quarta-feira, 1 de julho de 2009

O dia em que a favela dançou

Era o verão de 1996, mais precisamente fevereiro. Um domingo. Eu havia acabado de chegar de uma viagem de férias. Morava no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Da janela do apartamento podia-se ver em panorâmica 180º de prédios e morros, um deles o Dona Marta, onde fica a favela Santa Marta.


Era um domingo quente de verão como outro qualquer. Mas não ficaria assim por muito tempo. Ao olhar para o Dona Marta, notei que alguma coisa estava diferente. O morro era distante o suficiente para não permitir ver a movimentação de qualquer pessoa na comunidade, mas naquele dia havia alguma coisa estranha, na verdade era um colorido que chamava a atenção.


Busquei um binóculo e mirei em direção àquele pontilhado de cores. Quando consegui focar, vi que eram na verdade centenas de pessoas sentadas nas lajes e nas janelas, todas olhando na mesma direção.


Foi quando caiu a ficha: era o dia da gravação do clipe de Michael Jackson.


Não se falava em outra coisa no país. O assunto tinha ficado ainda mais em evidência graças a um desastrado senhor que decidiu que iria proibir Michael Jackson de filmar na favela. Mas isso eu conto em breve.


Na câmera fotográfica recém-chegada da viagem ainda restava um filme a terminar. Coloquei-a na mochila, montei na bicicleta e parti em direção à entrada da favela. Cheguei em 10 minutos e fui logo subindo, sem dificuldade. A movimentação de jornalistas, policiais e curiosos era intensa, fácil descobrir onde estava o epicentro da confusão.


Ao entrar na pequena quadra da escola de samba São Clemente, no pé do morro, onde estavam concentrados todos os jornalistas - o morro estava fechado para a imprensa - dei de cara com uma Glória Maria furiosa e iniciando uma rebelião que iria arrastar todos os que estavam ali.


A veterana jornalista da TV Globo bradava que não agüentava mais ficar ali esperando e que aquilo era uma falta de respeito. Ou ela iria entrar ou iria embora, falava para quem quisesse ouvir.


Passou a mão no microfone de Globo, enrolou o cabo, colocou embaixo do braço e partiu. Atrás dela fomos todos. Jornalista em plantão é assim, quando um se movimenta, todos se movimentam. Quem perde a foto perde também o emprego. Foi um tal de cinegrafista correr pra pegar a câmera, fotógrafo agarrar a bolsa de equipamentos, e todos foram seguindo Glória Maria em direção a viela de entrada.


A turba de jornalistas foi se afunilando até não poder mais andar. Um grupo de jovens que vestiam um colete bicolor (cinza e rosa), identificando-os como sendo da produção, impedia a nossa passagem. Mas todos ali sabiam que eles representavam outra pessoa. Tinham sido colocados no posto pelo dono do morro. E o patrão naquela época era um sujeito que iria ficar muito famoso não só por conta de Michael Jackson, mas também por seu relacionamento com o cineasta João Moreira Salles. Sua trajetória de vida seria posteriormente contada pelo jornalista Caco Barcellos no livro Abusado. Estamos falando de Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP. Além do livro, Marcinho é hoje um verbete na respeitada enciclopédia eletrônica Wikipédia.


A notícia de que a produção do cineasta Spike Lee, responsável pela direção do clipe They dont care about us, teria negociado com Marcinho VP para a filmagem na favela, e conseqüente segurança da equipe, enfureceu as autoridades do asfalto. Na época era governador um senhor chamado Marcello Alencar, que tinha como secretário de Indústria Comércio e Turismo um outro senhor, muito rico, chamado Ronaldo Cezar Coelho, que além de irmão de um famoso árbitro era também dono do banco Multiplic.


Ronaldo, ainda pouco conhecido, precisava de uma plataforma para se lançar candidato à prefeitura do Rio, que aconteceria no ano seguinte. Assim, escolheu Michael Jackson como cabo eleitoral. Coelho alegou que o clipe iria denegrir a imagem da cidade ao mostrar apenas a favela. Não sabia o secretário, ou fingia não saber, que são justamente os governos incompetentes de prefeitos, deputados, vereadores e governadores que denigrem a imagem do Rio de Janeiro.


Ronaldo Cezar Coelho conseguiu até a adesão de figurões como Pelé, que questionou: “Porque não filmam no Pão-de-Açúcar?”. Pelé, a quem normalmente não devemos levar em conta quando está comentando assuntos fora de sua área de conhecimento (Pelé é capaz de ser garoto propaganda-enganosa de aparelhos que fazem o seu abdômen ficar sarado com choques elétricos), poderia ter ficado fora dessa furada.


Ronaldo conseguiu o que queria: estardalhaço, além de uma ação pública movida provavelmente por um advogado aliado. Por incrível que pareça, as filmagens chegaram a ser proibidas por um juiz de primeira instância, mas a decisão foi descredenciada por um desembargador sensato. O caso chegou até ao Itamaraty, que recomendou ao governo do estado que evitasse um incidente diplomático.



E lá estava eu, imprensado em um beco da favela Santa Marta com toda a imprensa nacional e internacional. Como meu objetivo ali era mais me divertir do que qualquer outra coisa, achei melhor ficar no final da fila, até porque, aquilo parecia que não iria progredir tão cedo.


Foi então que o inesperado se apresentou. Um morador da favela passou e disse, para quem quisesse ouvir, que sabia outro caminho para chegar até o set de filmagem. Todos estavam tão preocupados em furar o bloqueio dos meninos de Marcinho que ninguém prestou atenção no que ele disse, apenas eu.


Com o coração a mil, achando que a qualquer momento fosse esbarrar com alguém armado que me expulsaria dali, fui zanzando até chegar a um ponto em que não podia mais passar. E nem precisava, eu acabara de me dar conta de que estava dentro do set de filmagem e que era o único jornalista a presenciar o fato.


E o fato apareceu bem na minha frente. Assim que cheguei ao local o chão da favela tremeu com a música-guia de They dont care about us, tocada a todo vapor em caixas de som espalhadas por toda favela. Estupefato, vi Michael Jackson passar dançando e cantando a menos de um metro. A viela não recebia muita luz natural e eu não podia nem sonhar em usar um flash, por isso eu já sabia que ou as fotos ficariam tremidas ou subexpostas. Apertei o clique quantas vezes foram possíveis, em uma indecisão se olhava o que estava acontecendo ou se me preocupava em tarefas básicas como foco, diafragma etc






Sentia-me no maior furo jornalístico da história e já me imaginava milionário com a venda das imagens exclusivas.


O que matou Michael? Ou Quem? (ou a história se repete!)


O resultado da autópsia não interessa mais. Michael Jackson foi outra vítima de um sistema que toma conta da vida das grandes estrelas do mundo do entretenimento. Um sistema criado inicialmente para a indústria cinematográfica e que hoje ainda atua discretamente: o Star System.


O Star System, ou em uma livre tradução algo como Fábrica de Estrelas, foi um esquema deliberadamente montado pelos executivos de Hollywood a partir da década de 1940 para criar, promover e explorar astros do cinema, que muitas vezes tinham seus nomes mudados e suas personalidades e estilos de vida forjados e controlados. Foi assim que Rock Hudson (nascido Roy Harold Scherer jr.), de sexualidade não assumida, e que morreria vítima de SIDA, foi transformado em um símbolo sexual na mente de todas as mulheres. Temos uma brasileira nesta lista: Carmem Miranda (nascida Maria do Carmo Miranda da Cunha), foi consumida pelo álcool e, acima de tudo, por seu marido-empresário e uma indústria que exigia sempre mais.


Michael Jackson seguiria o mesmo caminho da mãe de sua grande amiga Lisa Minnelli, filha da megaestrela Judy Garland (nascida Frances Ethel Gum). As histórias são praticamente idênticas: início de carreira ainda na infância, problemas com a aparência, abuso de remédios e drogas, instabilidade financeira etc. Garland morreu de overdose aos 47 anos de idade.


No Globo Repórter inteiramente dedicado à Jackson, que a máquina jornalística da TV Globo conseguiu colocar no ar em menos de 24 horas da morte do cantor, um depoimento me chamou a atenção. Era de um brasileiro que havia trabalhado em uma das turnês de MJ. Ao ser perguntado sobre sua relação com o cantor e como era o dia-a-dia, o entrevistado se limitou a dizer que essa relação não existia simplesmente porque Michael era mantido cercado dentro de um núcleo de poucas pessoas que decidiam seus passos. Segundo o brasileiro, Michael parecia “uma pessoa frustrada e que não era senhor da sua própria vida”.


Como pode Michael Jackson se considerar uma pessoa frustrada? Que estrago fez o pai dessa família, visto que a história de humilhações e agressões é mais do que conhecida. Pobre menino rico.


A morte de Michael lembrou ao mundo quem Michael Jackson realmente foi, sua força como artista, seu talento como dançarino. Inovador. Genial. Em poucas horas uma corrida as suas músicas gerou pane em vários sites de compartilhamento mundo afora. O colunista foi um deles que, ao baixar grande parte de seus sucessos, pôde entender mais claramente o tamanho da perda. Sem ouvir MJ há muito tempo, escrevi grande parte desta coluna ao som de Thriller, Ben, Say Say Say, Rock with you, The girl is mine, Billie Jean, Dont stop till you get enough , um sucesso atrás do outro.


É fato que Michael teve seu esplendor na década de 1980, e que depois disso pouca coisa boa produziu. É fato também que, ao olharmos para trás, vemos que Jackson foi com certeza o artista de roupas mais exóticas do show business, para não dizer extremamente bregas. Mas Michael Jackson era um fora de série, e para foras de série não há instrumentos capazes de julgá-lo com acerto e precisão. Michael será referência para a música, mas também para a psicanálise, para a psiquiatria, para a indústria da estética e, agora, para os legistas.

Michael, apesar de sempre parecer fora do tom, ou acima dele, era um pacifista, um ecologista, um pensador do novo milênio antes mesmo de nada disso ser moda. We are the world é de 1985.


Michael foi lembrado, reverenciado e homenageado em todas as culturas, sejam do mundo ocidental, oriental, árabe ou asiático. Aliás, vale conferir um vídeo que circula na internet com uma coreografia feita por todos os presos de uma penitenciária nas Filipinas, emocionante.

A fama matou Michael Jackson. Fama que o encarcerou atrás de mansões, ilusões, máscaras cirúrgicas e casamentos fictícios. Morreu falido mas famoso. Os ingressos para o seu próximo show na Inglaterra tinham sido vendidos ao ritmo de 11 por segundo, eu disse por segundo! Cerca de 800 mil ingressos já tinha sido vendidos para a série de 50 shows.


E eu? Bom, eu saí dali correndo para um shopping revelar as fotos. Como já imaginava, tinham ficado uma bosta. E assim, eu não vendi nenhuma. Ronaldo Cezar Coelho não conseguiu sua candidatura a prefeitura e hoje é considerado um político de carreira medíocre. Glória Maria conseguiu uma entrevista exclusiva com o cantos. Marcinho VP foi assassinado por comparsas dentro do presídio de segurança máxima de Bangu após o lançamento do livro Abusado, de Caco Barcellos, acusado de traição ao Comando Vermelho. A favela Santa Marta, depois de anos sendo um local extremamente violento, hoje é uma das primeiras favelas “pacificadas”, ao menos é o que dizem por aí. Ganhou plano inclinado, escola de informática e casas coloridas. Dizem que vão erguer agora uma estátua de Jackson.


Como diria Vincent Price em Thriller:


Ha hahahahahah ha ha ha ha aha aha ha ha


KF



Em tempo 01: o clipe.

http://www.youtube.com/watch?v=gCqQ2JcQWGs&feature=channel_page

Em tempo 02: o clipe They dont care about us foi refeito em 2006. Muito mais contundente do que o primeiro. Confiram em:

http://www.youtube.com/watch?v=nvWMLAWrEjU

Em tempo 03: coreografia dos presos da penitenciãria CPDRC, nas Filipinas

http://www.youtube.com/watch?v=hMnk7lh9M3o


quinta-feira, 25 de junho de 2009

O Rei está morto. Viva o Rei!

O prezado leitor pode não entender o porquê de, logo o colunista de Um Texto por Semana, que tanto criticou a excessiva cobertura da imprensa à tragédia do vôo 447, ser justamente quem irá voltar ao assunto. Mas tão logo avance no texto, verá que o vamos tratar é pertinente e por demais curioso. Na verdade, a tragédia terá sido apenas a porta de entrada no assunto, que vem do tempo em que nem sonhávamos em voar.

Logo nas primeiras horas da manhã daquela fatídica segunda-feira, quando ainda estávamos muito longe de sequer chegar perto de algo que se parecesse com uma lista de vítimas, já sabíamos o nome de alguns passageiros, ilustres principalmente por seus títulos.

Um presidente de multinacional, um maestro e um príncipe brasileiro. Foi aí que me aguçou a curiosidade.

O jovem Pedro Luiz de Orleans e Bragança, morto no vôo 447, ou Pedro Luiz Maria José Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragança, era tataraneto da Princesa Isabel. Segundo a página da Casa Imperial do Brasil, uma instituição que se diz coordenadora das atividades monárquicas no Brasil e defensora da causa monárquica, ou seja, da restauração da monarquia no Brasil, Pedro Luiz era um entusiasta desta restauração. A página, atualizada logo depois do acidente, diz no texto de despedida: “por acreditarem que pode estar próxima a restauração da monarquia no Brasil, a maioria dos monarquistas brasileiros depositavam nele as esperanças pela restauração”.

Mas quem é essa gente?! Que brasileiros são esses que acreditam que uma restauração da monarquia pode estar próxima? Será que esquecem que a monarquia foi amplamente rejeitada no plebiscito de 1993. Aliás, um momento patético da história política brasileira e que, infelizmente, precisa ser relembrado.

No início da década de 1990, Antônio Henrique da Cunha Bueno, um deputado do PDS (Partido Democrático Social, agremiação de direita que teve entre seus fundadores José Sarney, Paulo Maluf e Mário Andreazza), conseguiu assinaturas suficientes para fazer funcionar um plebiscito nacional que decidiria se nossa forma de governo continuaria a ser a República, assim desde 1889, ou se voltaríamos à Monarquia. Também decidiríamos se o sistema de governo continuaria sendo o presidencialismo ou se nos transformaríamos em uma nação parlamentarista.

Nesta última, a escolha seria até válida, mas incluir a monarquia como opção de governo transformou o plebiscito em uma grande piada. Como não encarar desta forma? O slogan dos monarquistas, que tiveram direito ao uso do horário eleitoral e montaram campanhas e jingles, era: “Vote no rei!”. O jingle, uma jóia do marqueterismo político, dizia assim: “Por isso vem brasileiro entrar na real / pro nosso Brasil sair dessa afinal / A luz de uma idéia mudar o país / justiça e paz dentro da lei / Vote no Rei!!”.

Inacreditável!

A monarquia recebeu impressionantes 7% dos votos, contra 49% favoráveis a manutenção da República e outros 25% de abstenções. O presidencialismo, defendido pelo PT, PMBD, PFL e PTB, venceu os parlamentaristas do PSDB, e ficamos exatamente como estávamos. Só não se sabe quanto custou a brincadeira do plebiscito aos cofres públicos.

Mas voltemos a nossa família imperial. Ou famílias, já que existem dois ramos descendentes da Princesa Isabel, ou seja, cada um descendo de um dos filhos homens.

Isabel teve dois filhos, Luiz e Pedro (os nomes se repetem na família real, cuidado para não se confundir). Pedro de Alcântara, o primeiro na linha sucessória, abdicou do trono para se casar com uma condessa. A renúncia era por conta da moça não ter um título alto o suficiente para poder dar continuidade ao sangue azul da família real. Como o Brasil já não era mesmo uma monarquia e Pedro estava apaixonado, preferiu abrir mão dos direitos dinásticos.

Então a linhagem monárquica seguiu com os descendentes do caçula Luiz. Seu neto, Luiz de Orleans e Bragança, é hoje o chefe da tal Casa Imperial do Brasil. Pedro Luiz, o morto no acidente aéreo, era sobrinho de Luiz de Orleans.

Mas a família de Luiz, filho de Isabel, ganhou mas não levou. Conhecida como Ramo de Vassouras, os descendentes de Luiz herdaram os títulos mas ficaram sem o ouro. Esse ficou, e continua ficando, com o Ramo de Petrópolis, dos descendentes de Pedro, o que renunciou por amor.

E não é pouco dinheiro não, os descendentes de Pedro de Alcântara ainda lucram no Brasil sem fazer absolutamente nada.

É nobre leitor, a pesquisa, de tanto andar, foi dar com os costados em nada mais nada menos que o século V a.C, isso mesmo, voltamos 2500 anos de história para entender por que ainda se paga tributos à extinta monarquia brasileira.

Foi neste período que o Direito Romano criou o conceito da Enfiteuse, ou seja, o arrendamento por prazo longo ou perpétuo de terras públicas, que dava a seus arrendatários o direito de cobrar 2,5% do valor da venda do terreno, quantas vezes ele fosse vendido, para quem quer que fosse vendido, eternamente e para todos os seus descendentes. Este ótimo negócio tem nome, chama-se Laudêmio.

E em Petrópolis, cidade a 70 quilômetros do Rio de Janeiro, que abrigou tantas vezes a corte brasileira e hoje sede do Museu Imperial, ainda se cobra o Laudêmio Imperial. Qualquer venda de imóvel feita no centro da cidade deve pagar a uma certa Companhia Imobiliária de Petrópolis os tais 2,5%. Segundo o advogado que administra o escritório, grande parte deste dinheiro vai para a preservação de florestas. Pouca gente acredita nisso em Petrópolis, onde o assunto é tratado de forma velada.

Quem sabe a família imperial pudesse mostrar que realmente está apta a comandar o país utilizando este dinheiro em momentos especiais, como na tragédia do ano passado com as enchentes em Santa Catarina ou até mesmo nos desabrigados deste ano no norte do país, para continuar, assim dizendo, no tema que inspira este artigo. Mas não sabemos nada sobre esse dinheiro. Não sabemos quanto nem pra onde vai. Não há auditoria. Para se ter uma idéia do montante, consultando o mercado imobiliário de Petrópolis descobre-se que o valor de uma loja no centro da cidade pode variar entre R$600 mil e R$3 milhões. No caso da venda pelo maior valor, uma única venda, a família imperial recebe, sem verter uma única gota de suor, R$75 mil. Nada mal.

Quem sabe coubesse ao Ministério Público iniciar uma investigação sobre o caso, ou aos deputados, uma análise sobre a constitucionalidade da manutenção desta cobrança. O certo é o seguinte, se a monarquia brasileira, extinta há 120 anos, ainda merece receber pelo que um dia foi seu, é a hora de acertar as contas com os Tamoios. Eu mesmo vou procurar por minhas raízes, quem sabe sou tataraneto de Caramuru e tenha lá meu quinhão a receber? Vai saber...

KF



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segunda-feira, 15 de junho de 2009

Feriados, desenvolvimento e Brigitte Bardot



Ocorreu na última quarta-feira. Enquanto eu aguardava o chaveiro concluir a cópia de uma chave tetra, foi que ouvi novamente a velha ladainha contra os feriados. Um sujeito ao lado, que aguardava a vez, ao ser informado pelo chaveiro que não poderia voltar no dia seguinte já que era feriado, esbravejou: mas nesse país só tem feriado!!!

E não é só ele. Muita gente tem essa ideia de que a quantidade de feriados no Brasil é excessiva e de que isso atrapalha o desenvolvimento do país, afinal, quando é feriado ninguém trabalha!

Mas será mesmo verdade?

O ideal é consultarmos a matemática dos números, pois ela não mente jamais. Vejamos, tomando o Rio de Janeiro como referência - já que cada cidade acaba tendo o seu feriado local - no ano de 2009 teremos 16 feriados, isso porque eu resolvi dar logo três dias para o carnaval (oficialmente são apenas dois).

Fazendo as contas, vemos que os feriados representam algo em torno de 5% do correr do ano. Parece muito pouco para acusá-los de atrapalhar o desenvolvimento de um país.
O tema é polêmico e abre um flanco para falar de uma indústria poderosíssima e que parece pouco compreendida em nosso Brasil por uma parte da população e, principalmente, pelos governos, visto a ausência de políticas públicas que incentivem o turismo no país e ao país.

É um ingênuo engano associar feriados com vagabundagem, pernas pro ar ou como um dia simplesmente improdutivo. Quem pensa dessa forma deve achar que as pessoas ficam em suas residências assistindo televisão enquanto esperam o feriado terminar. Há muito trabalho nos feriados, basta visão e compreensão do seu potencial para transformá-los em verdadeiras máquinas de gerar emprego, renda e desenvolvimento.

São os feriados que levam oxigenação econômica para as pequenas localidades, com o deslocamento de milhares de pessoas das capitais para os interiores e praias deste país continental. São os feriados que geram empregos em cidades como Morro de São Paulo, na Bahia, Porto de Galinhas, em Pernambuco, Caldas Novas, Goiás, Gramado e Canela, no Rio Grande do Sul, Brotas, em São Paulo, ou Búzios, no Rio de Janeiro. Apenas para citar algumas poucas dentre as mais famosas.

O turismo gera tantos empregos diretos e indiretos que seria difícil citá-los todos aqui. Eu ousaria dizer até que a indústria do turismo é capaz de fazer girar todos os setores da economia. Podemos começar pelo óbvio, falando de garçons, cozinheiros, camareiras, mas o turismo também movimenta a construção civil, seja com a construção ou reforma de pousadas e hotéis, seja pela construção de casas particulares. Daí estamos falando de mestres de obra, pedreiros, carpinteiros, e nisso entram o donos de lojas de material de construção, que empregam vendedores, estoquistas, etc. E podemos voltar para o comércio com as farmácias vendendo protetor solar ou repelentes, padarias que servem o café da manhã a você ou ao dono da pousada, podemos falar da locação de veículos, de empresas de transporte (temos que ir e vir, não é mesmo?), motoristas, frentistas (temos que abastecer, não é mesmo?). Enfim, preciso mesmo continuar com essa lista?

Mas o fato é que continuamos a ignorar o potencial turístico de nosso país. Persistimos em não entender que essa é a nossa verdadeira vocação. Sim, viva a Petrobras, grande conquista! Viva a Embraer! Mas precisamos aproveitar as oportunidades que temos em nossas mãos.

Falamos que os números não mentem jamais? Então voltemos a eles. Os dados são da Organização Mundial de Turismo (www.unwto.org). A entidade publica um documento anual que chama de Barômetro Mundial do Turismo. Nele são analisados dados dos 50 países com melhor rendimento neste segmento. O Brasil está na posição 41 com algo em torno de 5 milhões de visitantes internacionais por ano. O número pode parecer impressionante se em primeiro lugar não estivesse a França, com 80 milhões de visitantes no mesmo período.

Outro dado significativo é o seguinte, apenas a Torre Eiffel tem mais visitantes do que todo o Brasil. Dados da página oficial do monumento parisiense informam que por ano são cerca de seis milhões de bilhetes vendidos.

Para não acharmos que isso é coisa de Europa ou Estados Unidos, o mesmo documento da UNWTO mostra que os hermanos mexicanos recebem 21 milhões de turistas/ano. Algo não estamos fazendo.

Agora já não achamos mais os 5 milhões de turistas estrangeiros que visitaram o Brasil grande coisa, não é mesmo? Mas mesmo assim essa presença foi capaz de gerar cinco bilhões de dólares em receitas para o nosso país. Imagine se um dia chegarmos ao posto da Austrália, que com 20 milhões de visitantes/ano arrecada 22 bilhões de dólares. Ou mesmo a Itália, com um território 30 vezes menor que o brasileiro, consegue figurar na lista em quarto lugar faturando U$ 42 bilhões por ano.

Mas parece mesmo que são os estrangeiros que entendem do assunto. Termino o artigo com a curiosa história de Búzios, uma pequena península próxima de Cabo Frio, no estado do Rio. Sua fama e fortuna estão associados a dois forasteiros. Primeiro veio a atriz Brigitte Bardot, em 1964, elevando a pequena localidade ao status de uma Saint Tropez. A cidade a retribuiu nomeando sua rua principal com seu nome: “Orla Bardot”, com direito à estátua de bronze e plaquinha comemorativa.

Depois, nos idos anos oitenta, chegou o belga Philippe Michel. Tife, como é conhecido, depois de rodar o mundo apostou em Búzios para investir em turismo. Nascia em 1983 a primeira creperia no Brasil, a Chez Michou, hoje um sucesso com franquias espalhadas em vários estados. Ainda falando com forte sotaque francês, Tife não entende a polêmica. “Acho os feriados necessários, principalmente para as pessoas da cidade grande saírem do sufoco em que vivem, saírem do stress, da poluição”, defende. O empresário conta que quando chegou na cidade eram apenas 8 mil habitantes e que hoje a cidade é lar de 36 mil pessoas, dessas, ainda segundo o belga, 90% dependem do turismo. “Quando cheguei acharam que eu estava doido em oferecer uma comida que ninguém conhecia, a comida local era o peixe frito e o Prato Feito. Perguntavam: que isso, você não serve com arroz, feijão e farofa?”, se diverte.

O turismo, erroneamente associado aos mais abastados, à gente rica, a quem tem vida boa - e talvez daí possa emanar o preconceito contra os feriados - é justamente uma ferramenta de promoção social, de distribuição de renda, de manutenção do morador em sua cidade natal, evitando o inchamento das capitais e, em um nível mais subjetivo, uma atividade essencial para não nos matarmos todos nesta louca vida das metrópoles. Mas vai muito além, viajar é o que nos faz humanos, o que nos conecta com nossa origem nômade, que no ensina e renova nosso olhar. O que se aprende viajando não está nos livros nem nas faculdades.

* o colunista viajou a Búzios e pagou por todas as suas despesas.


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domingo, 7 de junho de 2009

447: a hipocrisia no luto oficial



Quando desapareceu no meio de uma noite chuvosa de domingo, o vôo 447 da Air France saía da história para entrar, de forma avassalante, nas páginas de todos os jornais e telas de todos os noticiários.

Justo, justíssimo. Uma catástrofe como essa merece todas as atenções disponíveis. Mas inevitável, visto a proximidade dos eventos e a disparidade de interesse, não compará-la com algo ocorrido uma semana antes.

Longe do glamour da rota Rio-Paris, uma barragem mal conservada rompeu matando nove brasileiros no Piauí. Fosse só isso, já seria tragédia suficiente, mas as chuvas que forçaram a represa já eram responsáveis pela morte de outros 45 brasileiros no norte do país. Fez a conta? Sim, 54 brazucas, um outro vôo 447.

Mas não sabemos quem foram estes cidadãos. Não sabemos suas profissões, que cargos ocupavam em seus empregos, não sabemos a linhagem familiar dessa gente, de quem eram filhos ou bisnetos. Não sabemos se havia algum recém-casado, alguém que estava prestes a tirar férias. Aliás, não sabemos sequer se esse povo tira férias, lua-de-mel, se ganham prêmios pelo bom rendimento em suas profissões.

Não nos interessamos pelas causas e responsáveis, não vimos plantões nos noticiários, nenhuma programação foi alterada para seguir os esforços de buscas pelos sobreviventes e vítimas fatais. Não sabemos sequer se houve esforço algum.

Ou melhor, para não ser injusto, sim houve o deslocamento de uma fragata para apoiar no envio de medicamentos e mantimentos aos ribeirinhos, e vimos também um helicóptero da aeronáutica resgatando os ilhados. Mas nada se compara a frota de navios enviada aos mares de Fernando de Noronha, nem a esquadrilha mobilizada em diversas bases aéreas Brasil afora, em tempo e agilidade pouco usuais.

O certo é que não há excesso em Fernando de Noronha, está correta a ação, mas o episódio nos faz pensar sobre as escolhas e sobre como os recursos são utilizados, pois eles existem, como estamos vendo neste momento.

Também não se viu pelas vítimas nortistas nenhuma comoção nacional, lágrimas em horário nobre, missa rezada por arcebispo. Nenhuma das vítimas recebeu a visita de um vice-presidente da República, de um Ministro, nem sequer de autoridade maior que se tenha notícia. Será que um vereador apareceu por lá? Não sabemos.

Os jornais, irresponsáveis em sua pressa, aprisionados na histeria coletiva em busca do furo de reportagem, da exclusiva, da notícia em primeira mão, e ácidos em suas análises rasteiras, fazem o que parece ser sua especialidade: transformam especulação em fato. “Sarcozy vai ao encontro dos familiares das vítimas, Lula manda o vice”, dizia manchete do O Globo de terça-feira. Para o leitor desatento, poderia parecer pouco caso do governante brasileiro, mas Lula estava já a caminho da posse do presidente de El Salvador, haveria cabimento mudar a agenda naquele momento?

Sem peso político, sem o glamour das aeronaves, sem a atenção internacional, os 54 mortos em consequência das chuvas permanecem enterrados no anonimato. Não se sabe se era um lavrador, uma empregada doméstica, ou quem sabe um criador de cabras.

O que será que há em um acidente aéreo que o deixa tão midiático, tão celebrável? Será o poder aquisitivo daqueles que trafegam neste serviço de transporte? Pois temos uma série de acidentes com embarcações nos rios da Amazônia, que se repetem a cada ano, com grande número de vítimas fatais, e nem por isso observamos essa mobilização, sequer uma ação para que o transporte fique mais seguro. Nenhuma investigação, nenhuma CPI.

O que transforma os acidentes aéreos em algo tão comovente? Ou será a nossa comoção que está sendo formada? Exasperada pelo excesso de informação e presença nos noticiários? Quem deixamos manipular os nossos sentimentos? Quem privilegiamos com nossas lágrimas? Quem influencia na formação da nossa opinião, e como isso vai guiar nossas decisões ao longo da vida, sejam elas de consumo, políticas ou sentimentais?

São mais tantas interrogações a adicionar a um caso já tão cheio de perguntas não respondidas.

KF