sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Mamonas Assassinas: Music is very porreta!

Quando a sessão da pré-estréia nacional do documentário “Mamonas pra Sempre, o Doc” terminou no Largo das Forras, a pracinha no centro de Tiradentes, o colunista se deu conta de que havia marcado uma grande bobeira nessa vida.

O filme do paulista Cláudio Kahns, produtor do premiado “A Marvada Carne” (1985), foi um dos vários longas exibidos na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que aconteceu no final de janeiro. Apresentado pelo próprio diretor, o documentário é, na verdade, uma colagem de depoimentos colhidos para um outro projeto do cineasta, uma ficção inspirada na trajetória do grupo Mamonas Assassinas. Segundo o diretor, ao se deparar com o conteúdo das entrevistas, ele viu que poderiam render também um documentário.

Talvez por isso, o filme não seja lá grandes coisas, deixando muito a desejar. Mas independente dos detalhes técnicos, está lá a incrível história deste grupo que causou um verdadeiro terremoto na indústria fonográfica brasileira em meados dos anos 1990. Uma história mal contada visto o enorme preconceito que paira sobre a banda, mas que vale ser relembrada.

Os punks da periferia

Moradores da cidade de Guarulhos, um pobre e populoso município da grande São Paulo, o grupo que formaria o futuro Mamonas Assassinas nascia com a pretensão de fazer sucesso no conjunto habitacional onde moravam, o Parque Cecap.
A banda era formada por dois irmãos, Samuel e Sérgio Reoli, e pelo amigo Bento Hiroto. O grupo chamava-se Utopia e limitava-se a tocar covers dos Titãs, Legião Urbana, entre outras bandas estrangeiras de rock pesado. Não tinham um vocalista pois nenhum dos três dispunha de afinação suficiente para tal.

O vocalista Dinho seria admitido no grupo justo por sua característica mais marcante, e que seria a chave do sucesso da futura banda: era um grande cara-de-pau, no melhor sentido da expressão.

Dinho estava na platéia em um dos shows do Utopia. Nesse dia, antes de tocar a música Sweet Child O’Mine, Samuel perguntou se alguém ali sabia cantar a letra. Era a chance de Alecsander Alves, baiano de nascimento (Irecê, 1971), Dinho para os íntimos.

Uma vez no palco, tirou a camisa, amarrou na testa e rebolou como fazia o lendário Axel Rose, vocalista do Guns N’Roses, autor da canção em questão. Dinho cantou no maior embromation, mas mesmo assim desceu do palco com “emprego” garantido.
Falando em empregos. Samuel Reoli era officeboy, Sérgio trabalhava em uma locadora de vídeos, Bento Hiroto vendia ração para animais, Júlio Rasec, que entra na banda a convite de Dinho, era técnico de eletrônica. O novo vocalista fazia bicos como cabo eleitoral. Essa era a formação humana dos Mamonas Assassinas.

A banda lutaria durante 4 anos por um lugar ao sol, chegando até a lançar um disco, que venderia estrondosas 100 cópias. Prestes a decidirem pela extinção da banda, e provavelmente também da carreira de músicos, uma série de coincidências, que acontecem poucas vezes numa vida, começaram a virar o jogo.

A Utopia era uma banda de músicas mais pesadas, tanto na sonoridade como nos temas cantados. Mas, no tempo vago, alguns integrantes costumavam compor músicas divertidas, com humor ácido e cheio de duplo sentido, diríamos assim um coisa Genival Lacerda com guitarras distorcidas. Era aquele tipo de coisa que a gente faz com amor e paixão, mas que acha que ninguém levaria a sério ou daria valor.

Certa madrugada, enquanto ensaiavam no estúdio, resolveram gravar algumas daquelas canções. A fita cassete teria um fim pouco digno não fosse o fato dela ter caído nas mãos de um produtor musical, que ouviu ali algo de novo, que percebeu no estilo o talento histriônico e teatral. E na música o poder inabalável da espontaneidade.



Mas nem sempre o talento é compreendido por todos. A fita chegou às mãos de executivos da Sony e da EMI. Diretores artísticos de grandes gravadoras são profissionais que deveriam entender de música e que, acima de tudo, deveriam ser capazes de perceber o novo, o vendável, a tendência, a novidade. Mas nem sempre é assim, mesmo para aqueles que ganham muito para isso.

O executivo da Sony ouviu alguns minutos da primeira faixa e atirou a fita no lixo. João Augusto Soares, diretor artístico da EMI, ouviu a mesma canção e só não atirou o K7 longe pois estava dirigindo seu carro. A fita ficaria esquecida no porta-luvas.
Rafael Ramos, filho do executivo da EMI, foi quem encontrou a fita no carro e pediu para escutar. Pré-adolescente, deve ter achado o nome da banda engraçado. Dias depois, João Augusto encontrou-o pulando no quarto com os amigos ao som de Pelados em Santos. Que som é esse?, perguntou ele. É aquela fita dos Mamonas, respondeu Rafael. Deve ter sido ali que João se deu conta da mancada que quase deu.

Mas João ainda assim desconfiou. Achava que aquilo era coisa de produtor musical tentando emplacar uma banda artificial, como muitas que temos que engolir nas paradas de sucesso. Sendo assim, pediu para assistir a um show.

A apresentação foi em uma boate de Guarulhos. Seria naquela noite que os Mamonas começariam a mostrar que não tinham vindo a passeio. Mesmo tendo na platéia um grande executivo de uma gravadora, que poderia ser a chance de suas vidas, os cinco rapazes, ao invés de reverenciá-lo entrando no palco com suas melhores roupas, vestiam apenas cuecas com um disco de vinil costurado na frente, e pantufas nos pés.

O show foi um delírio.

No final da noite, os Mamonas estavam com um contrato assinado com a EMI, que no Brasil era a gravadora dos Paralamas do Sucesso, e no mundo dos Beatles. Um mês depois, voavam para Los Angeles para gravar o disco de estreia. De bandinha conhecida apenas no conjunto habitacional onde moravam, o grupo iniciava ali um ritmo de vida que iria, lamentavelmente, conduzi-los ao final trágico.

As curiosidades em torno da história dos Mamonas Assassinas são muitas. Quando assinaram o contrato com a EMI, a banda não tinha mais que seis músicas compostas e ensaiadas. Nas duas semanas que antecederam o embarque para Los Angeles, as outras sete que completariam o álbum seriam compostas em ritmo frenético, além de Sabão Crá Crá, retirada do folclore escolar.

Com o lançamento do disco em junho de 1995, o fenômeno começou a acontecer. No dia seguinte ao seu lançamento, Pelados em Santos e Robocop Gay já eram as músicas mais pedidas em todas as rádios do Brasil. As vendas disparavam.

Guardadas as devidas proporções, visto a queda nas vendas desde o início da internet, uma comparação ainda é possível de ser feita. Em dezembro do ano passado, a banda Jota Quest recebeu o disco de ouro pela venda de 50 mil exemplares do seu último trabalho, La Plata. Rogério Flausino, vocalista da banda mineira, disse ao receber o prêmio que aquilo era o resultado de muito esforço e muito trabalho em tempos de vacas magras para a indústria fonográfica.

Os Mamonas Assassinas chegaram a vender 50 mil cópias POR DIA. E ganharam, no final de 1995, o disco de diamante pela bombástica venda de 1 milhão de exemplares. O disco chegaria logo depois a 2,3 milhões de cópias. Outra banda com o mesmo resultado foi o RPM de Paulo Ricardo, que vendeu, em toda a sua carreira 3 milhões de discos, mas isso em 10 anos de atividade. Assim se tem um horizonte mais nítido para analisar o desempenho do grupo de Guarulhos.

O meu bumbum era flácido
Mas esse assunto é tão místico
Devido a um ato cirúrgico
Hoje eu me transformei
(Robocop Gay)

E que som era esse que os Mamonas tocavam? Impossível definir. Não há categoria que possamos incluí-los. Em sites de pesquisa encontramos uma definição que deixa muito a desejar: banda de rock cômico.

Sim, o rock sempre foi a inspiração. Utopia era uma banda de rock. Depois com Mamonas, das 14 musicas do álbum 11 tem guitarras distorcidas na melodia. Uma delas, a música Chopis Centis, começa com o solo de guitarra de Should I Stay or Should I Go, da banda inglesa de punk rock The Clash. É mole?!

O disco seguia com paródias com a música sertaneja, com o pagode, com as baladas, e até mesmo com o Heavy Metal. E as letras, eram ruins? Não parece. Dentro do segmento que tinham escolhido para trabalhar, as letras eram geniais e bem elaboradas. Tinham o talento nato.

Robocop Gay, por exemplo, é toda rimada em proparoxítonas. Sem formação musical ou acadêmica, de certo os integrantes nunca tinham ouvido Construção, de Chico Buarque, outra rimada na mesma tônica e considerada um marco de composição da moderna MPB.

O jornalista e historiador Eduardo Bueno, famoso pela série do Fantástico sobre o descobrimento do Brasil, escreveu a biografia oficial da banda (Blá, Blá, Blá: a biografia autorizada dos Mamonas Assassinas - L&PM Editores). Bueno costuma dizer que o estilo da banda era uma síntese entre o som da banda Sepultura e a trilha sonora da rodoviária de Palmas, Tocantins.

E apesar de fazerem um som pesado e com letras cheias de malícia, a banda tinha entre seus seguidores tanto os(as) adolescentes histéricos(as) tradicionais, como adultos e até crianças, chegando mesmo a encantar os mais miúdos ainda em fraldas. A presença de meninos e meninas nos shows era tão expressiva que os organizadores tiveram que, a certa altura, começar a montar um cercado apenas para os pequenos, tanto era a adoração pela banda que cantava nos refrões coisas como: “sabão cru-cru, não deixa os cabelos do saco enrolar com os do cú!”. Fenomenal!

Você me deixa doidião
Oh, yes! Oh, nos!
Meu docinho de coco
Music is very porreta (Oxente Paraguai!)
Pos Paraguai ela não quis viajar (Oxente Paraguai!)
Comprei um Reebok e uma calça Fiorucci
Ela não quer usar (Oxente Paraguai!)
(Pelados em Santos)

Os garotos eram realmente diferentes. Ao contrário de muitos que se deslumbram com o sucesso e tentam se mostrar mais do que realmente são, os Mamonas debocham de tudo e de todos, principalmente de si mesmos e do sucesso que faziam. Não se intimidavam com microfones, fosse nos palcos, fosse nas mãos dos jornalistas. Certa vez, ao chegarem para um show na cidade gaúcha de Bento Gonçalves, um repórter veio com uma dessas pérolas do jornalismo: “E o show de hoje?”, perguntou. Foi que Dinho respondeu sem pestanejar: “Espero que seja super diferente, a gente em cima do palco tocando e o público lá embaixo pulando!”. Saída rápida pela direita...

E tampouco eram cabeças ocas, jovens sendo manipulados por algum inescrupuloso empresário. O marco da curta trajetória dos Mamonas Assassinas é seu retorno à Guarulhos, para tocar para 10 mil pessoas que lotavam o ginásio municipal. Alguns anos antes, ainda como Utopia, os rapazes haviam procurado o prefeito da cidade na esperança de abrir o show que Guilherme Arantes faria no local. Foram escorraçados e desencorajados a seguir na carreira.

Quando voltaram, já como Mamonas, fizeram algo inusitado, colocaram o Utopia para abrir o show. Sim, os mesmos cinco integrantes entraram no palco sem fantasias e fizeram um pequeno show com as músicas da antiga banda. Dinho ainda fez um descarado agradecimento aos Mamonas, reconhecendo a oportunidade que haviam recebido.

Depois, durante o show dos Mamonas, Dinho protagonizaria um momento que entraria para a história de Guarulhos. Parou o show, sentou na beira do palco (vestindo apenas uma lycra rosa) e discursou para uma platéia ensandecida, contando a velha história da rejeição e defendendo que cada um ali perseguisse seus sonhos. Nitidamente revoltado, Dinho termina o discurso desferindo um violento chute no pedestal que segurava o microfone. O ginásio respondeu com urros, gritos e uma salva de palmas ensurdecedora. O registro deste momento é facilmente encontrado no Youtube ao se digitar “desabafo Dinho". Vale a pena conferir.

Roda, roda e vira, solta a roda e vem
Neste raio de suruba, já me passaram a mão na bunda,
E ainda não comi ninguém!
(Vira-Vira)

De Bento Gonçalves à Macapá, os Mamonas correram o Brasil inteiro com suas canções, lotando ginásios e estádios. Com uma frenética agenda de shows, cobrindo em muitas ocasiões duas cidades em uma mesma noite, o grupo não podia mais se valer apenas das rodovias ou mesmo das rotas das linhas aéreas comerciais. Com 30 shows por mês, oito por semana, sendo em muitas vezes dois no sábado e dois no domingo, era impossível continuar viajando apenas de Varig ou Transbrasil.

Agora que eram sucesso, os produtores artísticos e empresários corriam para faturar o máximo possível. Para garantir a presença em todos os palcos, os Mamonas passaram a voar em jatinhos fretados, uma regalia reservada apenas para pop stars internacionais. O grupo gostava do conforto. O vôo particular permitia que eles voltassem para dormir com suas famílias.

Mas a comodidade traria o fatídico acidente quando, na noite de 2 de março de 1996, o jatinho trazendo a banda de um show em Brasília se chocou com a Serra da Cantareira, nos arredores da cidade de São Paulo. Um acidente até hoje pouco explicado visto que a aterrissagem era justamente no aeroporto de Guarulhos, totalmente conhecido dos pilotos e com dezenas de radares poderosos capazes do orientar até mesmo um teco-teco.


O que mais chama a atenção na trajetória dos Mamonas é a forma como os integrantes se relacionaram com as platéias, com o mercado, com a imprensa, e com tudo a sua volta. E mais ainda, o poder da música que encantou admiradores de todos os cantos, de todas as idades e faixas sociais.

Alguém pode dizer: ah, os mamonas foram apenas um efeito do marketing. Doce engano. Muito pelo contrário, aliás. Ainda incrédulos se a banda faria sucesso ou não, os executivos da EMI não deram nem um tostão para o tal marketing. Gravaram o disco, soltaram para as lojas e cruzaram os braços, aguardando para ver no que ia dar. A EMI, ao final, faturaria R$ 80 milhões com os Mamonas. João Augusto deve agradecer até hoje...

Quanta gente,
Quanta alegria,
A minha felicidade
É um crediário
Nas Casas Bahia
(Chopis Centis)



















A história da banda durou menos de seis meses. Tão pouco tempo nos deixa com poucas pistas para analisar o que aconteceu naquele ano de 1995, quando tudo começou. Que tipo de conexão a banda estabeleceu com seu público. Que fenômeno foi esse que abalou as estruturas do showbiz brasileiro fazendo com que outros artistas tivessem medo de se apresentar nas cidades depois da passagem dos Mamonas.

Talvez ainda demoremos a saber o que foi realmente o Mamonas Assassinas e qual a sua contribuição para a música brasileira. E talvez nunca saibamos já que, ainda hoje, a banda resta renegada a uma classificação menor.

Os Mamonas devem entrar para a história da Música Popular Brasileira não por terem sido um fenômeno de vendas, não por terem morrido todos em um dramático e estúpido acidente aéreo, mas sim por terem protagonizado algo novo, pela originalidade, não necessariamente no palco (pessoas fantasiadas cantando músicas divertidas temos aos montes por aí), mas na relação com a vida, pela postura alegre, descontraída e tranqüila, definitivamente não afetada pelo sucesso.

O documentário “Mamonas pra Sempre, o Doc” é fraco e o grupo merece ainda coisa melhor que conte sua história (como o fez a TV Globo em seu especial Por Toda a Minha Vida). Mas o trabalho de Sérgio Kahns abre uma brecha para retomarmos esse diálogo e reposicionar o grupo na história da música brasileira.

As pessoas que estavam antenadas, ou simplesmente abertas para escutar algo novo, sem julgamentos ou preconceitos, souberam aproveitar umas das bandas mais criativas que já tivemos no cenário musical brasileiro.

O colunista, como alertado no início do texto, foi um destes que marcou bobeira e sequer chegou perto de um disco ou de um show dos Mamonas. Espero estar mais atento da próxima vez.





KF



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domingo, 10 de janeiro de 2010

Angra dos Reis

Dos piratas de antes aos piratas de hoje,

a curiosa história de um paraíso ameaçado

Para muitos, Angra dos Reis é vista apenas como uma localidade dedicada ao turismo. Mas a atividade é a mais recente das tantas que já passaram pela região. Hoje, mansões de ricaços, artistas e veranistas em geral, casas simples de pescadores, vilas operárias e favelas, se misturam a uma estrutura industrial de porte extraordinário, incluindo um complexo de energia nuclear. Tudo isso em uma curta faixa de terra encapsulada em um cenário natural estonteante de montanhas escarpadas e mares cristalinos. Uma mistura explosiva.

A tragédia que acompanhamos, exaustivamente, em todos os noticiários, fez despertar no colunista a curiosidade sobre a região. E qual não foi a surpresa!

Como um pouco de História não faz mal a ninguém, vamos voltar um pouco no tempo e entender que lugar é esse. Ou melhor, vamos recuar bastante já que Angra dos Reis é uma das cidades mais antigas do Brasil, completou 508 anos de sua fundação, ocorrida em dia 6 de janeiro de 1502 (São Paulo seria fundada em 1554, e o Rio de Janeiro apenas em 1565), dia de reis, daí o nome de batismo (uma angra é uma pequena baía ou enseada protegida por costas elevadas).

Conhecida hoje como Costa Verde, a região leva este nome justamente pela proximidade entre a Serra do Mar e as águas do oceano Atlântico. As encostas escarpadas terminam praticamente, se não de fato, dentro do mar. Mas o Costa Verde não é apenas pela geografia, entenderemos melhor mais adiante.

Este trecho de litoral é praticamente carente de locais planos para a expansão das cidades. Foi por isso que a vocação da região, durante os primeiros séculos de colonização, foi a agrária.

A geografia por lá é realmente privilegiada, não só pelo verde abundante, mas também pelo salpicado de enseadas e ilhas que se espalham em todas as direções, sendo de tamanhos, formas e proprietários diferentes. Diz-se que são 365 ilhas e ilhotas, uma para cada dia do ano, mas é como dizem, quem conta um conto aumenta uma ilha, e talvez já sejam 366 (na verdade são “apenas” 180).

Esta proteção natural fez daquele litoral um ótimo porto para as caravelas e naus que singravam os mares do Novo Mundo. Não só para aquelas dos países oficiais, como para as não oficiais, dissimuladamente chamadas de Piratas. Com tantas ilhas e enseadas no continente, era fácil esconder não uma caravela, mas uma frota inteira.

Os portugueses perceberam isso e logo instalaram um porto em Angra. A primeira atividade econômica foi o recebimento de escravos, que subiam direto para as lavras de ouro das Minas gerais.

Da chegada de escravos pela região, seguiu-se o ciclo da cana-de-açúcar, com as amplas plantações que havia na região. Acompanhando a história do país, logo viria o ciclo do café. Pé de café, sabe-se lá por quê, prefere os terrenos inclinados, e esta topografia já estava lá. As plantações iam de Mangaratiba (RJ) a Ubatuba(SP), e subiam a serra em direção ao vale do Paraíba.


Donos de quase todo este trecho de litoral, os irmãos José e Joaquim Breves eram ricos e poderosos cafeicultores. Possuíam na região o expressivo montante de seis mil escravos e era através do porto de Angra que os recebiam. Apesar de serem grandes comerciantes de escravos, tendo na Restinga da Marambaia uma fazenda dedicada à quarentena e engorda de negros recém-chegados, e de terem mantido a atividade clandestinamente mesmo depois de abolida a escravidão, José Breves decidiu deixar grande parte de suas fazendas aos negros que haviam lhe servido durante tantas décadas.

No entanto, entregou a administração desta demanda a um certo coronel do exército que, em benefício próprio, acabou desvirtuando a vontade de José Breves e tomou as terras para si, deixando os negros libertos restritos a pequenos enclaves. Os quilombos formados na época ainda hoje existem espalhados pela região. Era o início da especulação fundiária na região.

Apesar de pouco falada nos livros de história, Angra dos Reis tem um papel protagonista em diversos ciclos econômicos desde a colônia. E por onde há dinheiro há ladrões, tantos os de galinha, como, principalmente, os de colarinho bem engomado. Assim, o histórico de riquezas oficiais que passaram pela região se cruza com as irregularidades, maracutaias, negociatas, e contravenções. A Baía da llha Grande era cenário para não só piratas, que assaltavam os navios de carga, como também era o local ideal para o contrabando de ouro, pedras preciosas e escravos, todos sem recolher o quinto da monarquia (quinto = imposto da época pago por toda atividade extrativista, ou seja, pagava-se à coroa um quinto do valor da mercadoria). Essa situação parece que deixou uma herança maldita de irregularidade, de mercado negro, de propinagem para a região.


Angra e o século XX

Entre as décadas de 1930 e 1950, Getúlio Vargas ordena a construção de uma estrada de ferro ligando a cidade de Barra Mansa, no Vale do Paraíba, a Angra, para assim poder escoar a produção da Companhia Siderúrgica Nacional.

Nos anos 70, a ditadura militar, aproveitando um falso milagre econômico, de uma tacada só mandou abrir a rodovia Rio-Santos - que rasgaria as encostas para unir os dois principais estados brasileiros também pelo litoral, instalou na baía da Ilha Grande o Terminal Petrolífero da Petrobras (TEBIG), por onde a empresa descarregava petróleo, e por fim o delírio apoteótico: a instalação, na beira do mar, de um complexo de usinas nucleares, Angra I e Angra II.



E ainda tem mais, entendendo a região como de vocação naval, é instalado também o estaleiro Verolme, fruto de uma parceria com os holandeses. Ou seja, praticamente todo o PIB brasileiro tinha sido concentrado em Angra dos Reis.

Podemos imaginar que estas obras, em um curto período da história, trouxeram para a região uma quantidade enorme de trabalhadores, em sua grande maioria de força braçal. E por lá eles ficaram quando as obras acabaram. Já tinham casa, namorada, mulher, filhos, ou seja, as raízes já haviam se fixado na região. E não poderia ser diferente.

Fica mais fácil entender a quantidade de favelas que hoje emolduram a paisagem da cidade de Angra dos Reis (a cidade tem a maior taxa de crescimento demográfico do país).



E por fim o turismo, que só chegaria nos anos 1980. O modelo europeu seria o escolhido para ser aplicado como estratégia para Angra dos Reis, suas praias e sua ilhas. A francesa Côte d´Azur é usada como padrão de negócio turístico (Côte d´Azur é Costa Azul em francês – agora terminamos de entender o nome “Costa Verde”), e a previsão era a instalação de grandes resorts, além de outros formatos de hospedagem.

A primeira a chegar para explorar a região foi a rede francesa de resorts Mediterranee. E daí a indústria de hotéis e pousadas não pararia mais de crescer em uma região com pouca infra-estrutura e pouca terra plana para se espalhar. O destino seria as ilhas.


A maior e mais bela

A Ilha Grande tem no nome os motivos óbvios. Sendo a maior e mais bonita da região, ficou muito tempo fora das rotas turísticas por um motivo hoje já quase ignorado por quem a freqüenta: foi sede para um outrora famoso e temido presídio.

Desativado e implodido em 1994, a retirada dos detentos abriu caminho para os empreendimentos turísticos, que já se consolidavam em outras praias do continente e ilhotas.

Na verdade a Ilha Grande já estava reservada à exploração muito antes até da chegada dos franceses do Mediterranee. Quando pensaram em levar o desenvolvimento turístico à Costa Verde, o governo militar, através da recém-criada EMBRATUR (1966), já vislumbrava a Ilha Grande como a cereja do bolo.

A estratégia era a de vender o país internacionalmente como um destino tropical, ou seja, florestas, coqueiros e praias de areia branca (e uma rede, é claro...). Sendo assim, é criado em 1971 o Parque Estadual da Ilha Grande. Descuidados, ingênuos ou ainda distantes do que viria a ser o ecologicamente correto, os autores do projeto deixaram claro quais as suas intenções com a criação do parque. Dizia o decreto:

Art. 1º - Fica criado o Parque Estadual da Ilha Grande, com aproximadamente 15 mil hectares, abrangendo terras situadas na Ilha Grande, Município de Angra dos Reis, visando a implantação de Zona de Apoio Turístico e a preservação de Reserva Florestal.

Ou seja, em primeiro lugar estava a exploração do turismo, e ali coladinho vinha a preservação do meio-ambiente. Sutil, mas relevante.


Entre o céu e o mar, a cruz e a espada

A região era um barril de pólvora. Um belíssimo ecossistema ameaçado por duas Usinas Nucleares, um terminal de bombeamento de petróleo, um estaleiro, e a sanha da especulação imobiliária que, irremediavelmente, se instalaria na região com seus condomínios fechados, cerceamento do acesso às praias; desmatando encostas e fraudando documentos e licenças ambientais.

O movimento ecológico, ainda imberbe, contra-atacava. Pressionando o governo, sucessivas levas de ambientalistas foram conseguindo vitórias que buscavam a preservação do ecossistema da região, justamente seu maior patrimônio e atrativo turístico.

Além do Parque Estadual da Ilha Grande, foram criadas outras áreas de preservação que ampliavam e determinavam o nível de ocupação e quais atividades poderiam ser desenvolvidas em cada microrregião. Nasciam a Reserva Biológica da Praia do Sul, o Parque Estadual Marinho do Aventureiro, ambos na Ilha Grande, e ainda a Área de Proteção Ambiental Tamoios, que integra toda a Ilha Grande, as ilhas dentro das baías da Ilha Grande, da Ribeira e da Jacuecanga.

Para entender o acontece no Brasil em termos de preservação ambiental, precisamos compreender uma terminologia complicada, advinda da criação do SNUC, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação(2000), que buscou classificar as diferentes identidades de cada área de proteção.

O SNUC estabeleceu as características das estações ecológicas, das reservas biológicas, dos monumentos naturais, dos refúgios da vida silvestre, e por aí segue. E dentro de cada uma delas outras subdivisões: Zona de Preservação da Vida Silvestre (ZPVS), Zona de Conservação da Vida Silvestre (ZCVS), e Zona de Ocupação Controlada (ZOC), entre outras.

A Ilha Grande é uma costura destas siglas. Assim como a Ilha Grande é hoje um apinhado de construções irregulares. Não necessariamente ilegais, mas grande parte do que se vê fora da Vila do Abraão, espécie de capital da ilha, está fora das normas de ocupação atuais.

A pousada Sankay e todas as demais construções soterradas pelo desabamento do ano novo estavam dentro de uma ZCVS, uma zona possível de se construir, diga-se de passagem, mas com fortes limitações. Pelo que se viu nas fotos, pelo porte da pousada, é pouco provável que estivesse dentro dos padrões. Mas isso não saberemos, e tampouco importa mais. O que parece importante é o reconhecimento de que a região já chegou a seu ponto de saturação.

Mas por enquanto ainda não existe no horizonte nada que faça parar o crescimento desordenado na região de Angra dos Reis. Seria do poder público a função de gerir e fiscalizar a boa utilização dos recursos naturais e paisagísticos, mas, tristemente, onde há restrições, há corrupção. Onde há fiscalização, há propina, onde há terras, há especulação.

Talvez herança da pulverização descontrolada das terras dos irmãos Breves, hoje a região de Angra dos Reis é uma verdadeira bagunça cartorial. Não se sabe ao certo quem são os verdadeiros donos das terras, documentos se sobrepõe, a mesma terra é registrada para mais de um proprietário, e licenças ambientais para construir condomínios e mansões de luxo são compradas com naturalidade. São os novos piratas a agir protegidos pelas encostas.

Mas há os que ainda tentam moralizar a situação.

Em 2007, o poder público realizou em Angra dos Reis uma grande operação. Chamou-a de Cartas Marcadas. Cerca de 30 mandados de prisão foram expedidos, estando entre os presos funcionários do alto escalão da prefeitura de Angra, da FEEMA (Fundação Estadual de Engenharia e Meio Ambiente do Rio de Janeiro), políticos, empresários e por pouco não prendiam também o prefeito, à época Fernando Jordão (PMDB).

Não houve punições até o momento.


O governador atrasado

Mesmo tendo passado a sua virada de ano novo na cidade de Mangaratiba, cerca de 60 quilômetros distante de Angra dos Reis, Sérgio Cabral só apareceu no local da tragédia 24 horas depois.

E talvez tenha feito isso pois havia uma carta em sua manga que o deixava comprometido com as causas do acidente. Uma carta marcada pela própria caneta do governador, que havia assinado em junho do ano passado um decreto flexibilizando algumas características do zoneamento da Ilha Grande e toda região da Costa Verde. O decreto 41.921/09 flexibilizava justamente o uso das ZCVS.

Cabral sabia que em algum momento alguém iria se dar conta da relação do decreto com a tragédia. Cabral sabia que iria ter que responder a perguntas. Mas acima de tudo, Cabral sabia que não saberia o que dizer.

Dizem que por trás do decreto existe um pool de homens poderosos, com empreendimentos na região. Uma das fontes para esta coluna garante que entre eles estão um jovem apresentador de televisão, um dono de um jornal outrora poderoso e hoje decadente, e um empresário do setor hoteleiro. Vai saber...

***

Talvez seja hora de parar de sempre colocar a culpa nos outros ou no governo e passar a refletir qual a participação de cada um no processo de degradação ambiental. As construtoras estão ali erguendo novos empreendimentos pois há quem os compre. Pousadas se lançam em sopés de escarpas pois há quem demande hospedagem.

Ao contrário do que parece, a questão ambiental no planeta passa muito menos pelas leis ou grandes convenções internacionais, e muito mais por uma mudança de postura de cada um de nós. Informação e atitude são duas ferramentas que podem mudar o destino das coisas.

Esta tragédia em Angra dos Reis, que não foi a primeira e nem será a última (permitam-me o clichê), vem reforçar o aviso que a mãe-natureza vem dando nos últimos anos: não se deve mexer naquilo que está quieto. E vem ainda com outro recado poderosíssimo: as conseqüências não escolhem hora, dia, ou razão social. O desmoronamento aconteceu durante a madrugada, no dia mais feliz do ano, atingindo ao mesmo tempo o paraíso e a favela.

KF



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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A história de Cadinho

No filme Sociedade dos Poetas Mortos, um então pouco conhecido ator chamado Robin Williams eternizou uma expressão que seria grafada em prefácios de livros, tatuadas em braços e ombros, impressa em camisetas e usada e abusada na publicidade: Carpe Diem.

Uma tradução direta do latim? Colha o dia (os filósofos gregos sempre com sua interessante visão de mundo).

Seu significado ampliado? Aproveitar a vida ao máximo, sugar o seu sumo, impregnar-se de sua essência.

A história que trago hoje é de uma pessoa que, independente de doutrinas, campanhas publicitárias ou crenças religiosas, elevou à quintessência o mote de Williams.

A biografia de Ricardo começa em um dia qualquer, em um momento qualquer da vida que ele até então levava.

Ricardo é um carioca de bem com a vida. Uma vida que sempre foi boa, e que ele, generosamente, retribuía sendo bom com tudo o que o cercava: família e amigos. Aos 22 anos, chegava ao final de sua formação acadêmica. Seguindo os passos do pai, estava se formando em Administração de Empresas. Filho de Márcio e Mara, irmão de Patrícia.

Foi de Mara a decisão de mudar de médico. Um hábito salutar ao longo de nossas vidas, tanto para o paciente quanto para o profissional. Pela nova escolha, é fácil perceber que Mara não costuma negociar com a qualidade dos produtos e serviços que consome. Levou a família para um check-up com um dos melhores profissionais atuantes no país, o médico João Pantoja, diretor do hospital Copa D’Or (Pantoja foi um dos médicos envolvidos na tratamento do cantor Herbert Vianna).

Ao receber os novos clientes, Pantoja decidiu, curiosamente, incluir um procedimento pouco usual na rotina de um check up para alguém tão jovem, um raio-x de tórax e abdômen.

Com o resultado dos exames em mãos, João deve ter sentido um frio descendo pela espinha. As manchas que via no sistema digestivo de um jovem de 22 anos só poderiam ser uma coisa. E essa doença tinha um nome. O nome mais aterrorizante que uma pessoa pode se deparar. Um nome tão forte que ainda hoje habita na esfera do indizível, dos tabus.

Pantoja não mediu as palavras. O tratamento só estaria disponível nos EUA.

Ao perguntar quando isso deveria ser feito, Márcio ouviu a resposta que não gostaria de ouvir: “Amanhã!”.

Os recursos e decisões que Márcio moveria a partir daquele dia, iriam alterar definitivamente o seu modo de ser, o seu trabalho, a sua vida.

Em 48 horas Ricardo dava entrada no hospital Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, na cidade de Nova Iorque. Um dos melhores, se não o melhor centro de tratamento de câncer no mundo. E é da sala de espera deste hospital que a história de Ricardo, chamado de Cadinho pelos mais próximos, iria começar a cruzar com a do colunista.

Sem avisar aos pais ou a ninguém, Cadinho escreveu uma carta aos amigos. Enviada pela internet, começava assim:

“Fala Galera, desculpe a demora, mas durante muito tempo fiquei escolhendo as palavras certas para escrever para vocês. Como vocês sabem, as coisas estão difíceis por aqui. Difíceis de não estarem correspondendo as minhas expectativas. Como sabem, por três vezes tive notícias desagradáveis, e por três vezes entrei em choque. Primeiro foi a descoberta no Brasil de um tumor. Segundo, o diagnóstico, assim que cheguei em NY, de tumor maligno(...). E por fim o diagnóstico final e verdadeiro, como vocês sabem, estou com câncer e o mesmo já se espalhou”.

Apesar da dura realidade, curiosamente o texto transmitia uma serenidade, uma postura madura demais perante a vida para um moleque recém saído da adolescência. E a coluna desta semana é justamente sobre isso, sobre algo que vai muito além do que quer que se possa expressar em palavras.

Cadinho “entrou” em Carpe Diem, ou talvez sempre tenha estado. A diferença é que, a partir daquele momento, ele passou a emanar e contagiar a todos os que o cercavam com esta energia.


A palavra que não queremos ouvir

Para entender melhor do assunto, visto que a informação praticamente não circula fora do eixo paciente-médico, o colunista resolveu pesquisar um pouco mais sobre a doença. Uma doença que de tão aterrorizante, fica jogada ao preconceito e à desinformação.

E qual não foi minha surpresa ao, finalmente, entender o que é o tal Câncer e, permitam-me, o quanto de poesia e ensinamentos podemos aprender com esta doença. Pois sim, doenças nada mais são do que ensinamentos à humanidade, mostrando os caminhos certos ou errados que estamos trilhando, e nos lembrando sempre que devemos ao Tempo, uma dose de humildade, e à Vida, uma dose de respeito.

Somos um amontoado de células. Mas precisamente 1 trilhão delas. Isso mesmo, 1.000.000.000.000 de células que formam dos nossos ossos aos nossos fios de cabelo. E elas não param de se multiplicar do momento da fecundação até o último suspiro dos pulmões.

Cada célula já nasce com seu prazo de validade. Com sua missão a cumprir. Algumas podem durar apenas algumas horas, outras ficarão conosco por muitos anos, e outras ainda, como os neurônios, nos acompanharão até o fim da vida.

E isso tem um nome: apoptose. O termo vem do grego antigo (olha o latim aí de novo gente!) e faz referência a queda das folhas no outono. Então, o que se tem é a idéia de renovação constante. É como se fizéssemos uma troca de pele como as cobras, só que em nosso caso, uma troca invisível.

Mas acontece que, por uma série de motivos, vez por outra aparece uma célula que se nega a cumprir o seu papel. A célula, então, passa a crescer descontroladamente, se transforma em um alien celular, buscando sua nutrição em outras células saudáveis. Não só isso, a célula cancerosa passa a ter a capacidade de se locomover, invadindo outros tecidos, podendo se alojar em praticamente qualquer parte do corpo, ou mesmo em múltiplas localizações.

A célula cancerosa nada mais é do que uma célula que se rebelou ao seu curso natural, uma célula que se negou a morrer. O curioso é que, ao tomar esta decisão, não sabe a célula que estará levando junto seu hospedeiro, irá matar justamente aquilo que ajudou a criar.

Então o câncer é isso. Talvez devamos ter com esta doença o mesmo cuidado que tivemos com a Lepra. De tão estigmatizada, conferia aquele que a possuía não só o drama da descaracterização, mas também o escárnio e o alijamento da sociedade, além da morte iminente. Com a lepra tivemos que mudar o seu nome para que, livres do preconceito, pudéssemos avançar no diagnóstico e na cura. Hoje a lepra é conhecida apenas como Hanseníase, em homenagem ao seu descobridor, o norueguês Gerhard Hansen.


Informação é cura

Ao saber da gravidade e do raríssimo tipo de câncer que estava alojado no estômago de seu filho, Márcio tomou uma decisão radical (entendendo radical como aquilo que tem raízes): interrompeu todas as atividades profissionais que mantinha e se lançou em uma busca incansável por conhecimento.

Debruçado sobre a tela do computador, Márcio vasculhava o planeta em busca de informação, novas práticas, novas pesquisas, drogas experimentais e qualquer traço de conhecimento que pudesse ser aplicado ao caso de Cadinho.

E não seria tarefa fácil. Ricardo havia sido diagnosticado com um tumor. Mais que isso, um tumor maligno. Mais que isso ainda, um tumor maligno metastático, ou seja, já espalhado em diversos órgãos. E ainda tinha mais. Ricardo havia sido diagnosticado com um câncer raríssimo e agressivo, que de tão raro, sequer tinha um nome ou uma tradução para o português. Cadinho carregava em seu corpo um DSRCT, ou Desmoplastic Small Round Cell Tumor.

Para se ter uma idéia da baixíssima incidência deste tipo de câncer, são registrados por ano apenas 50 casos em todo o mundo. Segundo o INCA (Instituto Nacional de Câncer), para o ano de 2010 são esperados, de acordo com as estatísticas e prognósticos, cerca de 50 mil novos casos de câncer de mama, outros 27 mil casos de câncer no pulmão e ainda 21 mil de câncer de estômago, apenas citando algumas variações, apenas citando o Brasil.

Cadinho tinha uma doença que incidia em apenas 50 pessoas por ano, no mundo!

Márcio soube então, economista que era e conhecedor das regras do mercado, que não haveria interesse da indústria farmacêutica, nem dos laboratórios, na busca de drogas específicas para este câncer. Pois não vá o leitor pensar que todos os cânceres são tratados da mesma forma. Uma sessão de quimioterapia nada mais é do que a administração de um coquetel de drogas para aquele paciente com aquele tipo de câncer, naquele estágio específico. Ainda mais, o câncer percebe que estão tentando destruí-lo, e com isso muta-se para ficar resistente aquele tipo de quimioterapia.

Então, além do pouco que sabemos sobre o câncer, o que sabemos é isso: o combate a um inimigo camaleônico, um inimigo silencioso, um inimigo se escondendo dentro de nós mesmos, um inimigo que somos nós a alimentar e fortalecer.

Para tornar a situação ainda mais dramática, o resultado do primeiro raio-x chegou no semestre de sua formatura no curso de administração na PUC. A reação de Ricardo não pareceu a de um jovem com apenas 22 anos, mas sim de um ancião, de um sábio, de um mestre. Pediu a conivência da família no silêncio que manteria até que o resultado definitivo viesse. Não queria estragar a festa.

E seria assim pelos anos seguintes. Não no silêncio, mas em um pacto não verbal entre a família, onde cada um assumiu um papel na administração da doença. Mara era responsável pela medicação e por manter o alto astral, sempre aparecendo a cada manhã com novos projetos e novas idéias. A irmã Patrícia cumpria um papel semelhante. Márcio se debruçou na busca por caminhos que levassem a cura, e à Cadinho sobrou o papel de viver, curtir a existência, Carpe Diem.


Enquanto isso...

Para os médicos do celebrado Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, Cadinho tinha pouco tempo de vida. Seis meses depois da primeira quimioterapia e de uma intervenção cirúrgica para retirada dos tumores visíveis, os exames mostravam o retorno quase completo da doença. A família solicita então uma nova intervenção cirúrgica. O Sloan-Kettering se nega a operar.

Com a frieza com que são conhecidos, os médicos norte-americanos, ao se depararem com o DSRCT, solenemente decretaram que Ricardo recebesse alta e retornasse ao Brasil. Nas linhas minúsculas, o subtexto estava claro: volte para morrer entre os seus.

Nos anos que se seguiram, Márcio focou sua vida em uma intensa pesquisa. Mais do que isso, sentindo-se desamparados pela indústria da saúde, a família decidiu assumir o tratamento, e mais ainda, num gesto ousadíssimo, decidiu assumir a pesquisa e a administração de novas drogas e terapias, coordenando grupos de pesquisa e interagindo com pesquisadores e laboratórios que pesquisavam novos protocolos. Naturalmente com o consentimento de Ricardo e o acompanhamento e parceria de médicos em vários países.

Márcio me contou que a primeira coisa que aprendeu foi que as estatísticas não funcionam no câncer. E que o primeiro round seria contra o tempo. Eles tinham que ganhar tempo.

Na medida em que ia conhecendo mais profundamente a doença, e se posicionando com conhecimento de causa, Márcio passou a ser respeitado e ouvido pela comunidade médica - uma classe já costumeiramente presunçosa e corporativista - chegando ao ponto de influenciar em decisões para novos protocolos quimioterápicos.

Como o Sloan-Kettering não quis mais tratar o câncer de cadinho, não querendo assumir, eventualmente, o óbito daquele paciente, a família decidiu buscar em outro super-hospital a continuidade do tratamento. Mudaram-se para o The Mount Sinai Medical Center, também em Nova Iorque. Iniciariam ali uma batalha campal contra a doença que atravessaria oito cirurgias, 12 protocolos diferentes de quimioterapia, cada um com uma média de seis sessões, duas radioterapias, um transplante de célula-tronco e uma imunoterapia. Os médicos que acompanharam o caso eram unânimes em relatar que nunca tinham visto uma resistência tão grande aliada à tamanha alegria de viver. Ficavam surpresos como Ricardo encarava a sua realidade com naturalidade.

Cadinho seguia a sua vida. Namorava, montava sua empresa. Como o pai, trabalhou no mercado financeiro. Foi um dos fundadores da Casa do Saber, um centro de cursos livres hoje bastante conhecido no Rio de Janeiro e São Paulo. Freqüentava o carnaval de Salvador, saía em Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Ou seja, seguia curtindo a vida adoidado. Era esse o seu papel.

A ponte-aérea Rio-Nova Iorque era intensa. Na volta, Márcio sempre trazia novas drogas, algumas recém lançadas ou mesmo em testes. Márcio passou a receber em seu apartamento pacientes de câncer e seus familiares. Discutiam os tratamentos, se aconselhavam, se apoiavam. Com o conhecimento cada vez mais apurado, Márcio não só debatia com médicos sobre os caminhos a seguir nas pesquisas, como filtrava informações conflitantes e recomendava alguns tipos de tratamento a esse grupo.

Márcio não tinha tempo a perder. Ele sabia que, para chegar ao mercado, uma nova droga consumiria 20 milhões de dólares e 10 anos em pesquisas e testes antes de ser liberada. Até mesmo em ervas medicinais ele foi buscar uma chance de ganhar tempo. Testou a cúrcuma, ou açafrão-da-terra, que hoje é testada em combinação ao medicamento Tamoxifeno.


Oncologistas: porta-vozes do mal?

Conversei com o oncologista Carlos José Coelho de Andrade, Ex-chefe de oncologia clínica do INCA - Instituto Nacional do Câncer, sobre esta difícil tarefa, a de não só ser o porta-voz de uma doença potencialmente letal, como também de ser aquele que acompanhará o paciente em seus momentos finais.

Carlos José me contou que hoje já existe uma corrente de pensamento entre alguns profissionais que praticam o que eles chamam de “Breaking Bad News”, ou a prática de quebrar uma notícia ruim em partes. “Dar uma notícia ruim é um momento importante neste processo. Dar uma notícia ruim envolve passos, saber o que a pessoa já sabe, oferecer a informação no tempo da pessoa, estar preparado para lidar com a reação do paciente, manifestar compaixão no olhar, no toque, minimizando assim o sofrimento do paciente e também do profissional que muitas vezes, para tentar manter a frieza necessária, se coloca distante no processo”, diz ele. O oncologista destaca ainda que a síndrome de burn out (um alto nível de estresse vivido por profissionais que atuam sob pressão) é alta entre profissionais da saúde neste segmento.

Carlos José tem 16 anos de profissão. Pode-se imaginar quantos pacientes já acompanhou. Segundo ele, a compreensão do que é a Vida faz a diferença na hora de se deparar com seu fim. Assim como a formação religiosa também influi neste momento.

Momento, aliás, que é visto por alguns estudiosos como um período especial da vida. São vários os casos de pessoas que afloram o seu melhor neste instante. Deparadas com a finitude, com o não ter mais tempo a perder, valores são reposicionados, crenças são reavaliadas, o ser se ilumina. “A vida pode ficar mais interessante depois que você percebe como as coisas são maravilhosas”, reflete Carlos José.

O ex-chefe de oncologia clínica do INCA aproveita o contato com o colunista para fazer um alerta: o câncer está crescendo e, para 2030, é tido pelas instituições internacionais de pesquisa como a principal causa isolada de mortes. Sendo que 70% dos casos são e serão relacionados ao tabaco, a má alimentação e ao sedentarismo.

Mas Carlos fez questão de lembrar que o diagnóstico do câncer não é uma sentença de morte. Quanto mais cedo diagnosticado, melhores as chances de cura. “O problema é o medo do desconhecido, isso afasta muita gente dos consultórios. Já tive pacientes que, ao saberem da possibilidade de estarem com câncer, nunca mais voltaram para a próxima consulta. Isso é um erro gravíssimo!”, diz.

Carlos José é um médico que foge aos padrões rígidos da classe, afinal ele vem estudando a medicina ayurveda, praticada há milhares de anos pelos hindus na Índia e com um entendimento mais amplo da medicina, incluindo ai um acompanhamento também da alma da pessoa, de sua essência, de sua subjetividade. Carlos entendeu que “a morte não pode ser considerada uma derrota. A morte é uma etapa da vida como o nascer. Devemos sempre continuar vivendo, já que não sabemos quando vai terminar nossa vida. O futuro é apenas uma possibilidade. A única coisa que dispomos é o agora”.


A Passagem

Durante seis anos e dois meses, Cadinho seguiu desafiando as estatísticas. Sempre sorrindo, nunca falava sobre a doença. Tinha uma alegria de viver, era conselheiro dos amigos. Certa vez chegou a comentar com seu médico nos EUA que estava muito preocupado com os pais, pois eles não estavam mais vivendo suas vidas.

A cada três meses era feito um exame. Nos seis anos nunca houve uma melhora. Ricardo não se alterava. Não queria que os outros sofressem. Nunca reclamou da vida, nunca praguejou: “Por que eu?!”.

Curiosamente, Ricardo parece ter passado incólume às cinco etapas do processo de morte definidos pela psiquiatra suíça Elisabeth Kubler-Ross, autora da famosa publicação “On Death and Dying” (Sobre a Morte e o Processo de Morrer) como sendo a Negação, a Raiva, a Negociação, a Depressão e a Aceitação de que a morte é inevitável.

Márcio sentiu, no final, que Cadinho cumpriu o seu papel de mostrar uma força de viver admirável e uma dedicação aos amigos inabalável. Ao longo dos seis anos, a família viveu a doença que, apesar de maltratá-los no coração, uniu-a “em um momento de amor intenso”, como definiu Márcio.

Ricardo foi tratado no The Mount Sinai por um dos mais respeitados oncologistas em atividade, Dr. James F. Holland. Ao saber da morte, Holland mandou a seguinte mensagem à família:

“Prezados, a sua perda é uma que eu compartilho. Existe um pilar na oncologia que é o de não se deixar envolver emocionalmente com o paciente pois, com a possibilidade da perda, em repetidas ocasiões, pode-se gerar um estresse crônico no médico, incapacitando-o para futuros atendimentos. Eu quebrei este ensinamento com o Ricardo. Ele foi um jovem especial e eu investi muita emoção e trabalho na busca de sua cura. Ele foi um paciente exemplar pois entendeu tudo o que estava em jogo. No entanto, nunca reclamou nem se sentiu injustiçado. Ele enfrentou com grande coragem e alegria os desafios que se apresentaram, me fazendo acreditar novamente que não é hora de me aposentar aos 84 anos de idade. Há muito o que se fazer e Ricardo me inspirou a continuar. Sinto-me honrado em tê-lo conhecido”.

Cadinho foi cremado em um domingo de sol no dia 13 de setembro deste ano. Compareceram a cerimônia mais de 300 amigos. Curiosamente, e sem combinação prévia, todos vieram de branco. “Foi uma celebração da vida”, diz Márcio.

Não houve qualquer serviço religioso. Com um microfone e uma caixa de som, os amigos se sucediam ao contar histórias alegres que viveram com ele. “A gente queria que a mensagem dele seguisse adiante: curte a vida, curte cada momento!”, me disse Mara. O ato de sétimo dia foi um pagode com direito a samba e caipirinha, no que ficou conhecido como o Pagode do Cadinho, marcado agora para acontecer anualmente, só para amigos.

Ao contrário do que pareceu até agora, o colunista nunca conheceu Ricardo. E nossas vidas só se cruzaram por conta do anúncio que Márcio, Mara e Patrícia colocaram no obituário do jornal O Globo naquele domingo 13 de setembro. Não sou de ler com atenção esta seção. Passo os olhos apenas para, nem sei bem por que, saber quem foi dessa para melhor, como dizemos no popular. Mas o texto inusitado me chamou a atenção. Primeiro pelo volume e estilo do texto, segundo pela primeira frase, muito incomum onde estava: “Fala galera” (o texto na íntegra está no final da coluna). O colunista saberia depois que não só ele, mas dezenas de pessoas procurariam a família emocionados com o texto, que seria também debatido em programas de rádio ao longo daquela semana e comentado a esmo pela cidade.

Aliás, esta foi minha última pergunta para ele, porque haviam decidido publicar aquele anúncio e dar a entrevista? Márcio me disse que era tão somente para que o recado que Ricardo deixou seguisse adiante.

O colunista entendeu que seria uma boa história para contar, e, mais ainda, uma excelente história para fechar 2009. Nos finais de ano, essa época em que tendemos a parar e avaliar o que já passou. Um período propício para uma reflexão mais profunda sobre a nossa existência e sobre a forma como vimos colhendo o dia nosso de cada ano.

Carpe Diem

KF



RICARDO FAINZILIBER

(CADINHO)

29-01-1981 12-09-2009

Fala galera,

Desculpe a demora, mas durante muito tempo fiquei escolhendo as palavras certas para escrever para vocês, e acabei não escrevendo nada. Como vocês sabem, as coisas estão difíceis por aqui. Difíceis no sentido de não estarem correspondendo as minhas expectativas. Como sabem, por três vezes tive notícias desagradáveis e por três vezes entrei em choque. Primeiro a descoberta no Brasil de um tumor. Segundo, o diagnóstico, assim que cheguei em NY, de tumor maligno, mas não apresentando metástase. E por fim o diagnóstico final e verdadeiro, como você todos sabem, estou com câncer e o mesmo já se espalhou (essa foi a pior das notícias e a que mais demorei a me recuperar). Para os que não sabem, meu caso é um pouco complicado por se tratar de um tumor raro e quase desconhecido. Bom agora que já sabem os fatos científicos, esqueçam tudo.

Estou ótimo e muito feliz. Minha família tem sido fundamental neste momento, assim como o apoio de meus amigos. Obrigado a todos. Ainda estou me recuperando da cirurgia e em breve estarei começando a quimioterapia. Optei por fazê-la aqui por razões médicas. Mas dentro de alguns meses estarei voltando ao Brasil para dar um abraço em vocês.

Como vocês sabem, quimioterapia é um pouco complicado. Náuseas, enjôos, perda de cabelo, falta de apetite... mas no mais é tranquilíssimo. Hehehe. Logo agora que acabei de cortar meu cabelo. Droga!

Estou brincando. Óbvio que não me agradam esses efeitos colaterais, mas também não serão eles que me farão perder toda confiança, força e energia que consegui atingir.

Me surpreendo a cada dia. Faço questão de ao levantar da cama olhar para a janela e me fortificar observando a natureza e a vida. Estou muito feliz também com tanta energia e pensamentos positivos que tenho recebido. Desde missas, orações, grupos de meditação, a simplesmente pensamentos carinhosos. Sem dúvida tudo isso esta chegando até mim e está me ajudando nesta luta. Eu sou mais eu, aliás, sou muito mais eu....

Nada me abalará assim tão fácil, não se preocupem com isso. E quando tudo acabar, em breve, estarei de volta compartilhando todos os momentos que passei, todos os medos, todas as felicidades, todos os sentimentos que sem dúvida terão me engrandecido. Afinal, tudo na vida acontece por uma razão. Como não sei qual foi a dessa, estarei tirando lições a cada dia.

Espero que vocês já tenham percebido a mais clara das lições. A vida é muito frágil. Não complique, busque a felicidade de forma simples, custe o que custar. Outra coisa fundamental que aprendi: tudo na vida é relativo. Quando você se encontrar estressado, com problemas, analise bem a situação e reflita: será realmente este problema digno de tanta tristeza e preocupação? Talvez não. Tenho compromisso médico, mais ainda quero ver se consigo escrever mais um pouco do que tenho passado e sentido, mas isso fica pra mais tarde. Afinal, o dia está apenas começado.

Amo vocês!!!

Ricardo Fainziliber