, tudinho, todo o Universoooooooooooooooo, mas escolheu primeiro povoar a Terra com organismos unicelulares invertebrados, depois vieram os dinossauros, e o resto já sabemos. Também tivemos vários antes de nós, talvez como um ensaio. Homo Habilis, Erectus, Neanderthalensis, Sapiens. Coisa de 200 mil anos atrás. Só pra começar...

E aí eu sou obrigado a novamente perguntar: mas e eles, tinham alma?

Pois essa coisa de ter ou não ter é uma questão muito da conveniência do momento. Afinal, quando foi preciso a igreja determinou que negros e índios não tinham alma e que por isso podiam ser escravizados, já que desalmados nada mais seriam do que bestas, como um burrico ou um boi (depois teve de pedir perdão, mas isso já é outra história).

Não tenho orgulho de me declarar ateu. Na verdade não é algo para se acanhar ou se vangloriar. O ateu simplesmente se reconhece assim, ao não encontrar dentro de si o desejo de ter um deus, e ao não encontrar fora nada que o faça pensar diferente. E mais ainda, ao não querer ter um deus, resignando-se com a verdade em seu estado puro e aplicado, que é a validade do corpo humano.

A lei que rege o Universo é uma só e vem em três verbos: nascer, desenvolver, extinguir.

Ser ateu nada mais é do que reconhecer, humildemente, esse prazo que nos foi dado a viver pela mãe natureza.

O escritor Raduan Nassar tem um escrito interessante em seu livro Lavoura Arcaica. Ele fala assim sobre o tempo:

O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor.

Embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento.

Sem medida que o conheça, o tempo é, contudo,

o nosso bem de maior grandeza.

Não tem começo, não tem fim.

Rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas,

e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas;

rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo,
aproximando-se dele com ternura, não se rebelando contra o seu curso,

brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não sua ira.

O equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo,

e quem souber com acerto a quantidade de vagar,

ou a de espera, que se deve pôr nas coisas,

não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é.

Pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas.

O ateu não quer convencer ninguém. Essa coluna não quer convencer ninguém. O ateu não é um cético cínico, a debochar dos outros. Em sua grande maioria são amantes da vida e entendem que não estão aqui de passagem. Que não estão aqui em algum teste que o aprove para uma vida melhor em outro lugar. Apenas entendem que precisam viver a vida em sua plenitude para poder, quem sabe, chegar ao final com o grato sentimento de dever cumprido.


Carpe Diem



KF



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segunda-feira, 27 de julho de 2009

UNE, comunistas e um mea culpa


A União Nacional dos Estudantes, que todos esquecemos que existe a não ser quando assistimos a especiais na televisão sobre os anos de chumbo ou quando lembramos da cassação do Fernando Collor, acaba de voltar às páginas dos jornais.

Aproveitando a realização do seu 51º Congresso Nacional, realizado em Brasília entre os dias 15 e 19 deste mês, a UNE mobilizou cerca de 1500 manifestantes para protestar na Esplanada dos Ministérios contra a CPI da Petrobras, entre outros gritos de guerra.

O problema, e o que gerou a atenção da imprensa, foi que a entidade havia recebido um polpudo patrocínio da própria Petrobras para financiar o seu congresso, além de receber, sistematicamente, recursos do governo federal (segundo fontes consultadas, o valor em 2009 está em R$2,5 milhões). E aí pega mal, né não?


Um pouco sobre a UNE

O ano era o de 1993. Eu fazia parte de um grupo de estudantes da PUC do Rio que entendia a universidade também como um local de aprendizado político, afinal de contas estamos inseridos dentro de um processo que influencia e altera nossas vidas, ignorá-lo e não preparar-se seria um gesto de grande vulnerabilidade.

Mas não haviam partidos. O grupo fazia questão de manter as agremiações políticas longe do nosso convívio. Participávamos do processo, mas não éramos ferramentas de manobra de partidos que, sabíamos, disputavam influência (ou mesmo controle) em diversas universidades através dos Diretórios Centrais de Estudantes (DCE) e dos Centros Acadêmicos.

Na faculdade eu estava sempre com uma câmera de vídeo no ombro. E foi por conta desse hábito que um colega de faculdade chegou certo dia com uma idéia que me pareceu, inicialmente, ser uma grande furada. Seu nome era Ralph. Um sujeito complexo. Altamente engajado, muito inteligente, mas extremamente bronco no jeito de ser. Estudante de história, faixa preta de jiu-jítsu, anarquista.

Ralph queria me convencer a embarcar, naquele mesmo dia, em um ônibus que me levaria para a cidade de Goiânia, onde aconteceria o 43º Congresso da UNE. “Mas o que eu vou fazer lá Ralph?”, perguntei sem entender ainda qual era a idéia do nobre amigo. “Você precisa ir lá para ver de perto a nojeira que é a UNE, filmar tudo e mostrar o que aqueles pelegos estão fazendo da UNE, bando de safados!”. Não me lembro bem das palavras da breve conversa, mas Ralph não nutria lá bons sentimentos em relação ao pessoal que comandava a famosa entidade estudantil.

Eu mal conhecia a UNE. Não tinha a menor idéia do que era um pelego. E nem sei exatamente o que me veio à cabeça para tomar a decisão de embarcar nessa viagem. Só sei que horas depois lá estava eu no local marcado de onde sairia um ônibus fretado para levar um grupo de estudantes de diversas universidades, cruzando o país em direção à capital do estado de Goiás.

Chegamos em Goiânia já no início da noite do dia seguinte. Fomos colocados em uma sala de aula de uma escola próxima ao local do evento, transformada agora em dormitório. Larguei o saco de dormir em um canto, pendurei a câmera no ombro e sai para ver o que estava acontecendo. O congresso acontecia no estádio Rio Vermelho, o principal da cidade, e o entorno estava uma grande animação com um vai-vem de estudantes, barraquinhas de alimentos, artesanato e afins.

Liguei a câmera e fui filmando o que aparecia pela frente. Entrei em uma escola onde circulavam muitas pessoas. Subi uma escada, e quando vi estava dentro de uma reunião do grupo dos independentes. Foi aí que comecei a entender o funcionamento da UNE, as manipulações de partidos que tentavam (e conseguiam) dominá-la, e o poder do PCdoB, o partido todo poderoso que mandava na UNE. As palavras de Ralph começavam a fazer sentido.



O Partido Comunista do Brasil

Naquela época a UNE estava em seu quadragésimo presidente (elegeu semana passada o 48º), e o titular era nada mais, nada menos que o príncipe dos caras-pintadas Lindberg Farias (que na PUC chamávamos, pejorativamente, de Lindberg o lindo). Lindberg era filiado ao PCdoB (precedido por Patrícia de Angelis, do mesmo partido), e seria sucedido, naquele mesmo congresso em Goiânia, pelo pernambucano Fernando Gusmão, igualmente dos quadros do PCdoB. E a partir daí o partido não largaria mais o osso.

Uma das críticas do amigo Ralph era de que o PCdoB (e o PT antes dela) havia se apossado da entidade e a estava usando como trampolim de jovens aspirantes à vida política. Desvirtuava-a, assim, de sua verdadeira função: servir aos interesses dos estudantes e contribuir com a melhoria da educação no Brasil. Não seria?

Os temores do jovem anarquista não poderiam estar mais certos. Vejamos: o paraibano Lindberg Farias, depois de uma conturbada carreira no Congresso Nacional, e de algumas trocas de partido (PCdoB, PSTU e o atual PT), é hoje prefeito do município fluminense de Nova Iguaçu. Fernando Gusmão, pernambucano, foi vereador pelo Rio de Janeiro e hoje é deputado estadual. Orlando Silva o sucedeu na gestão 95/97. Orlando, como todos sabem, é hoje o ministro dos esportes do governo Lula. E no mesmo ministério estão outros dois ex-presidentes da entidade. E por aí vamos.

O meu grande espanto, enquanto convivi durante três dias no Congresso da UNE, foi ver que existia uma realidade paralela. Os partidos que eram fortes no cenário nacional, ali não tinham grande força (PMDB ou PSDB, por exemplo – o PT havia dominado a UNE, após a retomada da democracia, até o ano de 1991), e siglas do passado, como o PCdoB e um exótico MR-8, eram poderosos e influentes.

O PCdoB é realmente um caso curioso. Apesar de ser um partido nanico, a agremiação goza de status de grande representatividade também na política nacional. Atualmente o PCdoB tem 42 prefeituras (menos de 1% do total de 5.563 municípios), 12 deputados federais (de um total de 513), 01 senador, 14 deputados estaduais e 603 vereadores (1,2% de um total de 50.367). Para um partido com suposta envergadura histórica, os números são bem tímidos.

Dos deputados federais, dois estiveram na presidência da UNE. Um é o conhecido Aldo Rebelo (gestão 1980/81), presidente da Câmara dos deputados entre 2005 e 2007. A outra é Manuela Dávila (vice-presidente da UNE na gestão de 2001/03).


As carteiras de meia-entrada

Como vimos, a UNE é hoje uma entidade que não tem problemas financeiros. Tendo uma íntima ligação com os políticos que estão no poder, ou tendo sido berço de formação destes, a entidade parece estar muito bem amparada no que diz respeito ao seu acesso a verbas públicas. E não há aqui nenhuma acusação, todo o processo de financiamento, ao que parece, é legal.

No entanto, houve épocas em que a entidade teve que buscar recursos em outras fontes. Foi aí que surgiu o fenômeno das carteiras de estudante, que iria dar muito que falar e acabaria influenciando no bolso de todos nós.

O direito foi uma conquista da própria entidade ainda na década de 1940, mas o benefício seria cassado pelo regime militar e só retornaria nos anos 90.

Com a emissão (leia-se venda) restrita à UNE, durante alguns anos o caixa da entidade foi sustentado pelas carteiras, que davam meia-entrada em cinemas, teatros, shows e eventos esportivos.

A demanda foi gigantesca. A entidade não estava preparada para lidar com uma operação deste porte e tampouco interessada em fiscalizar o processo. Com uma fotocópia sem autenticação de uma declaração de matrícula e uma foto 3X4, qualquer um conseguia uma carteirinha de estudante.

O autor do blog, neste momento, volta a ser protagonista da história para fazer seu mea-culpa. Sim, eu fui um dos milhares de não-estudantes que falsificou um documento para obter uma carteira de estudante. Não foi difícil consegui-la diretamente na sede da própria UNE. Feri assim o artigo 299 do Código Penal ao usar de documento fraudado. Cinco anos de cadeia, seria a pena.

E o que parecia uma vantagem, iria logo-logo se voltar contra mim mesmo, e todos nós. Como sempre.

Não só eu, milhares de pessoas perceberam que a fiscalização da UNE era frouxa e passaram a falsificar documentos para obter o benefício ilegal.

E o que estava ruim, piorou. Em 2001, o governo Fernando Henrique Cardoso quebraria o monopólio da UNE/UBES para a emissão das carteiras. A farra se generalizou. Qualquer birosca emitia uma carteira de estudante. O mercado, sem saber como fiscalizar, ficou de mãos atadas vendo suas bilheterias sangrarem.

O desfalque foi denunciado, mas percebendo que o cenário não iria mudar, o mercado cultural arranjou, ele mesmo, e como sempre faz, uma solução paliativa, uma gambiarra para reduzir os prejuízos: aumentou os preços!


O preço da cara-de-pau

Hoje, os estudantes continuam pagando inteira, e os outros pagando dobrado. A situação está completamente fora de controle. Associações de classe que defendem os interesses de artistas, exibidores e casas de show, dizem que 80% dos ingressos vendidos saem pela metade do preço. Segundo eles, se ao menos essa cota fosse limitada a 30% da lotação, os ingressos poderiam ser reduzidos em 60%. Um desconto e tanto, para todos.

A falsificação de carteiras estudantis cai em um lugar sombrio da ética do brasileiro. Estão lá também os que estacionam na calçada, falam no celular ao dirigir, compram mercadorias falsificadas (ou roubadas) em camelôs, furam fila, trafegam no acostamento, não recolhem as fezes de seu animal doméstico das calçadas etc etc etc. São os pequenos delitos que todos nós nos auto-absolvemos tendo sempre a mão uma desculpa favorável.

A minha, quando fiz uso da carteira falsa, era de que estava duro, mas ao entender a cultura como um bem básico para a minha sobrevivência, me concedia essa pseudo-absolvição. Um dia me dei conta da bobagem que estava fazendo e me desfiz da fraude. Mas ficaram as conseqüências: os preços já haviam disparado.

Réu confesso, só me resta deixar uma sugestão, embora eu saiba que muito provavelmente não serei levado a sério ou em consideração. Uma sugestão simples, na verdade, e nem tão original assim: vamos extinguir a carteira de estudante e garantir a meia-entrada para todos àqueles que tenham até 21 anos incompletos. Não é propaganda de operadora mas é simples assim.

Quanto aos outros delitos? Bem, daí ainda é um longo caminho.


Em tempo: descobri o que é um pelego. O nome vem do vocabulário regional. Pelego seria a pele de carneiro colocada sobre os arreios dos cavaleiros para deixar a sela mais confortável. É usada como metáfora para designar os “agentes disfarçados do governo que tentam agir dentro dos sindicatos ou mesmo o indivíduo servil e bajulador”. Palavras de mestre Houaiss.



KF



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domingo, 19 de julho de 2009

Sarney: a culpa é sua!!!

ou uma breve história de José Sarney

A recente cassação do governador do Maranhão, Jackson Lago, passou quase que totalmente despercebida da opinião pública nacional, entendendo como opinião pública nacional a repercussão de um fato em capitais como o Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e, quiçá, uma Porto Alegre ou uma Salvador.

Mas por trás deste episódio existe uma história inacreditavelmente patética, triste e sombria da política brasileira: o poder do coronel José Sarney e sua máquina política.

A história é tão cheia de drama, ódio, vinganças, reviravoltas e desfechos inesperados, que se uma Janete Claire tentasse emplacar esse roteiro em alguma novela das oito, provavelmente seria rejeitada pela direção da Globo por total falta de verossimilhança.


Amor e Ódio na Ilha do Amor

Jackson Lago, formado em medicina, é um político maranhense de 74 anos que ocupou a prefeitura de São Luis por três mandatos. Foi considerado o melhor prefeito do Brasil em pesquisas feitas pelo jornal Folha de São Paulo, e era o principal opositor do clã dos Sarney.

São Luis sempre foi um reduto de oposição aos Sarney. Nunca um aliado venceu na prefeitura. A cidade, uma jóia colonial fundada pelos franceses, tem vários apelidos: Atenas Brasileira (por conta da presença de muitos filhos de nobres), Jamaica Brasileira (pela influência da música caribenha), Ilha do Amor (pela quantidade de poetas que louvaram a cidade) e Ilha Rebelde (pelos motivos óbvios).

Lago foi cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral após a candidata derrotada, Roseana Sarney, ter apresentado provas de uso indevido da máquina pública ao seu favor. Jackson Lago era o candidato do então governador José Reinaldo Tavares.

Mas quem era José Reinaldo Tavares?

Tavares era mais um dos políticos que foram formados por Sarney. Servil e obediente, sempre apoiou o tutor em todos os momentos. Sarney retribuía: JRT foi seu Ministro dos Transportes.

E seria justamente nesta época, quando ainda era casado com sua primeira mulher e já pai de quatro filhos, que Tavares conheceu uma aeromoça, que atendia em um jato particular da construtora de um amigo, com o qual voava sempre sem pagar. A bela era 34 anos mais jovem.

Começaram um tórrido caso de amor.

Tavares só aí já havia cometido delitos suficientes para ter seu mandato (e seu casamento) cassado por falta de decoro. Menos pela traição a sua esposa, e mais por aceitar favores, como ministro, de uma empresa do ramo da construção. Lembrem-se, José Reinaldo era Ministro dos Transportes, ou seja, construções de estradas, pontes, etc

Por falar em pontes, José Reinaldo já havia provado sua fidelidade ao grande coronel ao construir em São Luís, enquanto secretário de Infra-estrutura do estado, a ponte José Sarney. José Reinaldo seria também vice-governador de Roseana Sarney, em seu segundo mandato (1994 - reeleita 1998).

Mas voltemos ao nosso caso de amor. A paixão pela aeromoça foi crescendo tão forte que Tavares pediu a separação de sua mulher para se casar com ela, agora Alexandra Tavares, com quem acabaria tendo mais três filhos.

Acontece que a família Sarney não gostou nada disso. Acreditavam que pegava mal ter um aliado tão próximo se relacionando como uma figura de profissão tão questionável. Afinal, todos nós sabemos qual, infelizmente, é a imagem das aeromoças em nosso imaginário coletivo. E não se fala mais nisso...

Aceitaram mas nunca engoliram. José Reinaldo certa vez tentou indicar a nova esposa para o cargo de chefe de seu próprio gabinete. A governadora não aceitou. A relação azedou.

Mesmo assim recebeu o apoio dos Sarney para se eleger governador em 2002. Uma vez empossado, não teria outro jeito a não ser aceitar Alexandra como primeira-dama. Mas não ficou só nisso, Alexandra Tavares assumiu uma secretaria criada só para ela, a Secretaria Extraordinária de Solidariedade, além de uma vaga no Comitê de Política Orçamentária do Governo. E começou a mostrar suas garras de mulher-gato.

Roseana, agora senadora, ficou enfurecida e começou, ao estilo Sarney, a preparar a perfídia contra o casal. Colocou detetives e espiões a monitorar cada passo da primeira-dama e, de tanto fuçar, acabou descobrindo uma traição de Alexandra.

Confrontado com os fatos, e muito a contragosto, José Reinaldo acabou se separando da segunda mulher. No entanto, infeliz e amargurado com a vida, não agüentou a solidão e logo propôs uma reconciliação com seu grande amor.

Alexandra, respirando os ares da vingança fria e calculada, aceitou a proposta, mas com uma condição: Agora seria ela a mandar!

José Reinaldo, cego pelo fogo da paixão, capitulou.

Alexandra Tavares deitou e rolou. Ficou conhecida pelas festas modernas que fazia com regularidade no Palácio dos Leões, sede do governo maranhense, e por conduzir o governo (do marido) com mãos de ferro. Era chamada de Alexandra, a Grande.

O rompimento com os Sarney era inevitável.


Mas quem é este homem?

José Sarney é o parlamentar brasileiro há mais tempo em atividade. Iniciou-se na política em 1955 como deputado federal pelo Maranhão. E não parou mais. Curiosamente sempre esteve ao lado daquele que estava no poder. Foi assim desde Jânio Quadros. Acabou ele mesmo, de tanto ficar ao lado, ocupando o próprio poder. Todos sabem a trágica história da eleição indireta de Tancredo Neves.

Depois da sua conturbada e hiper-inflacionária gestão na presidência da república, Sarney se juntou a Antônio Carlos Magalhães e Marco Maciel para fundar o Partido da Frente Liberal (atual Democráticos – um título, aliás, que é no mínimo uma provocação visto a estirpe de seus fundadores).

Sarney não tem nenhuma qualidade política que se tenha notícia. Não se sabe de nenhuma grande gestão, nenhuma grande idéia, nenhuma solução que tenha levado o Brasil a um caminho melhor.

Aliás, muito pelo contrário, com quase seis décadas na política, José Sarney nada fez pelo seu povo. O Maranhão é hoje o estado com os piores indicadores em todos os setores. É o penúltimo no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), atrás apenas, e por muito pouco, do estado de Alagoas. O Maranhão é uma grande miséria, um estado onde impera o analfabetismo, a mortalidade infantil, a fome. E onde estes elementos estão presentes, vêm junto os políticos assistencialistas que se elegem na desgraça e na ignorância alheias.

No Maranhão costumam dizer que os Sarney, fora o guaraná Jesus, a fábrica de pipas do Zé Caveira e a Catuaba do Diguinho, são donos de todo o resto. Família riquíssima, usam e abusam da máquina do estado para enriquecer. Fernando Sarney, um dos filhos homens, que vem aparecendo nas páginas dos jornais cada vez mais (olho nele!), é o braço comercial da família. Fica de fora da política administrando as empresas. Dizem que qualquer empreendimento que queira se instalar no Maranhão ou fazer negócios naquele estado tem que antes se sentar com Fernando Sarney para negociar o “pedágio”. Muitas já desistiram e se queixaram à FIEMA (Federação das Indústrias do Estado do Maranhão), mas o poder dos Sarney é mais forte que a indústria maranhense. São donos também da opinião pública. O Grupo Mirante, com a repetidora da TV Globo (TV Mirante), as rádios Mirante FM e AM, e o jornal O Estado do Maranhão fazem o rolo compressor de notícias favoráveis aos Sarney.

Talvez o grande trunfo de Sarney seja justamente a longevidade na política. O velho bigode deve saber de todos os podres de seus pares. Um “Dossiê Sarney” deve estar guardado a dezessete chaves em algum cofre na suíça, ou nas ilhas Caimã. E com tanta informação, Sarney negocia cargos, salários e verbas.

Desafortunadamente, a acusação que derrubou Jackson Lago é totalmente procedente. Jackson e José Reinaldo Tavares dividiram diversos palanques onde as ações do governo se confundiam com as ações da campanha. E lembremos, José Reinaldo Tavares é cria de Sarney, não poderia atuar diferente.

Mas os Sarney sempre jogaram no mesmo tabuleiro imundo. Para se ter uma idéia de como agem, entre 2004 e 2005 era negociado um pacote de recursos do Banco Mundial que chegaria ao Maranhão na forma do Programa de Desenvolvimento Integrado do Maranhão (Prodin), algo em torno de R$ 60 milhões.

Sarney usou de toda a sua influência para barrar o quanto pôde a entrada destes recursos. Não estava preocupado com o povo que seria beneficiado, ou mesmo com o seu estado. Queria apenas enfraquecer o oponente.

José Reinaldo venceu a quebra-de-braço com Sarney, no que é hoje considerada a grande vitória do grupo opositor. Analistas acreditam que ali começou a ganhar força a candidatura de Jackson Lago, pois ninguém acreditava que alguém conseguiria desbancar o todo poderoso. A vitória no Prodin abriu uma esperança.

Mas Sarney de fato não está preocupado com os Maranhenses, ele quer apenas o poder. E para não ficar fora dele, e temendo não conseguir se eleger pelo próprio estado, Sarney encomendou em meados da década de 1990 uma pesquisa para saber onde conseguiria se eleger senador mais facilmente. Foi aí que descobriu o Amapá, um estado com cerca de 600 mil habitantes, ou a população aproximada da Zona Sul carioca.

Você sabe onde fica o Amapá? Qual a sua capital? Qual o seu governador atual? Já ouviu na vida alguma notícia sobre o Amapá? De todas essas perguntas eu só consigo responder as duas primeiras. Mas Sarney lá se foi. Forjou um endereço eleitoral, obrigatório para um candidato, e venceu em 1998 com meros 97.466 votos, ou 27% do eleitorado amapaense (é assim que escreve?). Em 2006 se reelegeu com um pouco mais de credibilidade, 152.486 votos, ou 53% do eleitorado. Mas ainda números medíocres para alguém que se pretende com tamanha estatura política. Alguém que se considera um estadista. Alguém ex-Presidente da República. Apenas para efeito de comparação, na mesma eleição de 2006, Inácio Arruda (PCdoB) se elegeu senador pelo estado do Ceará com 1.912.663 votos. Eduardo Suplicy (PT) se elegeu em São Paulo com 8.986.803 votos. Epitácio Cafeteira (PTB) se elegeu senador pelo estado do Maranhão com 1.016.240 votos.

Jackson Lago caiu por que Sarney continua o coronel que sempre foi. Dezenas de processos de igual ou pior teor esperam julgamento contra Roseana Sarney no TRE maranhense, mas nenhum consegue avançar em direção ao TSE. Sarney controla o estado.

Um poderia se perguntar, mas o voto não é secreto? O povo não está vendo isso? Continua votando em Sarney?

Mas como vimos acima, o povo maranhense vendo sendo mantido sob miséria justamente para que fique mais fácil de ser controlado. Muitos no interior não acreditam que o voto seja realmente secreto. Temem as represálias contra suas cidades, que podem ficar sem verbas ou projetos, ou contra suas próprias famílias, e vidas. E de fato não estão tão enganados assim. O anonimato é um privilégio das grandes cidades. Pequenas localidades do interior, aonde sessões eleitorais chegam a receber poucas centenas de eleitores, fica muito fácil acompanhar o voto de uma determinada comunidade, de um determinado bairro, ou até de uma determinada família. O medo impera no interior maranhense. Como diria o poeta, quem tem cú, tem medo!

A quantidade de denúncias contra os Sarney e seus aliados não pára de crescer, como um vírus. O marido de Roseana, Jorge Murad, é outro envolvido em casos escandalosos e sombrios. Não podemos perder de vista o caso Lunus, quando a Polícia Federal encontrou 1,3 milhão de reais em dinheiro nos cofres da empresa de Murad, a Lunus Serviços e Participações. Murad deu 16 explicações diferentes para a origem do dinheiro. O caso ficou por isso mesmo, mas conseguimos (José Serra?) nos livrar de uma possível candidatura de Roseana à presidência da república.

A coluna poderia continuar e continuar. Mas o cerne desta questão é entender de onde emana esse poder maligno de Sarney e tantos outros barões da política brasileira ainda atuantes e em franca reprodução. Entender como atuam e se multiplicam é o primeiro passo para estancar essa sangria de dinheiro público.

E é agora que o título da coluna se explica: a culpa é sua!

Quando Sarney subiu ao palanque para jogar na nossa cara de que a culpa não era dele e sim do Senado, estava curiosamente nos dizendo que no fundo a culpa era nossa mesmo. Sua e minha no momento em que optamos por nos afastar da política, por achá-la chata. Somos os analfabetos políticos de Bertold Brecht, nos orgulhando e estufando o peito ao dizer que odiamos política. Nem ao menos na instância mais próxima de nossa jurisdição, as reuniões de condomínio, somos capazes de participar. Não temos tempo, não queremos nos indispor com o vizinho, e as reuniões são chatas e arrastadas...

É nesse cenário que José Sarney faz sua política. No cenário em que não acompanhamos o trabalho do parlamentar que elegemos, sequer lembramos o nome de quem confiamos o nosso voto. Pecamos ao achar que o exercício da cidadania se resume ao confirma na urna eletrônica.

José Sarney nada mais está fazendo a não ser ocupar os espaços que nós deixamos vagos. Antes de comprar o novo broche Fora Sarney, precisamos verificar até que ponto somos nós os verdadeiros culpados.



Em tempo: nossa coluna social não poderia terminar sem dar as últimas notícias. Alexandra se separou de José Reinaldo e agora enfrenta processos do MP por acusações de enriquecimento ilícito. José Reinaldo Tavares, por sua vez, tenta retornar à política maranhense. Atualmente assina um blog. Jackson Lago se retirou para cuidar da saúde. Roseana Sarney assumiu o cargo do governador cassado e ocupa o Palácio dos Leões pela terceira vez. José Sarney é presidente do Senado, e o povo maranhense está agora no maior baixo astral. Sobre o Amapá, eu não sei dizer...



KF



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