quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A disputa por Honduras

Em abril deste ano, durante a reunião da 5ª Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, presenteou o norte-americano Barack Obama com um exemplar do livro As Veias Abertas da América Latina, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. No frontispício escreveu: “Com afeto”.

Chávez, um mestre das jogadas ensaiadas, estava na verdade dando um tapa com luva de pelica no mandatário dos EUA, já que o livro é considerado uma obra-prima na análise da turbulenta história dos países latinos em sua busca pela real independência. O livro, fundamentado em uma ampla pesquisa histórica, leitura obrigatória para quem quer entender a América Latina de hoje, expõe a permanente intervenção dos EUA que, a qualquer custo (sempre caro e com vidas), tentava impedir que uma “Nova Cuba” acontecesse no continente americano.

As ferramentas utilizadas sempre foram as mesmas: grana e garra. No caso, as garras afiadas de seus Marines. E a grana sempre vinha camuflada em eufemismos como Cooperação Econômica, Intercâmbio Cultural, e seus etcs Os EUA aproveitavam para instalar suas bases militares internacionais, como a que tem em Honduras (Palmerola Air Base).


Honduras penas

Até semana passada, Honduras era um nome praticamente inexistente no noticiário brasileiro (e quiçá mundial). Uma coisa assim como o Suriname ou a Guiana. Honduras está localizada em uma América Central muito mais distante do que deveria ser. Sabemos mais do Irã ou da China, e isso é um dado importante pois mostra a falta de uma política de relacionamento externo do Brasil com os demais países latino-americanos.

Não há comércio com Honduras, não há turismo com Honduras, não há intercâmbio cultural com Honduras. Não se sabe de um show de artista brasileiro. Não se sabe de cinemas passando filmes brasileiros, não se sabe coisa alguma sobre Honduras. Até agora.

E o fato tem algumas razões de ser. A América Central está de fato desconectada da América do Sul, não só pelas vias econômica, cultural, e turística, mas principalmente geográfica. Sim, territorialmente estamos ligados, mas o leitor ficará surpreso ao saber que não existe uma ligação rodoviária entre os dois continentes. Colômbia e Panamá não têm estrada alguma que os conectem. Curioso, não?

Mas vamos aos fatos, quem é esse homem de bigode e chapéu que agora se abriga na representação brasileira em Tegucigalpa?

Depois de muitas ditaduras, todas financiadas e controladas pelos EUA (a não ser Cuba em sua fase posterior a invasão da baía dos Porcos), a América Latina vive hoje uma boa jornada democrática. Manuel Zelaya, assim como Lula, Chávez e Uribe, foi eleito pelo voto democrático. No entanto, diferentemente dos outros três, Zelaya não tem o direito de se candidatar a uma reeleição.

Nada mais pertinente do que o presidente de Honduras também cogitar uma emenda na constituição de seu país, que desse o direito a disputar um novo mandato. Vejamos bem, Zelaya não estava impondo seu nome, não estava dando um auto-golpe em sua carta magna, estava apenas propondo um referendo para que a população hondurenha, um país com cerca de 7,5 milhões de habitantes, decidisse o seu ciclo presidencial.

Sim, estou ciente de toda a discussão sobre o pilar da democracia, que é isso que chamam de Alternância do Poder. Segundo os estudiosos, a democracia estará salvaguardada se não elegermos, no caso do Brasil, mais que duas vezes a mesma pessoa. Não sei quem fez a conta, mas sei que a decisão parece ser a de chamar o eleitor de burro.

Sim, sabemos que um mandatário no posto pode (e o fará, você não faria?) usar da máquina administrativa-publicitária para se manter no cargo ad eternum. Mas admitir isso é o mesmo que dizer que o povo é uma massa manobrável. O que talvez, lamentavelmente, seja mesmo verdade. Mas não pode ser tão presumível assim.

E tem outra, nada garante que o titular da cadeira seja reeleito. É só olharmos as eleições no Brasil, são vários os casos de candidatos que simplesmente não se reelegeram. Pensando assim, também seria cabível acreditar que o titular elegeria o seu indicado, como fazemos agora com Dilma, mas nada garante que vencerá, aliás, pelo que vimos até agora, ainda tem poucas chances.



A reeleição é boa para a Democracia. No entanto, apesar da argumentação dos parágrafos acima, ainda não tenho uma opinião formada sobre a quantidade de vezes que um indivíduo possa se candidatar para o mesmo cargo que ocupa. É uma matemática que não quero que façam por mim. Talvez fosse interessante experimentar para testar (opa lá, não estou defendendo o terceiro mandato do Lula!!!).

Mas Zelaya queria apenas mais um mandato. E também não podemos entrar em uma paranóia chavista de que agora todo mundo vai querer se eternizar no poder. Muita calma nessa hora!

Eu sei que é difícil defender um homem que se apresenta com um ridículo chapéu de vaqueiro e um anacrônico bigodão, assim como tem ficado cada vez mais difícil defender Hugo Chávez, que nos empurra para longe cada vez que cerceia a liberdade de imprensa em seu país, entre outros impropérios.

Inspirado nos colegas sul-americanos, Zelaya propôs um plebiscito sobre a reeleição. Plebiscitos são instrumentos legítimos dentro da democracia. Nós brasileiros já optamos entre Presidencialismo, Parlamentarismo, República e Monarquia, tendo assim o direito soberano de escolha. É claro que o leitor pode dizer que o eleitor pode ser manipulado da mesma forma, mas não tem jeito a não ser insistir na democracia.

Plebiscitos já aconteceram inclusive na Venezuela, com derrota de Chávez, que pretendia aprovar a reeleição ilimitada em sua constituição. Curiosamente, a derrota foi “festejada” pela imprensa mundial. Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, acaba de receber o sinal verde de seu Congresso para que realize um plebiscito para garantir-lhe o direito de disputar um terceiro mandato. Curiosamente houve pouco estardalhaço na imprensa mundial. Ao povo hondurenho foi negado sequer o direito de um plebiscito. De dizer: esse cara está indo bem, vamos dar mais quatro anos para ele.

Mas Zelaya é um cara teimoso e insistiu na jogada. Só que não esperava que seu comandante militar se negasse a instalar as urnas para o plebiscito. No dia seguinte, o destituiu do cargo. Daí foi ladeira abaixo.

O presidente de Honduras não deve ser muito querido por seus pares na vida política daquele país. Foi só abrir um flanco para que a Corte Suprema, o Congresso Nacional e os militares conduzissem um julgamento sumário, sem direito de defesa, condenando-o ao exílio involuntário.

Assim sendo, na madrugada do último 28 de julho, militares encapuzados invadiram a residência oficial e o seqüestraram. O ainda presidente foi colocado à força em um avião, ainda de pijama, e levado para a Costa Rica. Zelaya afirma que o avião fez uma escala em uma base norte-americana em território hondurenho, o que colocaria em suspeita a participação dos EUA em mais este golpe de estado latino-americano. O colunista, particularmente, tem poucas dúvidas sobre a participação de Washington no episódio. Conhecendo a influência dos EUA na região, é muito pouco provável que os golpistas fariam qualquer movimento sem antes consultar o governo Obama.










Não deu no jornal

Mas o que realmente me chama a atenção em todo este caso é a perda de foco nas reportagens feitas pelos grandes jornais. Ao invés de se reforçar as críticas ao governo golpista, intensificando a pressão pela volta do presidente eleito, passou-se a discutir sobre a legitimidade da participação brasileira no episódio e se o gesto é ou não uma intromissão em assuntos internos daquele país.

Não podemos cair tão facilmente neste argumento. Se fosse assim, o mundo não teria nada o que fazer com as ditaduras mundo afora, tolerando-as de forma obediente e passiva. Foi com este tipo de postura que figuras como Adolf Hitler cresceram em seus países. O respeito à soberania é inabalável, mas Honduras, ao ter um governo golpista controlando o país, fechando jornais, decretando estado de sítio, atirando em pessoas, prendendo às centenas, cortando as liberdades individuais, perde imediatamente qualquer legalidade que poderia ter.

Ao chamar o golpista Roberto Micheletti de presidente, a imprensa ingenuamente (ou não) o legitima no cargo. Ao classificar, por exemplo, as ações do MST de invasões e não de ocupações, a imprensa demonstra que escolhe nos adjetivos o lado da história em que está. Portanto, o mesmo deve se aplicar ao imbróglio atual, a não ser que estejam apoiando o golpe.

A opinião pública deve ter muito cuidado com o que lê, pois o arranjo das palavras não só confunde com induz. Vejamos uma pesquisinha conduzida pelo jornali O Globo em seu formato on line. A pergunta era: O Brasil deve entregar Zelaya ao governo interino de Honduras? Mas são nas respostas oferecidas que constatamos a manipulação. Não se tem um simples sim ou não, as repostas oferecidas são: “Não, deve continuar firme na defesa do presidente deposto” e “Sim, deve deixar que Honduras decida o destino do líder deposto”. Os jornalista do O Globo só podem estar brincando. Primeiro chamam o governo golpista de governo interino, depois induzem o leitor a privilegiar uma suposta soberania de Honduras que na verdade é altamente questionável neste momento; O resultado? É claro que deu a opção Sim, com 66% dos votos. Palhaçada.

Sim, Zelaya forçou a barra ao tentar impor o seu plebiscito fora de hora (afinal, teve a idéia em ano eleitoral), mas a punição imposta parece que já vinha sendo gestada há tempos, só aguardando uma oportunidade de aflorar.

Alguns outros fatos devem ser levados em consideração. Manuel Zelaya é hoje um aliado oficial de Hugo Chávez, visto que em 2008 aderiu a Aliança Bolivariana para as Américas, movimento liderado pelo presidente da Venezuela. Zelaya também vinha “desagradando” a elite hondurenha, justamente aquela que o tinha apoiado em sua eleição. Os desagrados teriam sido o aumento de 60% no salário mínimo, em um país onde 70% da população está na linha de pobreza, e um aceno de uma possível estatização de alguns setores da economia. Os ricos ficaram em polvorosa.

Não sabemos se Zelaya seria reeleito (e provavelmente não saberemos mais). Se foi tão ruim assim como governante, que deixassem as urnas provarem. Se havia suspeitas de uma possível fraude, que fosse convocada uma missão de observadores da OEA. Nunca um golpe.

Aliás, falando em Organização dos Estados Americanos, ONUs e afins, a atuação pífia já não é novidade. De que servem estas organizações? Desde o episódio das Armas de Destruição em Massa no Iraque, quando os EUA desrespeitaram a orientação do Conselho de Segurança para que não fizessem uma intervenção militar, que esta instituição perdeu a sua razão de ser. Não entendo o porquê de Lula perseguir tanto o objetivo de ocupar uma vaga em um conselho enfraquecido. Por enquanto, a OEA tem feito o que sempre faz, redige em uma folha de papel uma condenação, um protesto qualquer, e fica aguardando para ver se faz efeito. Santa pantomima!

Ao invés de discutirmos a participação do Brasil no caso, devíamos estar condenando em altíssimo tom o golpe de estado em Honduras. Não estamos falando de um país distante onde os regimes totalitários são costume, estamos falando de um país democrático localizado logo ali, que há muito devíamos ter nos aproximado.

O Brasil deve exercer este papel, mas não devemos confundi-lo com aquele mantido pelos EUA ao longo de nossa história recente. Temos sempre a predisposição a achar que um país que interfere na vida de outro será necessariamente pela via do imperialismo e subjugação. O Brasil, como é de seu costume, do costume de sua cultura e do seu povo, pode apresentar um novo modelo de política externa, um novo modelo de postura democrática.

Lamentável também que políticos de oposição aproveitem do momento para alavancarem as críticas ao atual governo. Pobre oposição...

No mais, quem sabe um dia conseguiremos, enfim, vencer o nosso complexo de vira-latas!

Apesar de não merecer, Viva Zelaya!! (mesmo com sua figura patética)



KF



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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Rio 2016: Eu não quero!

Faltam pouco menos de 30 dias para que o Comitê Olímpico Internacional (COI) anuncie a sede das olimpíadas de 2016.
E o colunista não tem como esconder: está torcendo fervorosamente por Tóquio, Chicago e Madrid, as outras três cidades concorrentes.

Peço ao leitor mais ufanista que guarde as pedras, por enquanto, e deixe a coluna fluir um pouco mais para que possamos apresentar os argumentos, e não parecer que estamos aqui apenas para desconsiderar a pátria amada.

Ao longo dos últimos meses uma forte propaganda, paga com dinheiro público, vem alardeando que o povo brasileiro, e principalmente o carioca, quer muito que a cidade ganhe a concorrência internacional. Placas com a frase “RIO 2016, EU QUERO!” foram colocadas em vários locais da cidade (principalmente no trajeto percorrido pela equipe de avaliação internacional), dando a impressão de que o apoio é amplo, geral e irrestrito.

Uma lista de assinaturas também foi recolhida e entregue ao COI, tentando comprovar o endosso da população. Não sei se o leitor assinou, mas um pouco mais de informação sempre é bem-vinda em situações como essa. Sem esclarecimento, podemos sempre ser induzidos ao erro.

Para produzir este texto, o colunista entrevistou um advogado especializado em marketing esportivo internacional.


COPA VERSUS OLIMPÍADAS

Primeiro precisamos estabelecer as diferenças. Apesar de serem grandes eventos esportivos, uma Copa do Mundo não tem nada a ver com uma Olimpíada. Pelo porte, tendemos a achar que ambos são acontecimentos organizados pelo Estado, visto que países estão representados, bandeiras são içadas e hinos cantarolados. Mas não é bem assim.

Vejamos, por exemplo, a Confederação Brasileira de Futebol. Imagino que muitos pensem se tratar de uma autarquia federal, ou algum órgão ligado ao Ministério dos Esportes. Doce engano. A CBF nada mais é do que uma empresa privada, um empreendimento que vende um serviço de entretenimento: uma partida de futebol. A CBF administra um negócio voltado ao lucro. Esse entendimento é fundamental.

Já uma Olimpíada é um projeto de Estado. Um projeto político que busca com a realização dos jogos ampliar o prestígio, a influência no cenário internacional e mostrar a capacidade de realização de uma administração.

Internamente, no Brasil, a Olimpíada vem sendo apresentada à população como um projeto que trará o desenvolvimento, a melhoria da qualidade de vida, investimentos, empregos, etc etc etc. Faz-se da Olimpíada um episódio alavancador de melhorias sociais. Somos levados a crer que precisamos dela para evoluir e nos modernizarmos. Como se não fossemos capaz de obter os mesmos feitos sem a realização dos jogos.

(O esporte? Bem o esporte me parece que fica em segundo plano neste momento...)


A SOMBRA ESCURA DO PAN

Durante muito tempo pensei que, visto a ferrenha disputa entre cidades mundo afora, receber uma Olimpíada fosse um grande negócio. Imaginava haver um fundo internacional que seria liberado à cidade vencedora para que pudesse preparar os jogos. Mas isso simplesmente não acontece.

Cabe ao país sede bancar integralmente os custos de construção dos equipamentos olímpicos, alojamentos dos atletas, e tudo o mais necessário para a realização dos jogos. Sim, há patrocinadores, direitos televisivos e uma verba da COI, mas esse total não costuma chegar a 10% do valor total dos investimentos indispensáveis a uma Olimpíada, principalmente em países como o Brasil, que precisam de um forte investimento em infra-estrutura. Uma coisa é uma olimpíada em Sidney, uma cidade já pronta, outra é no Rio de Janeiro, uma cidade mal administrada há décadas.

O Pan não deixou boas lembranças ao Rio. Ao contrário da propaganda, a mesma feita atualmente para 2016, o evento de 2007 não cumpriu quase nenhuma de suas promessas. E a verdade precisa ser exposta, o Pan causou prejuízos à cidade.

Em nome da construção de um velódromo, da arena multiuso e do parque aquático, perdemos o traçado original do autódromo de Jacarepaguá - e com isso as chances de sediar novamente as corridas de Fórmula 1 (que também traz turistas/dinheiro ao Rio, anualmente!!). A luta da Confederação Brasileira de Automobilismo para impedir a intervenção sobre o traçado da pista foi ferrenha. O presidente da Federação de Automobilismo do Rio de Janeiro, Djalma de Faria, com quem conversei por telefone, não guarda boas lembranças, nem elogios, ao presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman.

Mesmo tendo Ayrton Senna como um Herói Nacional, o rolo-compressor do Pan ignorou o esporte automobilístico e passou os tratores sobre a Curva Norte do autódromo, o desfigurando irreversivelmente (CLIQUE NA FOTO PARA AMPLIAR). Em troca, os organizadores do Pan prometeram uma reforma que o colocaria novamente apto para homologação até 2008.



O Pan passou e o acordo não foi cumprido. Recentemente um novo trato foi feito: no caso de vitória para 2016, o autódromo será demolido e a área será utilizada integralmente para as olimpíadas. Um novo autódromo será construído. Não se sabe ainda onde, nem quem pagará pela obra. A olhar pela tradição e retrospecto, o risco de não ocorrer é altíssimo.

Outro “legado” do Pan foi na Marina da Glória, sede dos esportes náuticos. Ao invés de investimentos, o CO-Rio, organizador dos jogos pan-americanos, deixou para trás obras inacabadas. Hoje o que se tem no local é um amontoado de pilares que partem do fundo do mar e aparecem no espelho d’água como um paliteiro mal-ajambrado.

O que aconteceu foi que, com a data de início do Pan cada vez mais próxima, os organizadores do evento acharam que poderiam fazer o que quiser e como quisessem, tudo em nome do Pan. Mas o suposto passe-livre, escorado em uma possível desmoralização internacional caso o Pan fracassasse, esbarrou no pulso firme do Patrimônio Histórico.



No caso, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que bancou e venceu a queda-de-braço com o CO-Rio, que insistia em descaracterizar a Marina, um local tombado tanto em seu espelho d’água como por estar dentro do projeto do Aterro do Flamengo, que tem todo o seu projeto paisagístico desenhado pelo genial Roberto Burle Marx.

Também chamou a atenção a falta de transparência e, acima de tudo, a perda de controle nos gastos com os Jogos Pan-americanos. Com isso, ficamos impedidos de saber ao certo o preço final do evento. Estimativas colocam as cifras em cerca de R$5 bilhões, para um evento que durou apenas 17 dias. Hoje, com dois anos de realizado, não param de surgir denúncias de superfaturamento, desvio de recursos e notas frias na prestação de contas do Pan.

Isso sem falar na Vila Pan-americana, inacabada até hoje, apesar de ter todos os seus apartamentos vendidos à particulares.

Falando em dinheiro, há outro dado importante. Para conquistar as Olimpíadas de 2016, o COB já gastou cerca de R$80 milhões do bolso do contribuinte. Segundo o meu entrevistado, para trazer a Copa ao Brasil, a CBF gastou cerca de R$10 milhões. O dinheiro é na verdade da FIFA, que sabe que vai recuperar e lucrar ainda muito com o evento. Friso mais uma vez, a FIFA é uma empresa e a COPA é um produto comercializado.

Mas voltando ao comparativo entre os dois eventos, outro dado salta aos olhos, literalmente. A audiência cumulativa - ou seja, a soma da audiência diária. Para os jogos é de cinco bilhões de espectadores, já na Copa do Mundo esse numeral chega a 25 bilhões. Um bom número para se negociar com televisões do mundo todo.


PAGAR PARA NÃO LEVAR

Particularmente não compro a idéia de usar estes eventos como alavancas para o desenvolvimento. O especialista em marketing esportivo com quem conversei acredita que estes eventos são catalisadores de prazos e metas para que os engessados governos realizem grandes avanços. Tenho dificuldade em aceitar este argumento.

Na verdade, uma Copa do Mundo, apesar de ser realizado pela FIFA/CBF, também gera grandes despesas ao país sede. Afinal, são os governos que devem bancar todas as obras de infra-estrutura e de reforma e construção de estádios. Curioso, não? Como foi o Brasil quem quis sediar a Copa, então devemos apresentar uma estrutura aceitável pelos padrões da FIFA. Sim, a Federação Internacional de Futebol irá pagar pelo uso dos estádios, mas esta receita dificilmente cobrirá gastos tão elevados como os que costumam ser apresentados em eventos desta magnitude.

Impossível não citar novamente os Jogos Pan-americanos. À população do Rio de Janeiro foi prometido, por exemplo, a despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas (e acho que também a da Baía da Guanabara), a ampliação do Metrô, entre tantos outros benefícios para a cidade.

Nada foi cumprido. Nem mesmo a Lagoa, um espelho d’água de pequeno porte, teve um projeto de despoluição levado à cabo, fazendo com que os atletas competissem em águas poluídas.

E por falar em Maracanã, impressionante a quantidade de reformas milionárias. A primeira foi em 2000, deixando-o “pronto” para o Mundial Interclubes da FIFA. Depois veio outra reforma milionária poucos anos depois, esta para receber o Pan.

Até aquele momento, R$ 252 milhões já haviam sido gastos na reforma do Maracanã, suficiente para construir um estádio novinho em folha como o de Leipzig, da Alemanha/2006 (R$ 244 milhões), ou o de Seogwipo (R$ 203 milhões), da Coréia/2002. Agora lá vamos nós outra vez reformar o estádio para a Copa de 2014.


Sim, empregos são gerados com toda essa movimentação, mas devemos lembrar que nada mais são do que ofícios efêmeros. Uma vez entregue a obra, os postos de trabalho são automaticamente extintos. Sim, os eventos esportivos movimentam a indústria do Turismo, mas ainda duvido e desconfio da relação custo-benefício.

Não engulo a Copa ou as Olimpíadas. Se o grande legado é o desenvolvimento deixado pelos eventos, que sejam realizados em regiões carentes de investimentos. Porque não levar as Olimpíadas para o Nordeste? Fortaleza, por exemplo? O Rio de Janeiro vem monopolizando todos os investimentos gerados por grandes eventos esportivos. Assim, seguimos a nociva tradição econômica brasileira de concentração de renda no Rio e em São Paulo.

Se existem de fato estes recursos em caixa, os governos poderiam investí-los no país, na cultura, na saúde e na infra-estrutura para que, ao invés de um simples concorrente, o Brasil passe a ser desejado, disputado e cortejado, recebendo os eventos por mérito e não apenas por uma apresentação pirotécnica, por golpes publicitários ou o forjado clamor popular.


Rio 2016, eu quero, mas não agora.




KF


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sábado, 29 de agosto de 2009

Uma noite na Universal

Uma das 4500 filiais da Igreja Universal do Reino de Deus fica no bairro de botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Quem passa em frente quase não percebe a igreja. Diferentemente de outras unidades, a de botafogo tem um frontão discreto. Sim, a fachada é toda em mármore com letras góticas em prateado informando que ali é uma Igreja Universal do Reino de Deus e que Jesus Cristo é o Senhor, mas fica só nisso. Não há vitrais, não tem a logomarca em vermelho (um coração com uma pomba branca no centro) e nem ornamentos extravagantes.

Para falar da Igreja Universal, o colunista entendeu que deveria conhecê-la mais de perto. Assim, decidiu participar de um culto, ou de uma reunião, como eles gostam de chamar.

Para saber os horários, passei na Universal mais próxima da minha casa e peguei uns panfletinhos de divulgação. Minha desconfiança só fez aumentar. De gosto e visual bem duvidosos, os panfletinhos chamavam para sessões de descarrego. “O seu problema é sentimental? Nunca foi feliz no amor?”, dizia um deles. “Você sente que tem algo amarrando a sua vida?”, dizia o outro. O panfletinho também informava que havia sessões diariamente às 7:00, 10:00, 12:00, 15:00 e 19 horas. Haja descarrego!


Cheguei com 40 minutos de antecedência na sessão das 19 horas para poder observar de longe o movimento e me preparar psicologicamente para a empreitada. Passei vagarosamente em frente à igreja para pegar um exemplar da Folha Universal, fartamente distribuída na calçada, e segui para o boteco mais próximo para um breve pit-stop.

A Folha Universal é o pioneiro braço de comunicação da instituição. A que recebi era uma edição especial com uma única manchete garrafal: SUJEIRA.

Dizia:

“Nesta semana, o Brasil assistiu, perplexo, a um ataque histórico de grupos de comunicação à Igreja Universal. Quais são os interesses por trás da notícia?



A Folha Universal, com suas 24 páginas em formato tablóide, todas coloridas, imprimia em nove delas a versão da IURD para as denúncias apresentadas pelo Ministério Público de São Paulo, mas que a Igreja Universal insistia em atribuir à TV Globo. A Folha Universal usava argumentos como “denúncia vazia”, “sucessão de equívocos”, “comunicação que incomoda”, “uma história de injustiças”, “palavras desfocadas”...

Edir Macedo sabe a força das palavras e das imagens. Não é a toa que criou logo cedo sua estrutura de comunicação, que alcançaria, anos depois, o calibre de super-potência com a aquisição da Rede Record de Televisão, além de rádios, editoras, gráficas etc.

A Folha Universal passa a ser editada a partir de 1992 e hoje conta com uma tiragem semanal de 2,5 milhões de exemplares (informação impressa no próprio jornal e auditada por uma BDO Trevisan Auditores Independentes), mais que o dobro da maior publicação nacional, a Veja, hoje em seu 42º ano de existência com 1.085.852 exemplares semanais.

O jornal, bem diagramado e que trata sobre diversos assuntos do cotidiano, dedicando apenas uma parte para a propaganda da Universal (seguindo o mesmo modelo da TV Record), tem essencialmente uma linha de defesa: considera o fato notícia velha requentada (visto que nos anos 90 Edir Macedo chegou a ser preso pela mesma acusação de crimes financeiros) para tentar ofuscar o crescimento de audiência da TV Record e o lançamento de um megaportal de jornalismo, o R7. Mas no fundo o que o texto tenta vender é a idéia de que a Universal está sob uma perseguição religiosa, pois só quem o lê são os próprios fiéis.


O verbo e a verba

Às 18h45 eu estava novamente diante da escadaria da igreja. Poucos degraus levavam até um imenso salão. Uma dimensão difícil de mensurar da rua: 60 fileiras com 13 cadeiras de cada lado. Mais de 1500 lugares sentados, algo próximo da capacidade da Igreja da Candelária, uma das maiores igrejas católicas do Brasil situada no centro do Rio. Para um templo de bairro é uma capacidade bem pretensiosa.

O culto é animado, começa com música e palmas. Eu ainda descobriria que seria agitado demais, mas isso só no final. Por enquanto estávamos todos de pé cantando uma música que era o começo de um intrincado e sofisticado processo de persuasão, e que só terminaria uma hora e meia depois.


Neste lugar de adoração

vim te buscar de todo coração

a minha vida eu quero ofertar

o meu melhor eu quero consagrar.


Cantou o pastor de não mais que 25 anos. Um sujeito afinado, alinhado, acompanhado no fundo por um tecladinho melodioso. Na primeira estrofe da canção a palavra oferta já havia aparecido. E ela ainda seria repetida inúmeras vezes até o final da noite.


Pai eu abro a porta do meu coração

Venha derramar da tua unção

E fazer de mim o que quiser

Pai, eu quero ser o filho que te abraça

e levar ao mundo a tua palavra

te servir enquanto eu viver.


A esta altura já está tudo dominado. Somando o clima, o cenário e a música às almas já sofridas e vulneráveis em busca de uma palavra amiga, a dialética da Universal (e de quase todas, é preciso frisar e não esquecer) é infalível.

Em seguida o pastor mudou a entonação, deixando de cantar e passando para um tom mais professoral, um tom de sermão:


Aprendemos a viver guiado pelo senhor.

E não agir diante do que se encontra aos nossos olhos, e não pelas emoções.

Mas a ti pela fé que há dentro de nós.

Então nós queremos te pedir, meu pai, dá vitória ao teu povo diante de todas as perseguições, dá sabedoria para que seus filhos possam sair ilesos dessa guerra.

Guerra espiritual em que o mal tem usado familiares, amigos, vizinhos, que tem ligado pra essa pessoa tentando contaminar.

Dá vitória meu pai!


As palavras do pastor, para quem assistisse de fora como eu, pareciam buscar uma base sagrada para a defesa contra as acusações dos jornais. Usava uma técnica que, sutil e subliminarmente, desarmava as mentes para serem convencidas. Ao dizer que as palavras eram de Deus, e não dele, o pastor criava um distanciamento crítico. Uma técnica parecida com o terceiro-pessoismo muito utilizada por políticos e jogadores de futebol. Você já deve ter ouvido o Pelé falando do Pelé como se fosse outra pessoa. Pois é...

Mas os métodos de persuasão não param por ai. Outro muito usado em cultos evangélicos é a catarse verbal. Nele o pastor passa a falar em um ritmo cada vez mais acelerado e em um volume cada vez mais alto, repetindo frases, gritando amém, trocando palavras de lugar e mantendo sempre a pressão em um ideia central. Um pastor habilidoso é capaz de levar toda uma platéia ao transe. Os decibéis ajudam a colocar o ouvinte em estado uníssono com o que é dito, o som que sai das caixas envolve todo o seu corpo.

E é aí que começa a participação da platéia com o que é chamado de Manifestação, onde cada um pode repetir uma palavra dita pelo pastor, dizer amém ou proferir palavras que lhe vêm a cabeça, inclusive em línguas desconhecidas, o que para os fiéis da Universal é um dom dos batizados.

É assustador perceber a costura de uma ideologia política, de palavras de ordem e comando dentro do discurso sagrado. Os verbos, pinçados das frases, parecem denunciar o esquema: ofertar, derramar, fazer de mim o que quiser, servir, guiar, orientar, perseguir, guerrear.

Então está lá a palavra do dia: foi iniciada uma guerra religiosa contra a Igreja Universal. Tenta-se assim entortar a acusação, conseguindo sair de uma posição de réu para, no fim, estar confortavelmente sentado na cadeira da vítima. No final o que se tenta é desqualificar a acusação criminal e transformar o caso em uma situação de intolerância religiosa.


O culto segue:

Faz parte da pessoa de Deus ganhar, perder, estar fraco, ser repreendido, ser injustiçado, tudo isso faz parte.

E assim, como sempre se fez, o discurso do pastor parte para a outra técnica, essa comum em outras igrejas: o amolecimento do espírito revolucionário e questionador do ser humano. Amortecendo o desejo de mudar ao dizer que você vai sofrer, será injustiçado, mas isso é assim mesmo, isso faz parte... Porque não diz o contrário, porque não estimula as pessoas a mudarem, porque não diz que não, não faz parte sofrer, que não faz parte ser humilhado? Não dizem pois este sentimento é libertador. Uma vez liberto, o fiel não precisa mais da igreja.

Mas existe uma característica fundamental da Igreja Universal que a diferencia de todas as outras, principalmente das católicas: a Teologia da Prosperidade.

Ao contrário do Vaticano, que sempre defendeu o sofrimento na Terra e o paraíso no céu, em volume inversamente proporcional, a Universal resolveu inverter a ordem e dar preço ao paraíso na Terra. Combinou conceitos de uma forma nunca antes feita, associou, dentro da religião, felicidade à prosperidade financeira. E prosperidade diretamente proporcional ao dízimo oferecido. Fazem isso sem o menor pudor, sem o menor constrangimento.

No texto Palavras Desfocadas, da Folha Universal, Edir Macedo comenta uma antiga gravação de vídeo onde ele aparece falando em “dá ou desce”. O jornal apresenta uma passagem do livro “O Bispo, a história de Edir Macedo”, que tem na capa a famosa foto de Macedo lendo uma bíblia sentado em um banquinho por trás das grades (foto no blog), quando foi preso em 1995. No trecho da biografia Macedo diz o seguinte: “A expressão que usei não tem nada a ver com aquela piada suja. É como eu costumo dizer, toma lá, dá cá. Essa era a expressão que eu deveria ter usado naquele momento, mas, na hora, não usei. Não me arrependo não. É nossa mensagem de fé(...)”.

Então a Universal associou prosperidade financeira ao dízimo e tudo isso a um processo de fidelização à igreja. O discurso diz o seguinte, se você ainda não prosperou, é porque não está dizimando como deveria, não está dando realmente o que poderia dar. Acha surreal? Acha que estou exagerando? Então sigamos no culto.

Depois da parte cantada e falada, o pastor desceu para a platéia, mudou de tom novamente e mandou chamar duas pessoas. Um casal se aproximou para que todos vissem. Aparentavam uma certa timidez, ou uma certa constrição calculada.

O casal estava ali para dar seu Testemunho, outra parte fundamental dos cultos evangélicos. Os testemunhos são sempre dos casos de sucesso, daquelas pessoas que enriqueceram depois que passaram a dizimar (ou seja, a Universal juntou conceitos da religiosidade com as práticas do marketing direto, juntou Deus com a Amway!!!).

O testemunho daquela noite seria de um cidadão chamado Ronie Rap. O nome vem dos bailes funk, onde Ronie era um famoso DJ da Furacão 2000. A história de Ronie foi então contada. Casamento em frangalhos, dívidas financeiras e duas tentativas de suicídio na Ponte Rio-Niterói. Isso mesmo caro leitor, duas tentativas na ponte Rio-Niterói!!! Quem contava era sua esposa, ouvida por um Ronie cabisbaixo e com mãos entrelaçadas. O pastor pontuava: “Funk é sinônimo de que? Prostituição! Drogas! Maus elementos!”. O pastor ainda teve a cara de pau de dizer: “não estou generalizando, mas é sinônimo disso!”. Como assim cara pálida? (Alô DJ Marlboro!! Alô Fernanda Abreu!! Alô Buchecha!!).

O testemunho termina com uma listagem do sucesso financeiro de Ronie Rap, hoje um reconhecido DJ Gospel, que antes “morava de aluguel”, havia vendido o carro, sem dinheiro até para pagar o condomínio. Falidos, tinham ido morar em Macaé, cidade no norte do estado do Rio. Mas hoje, inflama-se o pastor, moram em “uma casa bacana”. O pastor ainda se entrega. “Eu sei por que eu fui vizinho dele!”.

“E você devolvia o dízimo”, perguntou o pastor? “Sim, sempre, foi a primeira coisa que aprendi na Universal”, respondeu Ronie.

Devolver o dízimo é outra prática incentivada na Universal. Significa basicamente uma retribuição em dinheiro após a graça obtida. Não é o dízimo do dia-a-dia, mas sim um dízimo especial, vindo depois de acumulada a riqueza.

O pastor, quase debochado, arremata o testemunho de Ronie Rap com uma perguntinha: “e a casa de praia, tá bacana?!”. “Tá lá, com três andares na beira da praia!”, responde Ronie sem conseguir esconder o orgulho. “E não tem só casa de praia não gente. Comprou outra em Rio das Ostras. Ou seja, está abençoado! Mas me diz, vocês vieram de ônibus?”, pergunta ironicamente o pastor já sabendo a resposta. “Vim de carro. Depois daquele carro que eu vendi, hoje eu tenho três”, responde laconicamente.

“Bem forte pra Jesus!”, pede o pastor. No que é seguido por um avassalador aplauso. “Essa é nossa resposta para quem não acredita!”, sentencia o pastor. E logo depois vem uma longa defesa sobre o dízimo. “Se um não der 100, outro dará 1000, se um não der 1000, o outro dará 10 mil”, profetiza o pastor em uma lógica bem particular. “No início deste mês uma pessoa dentre vocês aí devolveu um dízimo de R$57 mil”, diz para quem quiser acreditar.


E, é claro, depois disso não poderia ser outra coisa a não ser a distribuição dos envelopes brancos com a palavra dízimo carimbada. O pastor se mostra confiante e destemido: “Nós não vamos nos calar por que estamos sendo perseguidos. São notícias requentadas. Comida estragada cheirando à azedo. Tem uns que comem dessa comida podre que a Rede Globo tá dando e depois passam mal, espiritualmente falando, e tem uma indigestão violenta e vão parar no CTI pra depois nós termos que resgatá-las”. E segue em uma sugestão para que as pessoas parem de assistir a TV Globo: “Gostaria que você olhasse pra essa comida podre... ou melhor, gostaria que você nem olhasse pra essa comida podre. Quando as pessoas vêm falar comigo perguntando se eu vi, eu digo que não vi, não quero ver, não vou ter raiva de quem vê, mas não quero ver! Porque? ... (pausa dramática) ... deixa pra lá”.

A sacola vermelha é colocada na frente do altar, a musiquinha volta e a fila se forma. O dinheiro segue nos envelopes, mas vi gente com nota de 50 reais na mão.

Existem outras formas de arrecadação. O pastor interrompe abruptamente a música e manda buscar livros do estoque. É a já citada biografia de Edir Macedo. São para vender para os fiéis a R$10,00 cada. O pastor tem, assim como no comércio, a sua cota a cumprir. Ele quer vender 100 livros nesta noite. Mas quem comprar não vai levar. O pastor explica que eles serão doados para 100 casais que vão se reunir em uma favela carioca. O pastor ainda incentiva as pessoas que digam quantos livros estão “doando”. Assim, estimula a vaidade daquele que podem dar mais.

Depois do dízimo finalmente sentamos novamente. Sim, estávamos de pé todo este tempo. É hora de ouvir um trecho da bíblia. Veja que o que narrei até agora se parece muito com a liturgia católica, que é de onde vem, essencialmente, os evangélicos, que na verdade são protestantes. Tudo começa lá em Calvino, Lutero, entre outros (essa parte você pesquisa sozinho). O trecho que vamos ouvir hoje é do livro de Atos dos Apóstolos, capítulo 7, versículo 54. Esse livro, quinto do Novo Testamento, fala sobre? Adivinhem? Isso mesmo, perseguições aos cristãos. No caso fala de um Estevão que, mesmo sendo apedrejado, permanece fiel ao seu Deus.

Facada final em qualquer consciência de algum fiel que porventura estivesse abalada com as notícias que vem lendo no jornal. O pastor ainda pede a participação da platéia ao ler um trecho “E também Saulo consentiu na morte dele. E fez-se naquele dia uma grande... Grande o quê gente?! grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém”, repetem todos.

A leitura da Bíblia, um romance escrito em metáforas e que permite mil e uma interpretações ao gosto de quem a usa, seguiu por um bom tempo, fazendo o pastor a sua interpretação dos Atos dos Apóstolos para dizer que aquilo tudo não era um processo do Ministério Público sobre lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e evasão de divisas, mas sim uma perseguição religiosa contra a Universal. Prevista na Bíblia!!!

O culto seguiria oscilando momentos de cantoria, catarse, mais uma rodada de dízimos sob a justificativa de vender os jornais (distribuídos gratuitamente na rua) para ajudar nos custos da gráfica. O pastor pede R$1,00 por jornal, mas incentiva quem quiser mostrar sua fé doando valor maior. A catarse final ainda conta com a diminuição das luzes do salão. É neste momento que algumas pessoas batizadas começam a falar em línguas exóticas, algo próximo de um hebraico ou uma dessas línguas antigas. Os decibéis já haviam superado em muito o limite permitido em lei...

Por fim o pastor convoca a todos para que tragam alguém novo no domingo, chamado de Domingo dos Vizinhos. Todos são quase que desafiados a trazer um novo fiel. Assim cresce vertiginosamente a Igreja Universal.


E é isso que precisamos entender. Mesmo com tantas denúncias, mesmo com tudo o que se falou sobre esta igreja, mesmo assim a Universal segue crescendo. O pastor nem precisava se esforçar tanto em encontrar uma justificativa bíblica para as denúncias do MP. Nada vai acontecer com a Universal, nada vai acontecer com Edir Macedo. Ele sabe que está em uma esfera imune. Edir Macedo tem, aliás e curiosamente, um passaporte diplomático, garantido pelo governo brasileiro aos líderes religiosos. Você sabia?...

Acima de tudo o fundador da Universal percebeu que existia um mercado a ser explorado. Um mercado totalmente fora da alçada de qualquer instância governamental. Macedo viu em sua frente um empreendimento livre de impostos, de censura, de regulamentação, de registro. A prática religiosa estava, e está, inserida dentro de um buraco negro institucional. Não foi o primeiro, nem será o último, mas Macedo sofisticou o empreendimento de uma forma inédita.

Edir Macedo está protegido pela Constituição Brasileira. Diz o artigo 5º, inciso VI: "é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias". E vai além. O artigo 19, inciso I ainda amplia: “é vedado ao Estado estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança(...)”. Leia-se embaraçar como o ato de criar complicações, obstruções ou vexames. Ou seja, as igrejas estão protegidas por barreiras não só etéreas como também constitucionais. São intocáveis!

A Universal percebeu também que além do seu braço de comunicação precisava ter o seu braço político. Assim, passou a preparar pastores para assumir cargos públicos em todos os níveis, não só financiando suas campanhas como usando de seus templos para comícios e seus fiéis como eleitores. O Rio de Janeiro é hoje um estado evangélico. O ex-governador Anthony Garotinho percebeu isso. Apesar de não ser da Universal (Garotinho freqüenta a Igreja Batista Betânia) usou a comunidade evangélica para ganhar a eleição e eleger sua esposa em seguida, e depois sua filha.

Da Universal é nosso senador. Mesmo sem nenhuma carreira política anterior, mesmo sem nenhuma referência ou base eleitoral, Marcelo Crivella se elegeu senador pelo Rio de Janeiro. Veja bem, não estamos falando de um cargo de vereador, deputado estadual ou mesmo federal, elegemos um pastor da Igreja Universal como Senador pelo estado do Rio de Janeiro!!! Crivella, assim como seu tio Edir Macedo, é um homem cheio de processos e histórias mal contadas. Deve ser perseguição do Ministério Público...

A coluna já vai longe demais. Perdeu totalmente a noção da paciência do leitor que, se chegou até aqui, só pode receber o meu muito obrigado pela tolerância.

Não tenho nada contra o dízimo, se captado honestamente, seria usado para a construção de igrejas, projetos sociais, etc, mas o dízimo virou um grande negócio. Se você quer continuar doando, opção sua, mas visto o caráter comercial que o dízimo ganhou, é preciso retirá-lo da esfera da isenção tributária e passar a arrecadar impostos para o povo brasileiro, assim como penso que da mesma forma as doações para o projeto Criança Esperança também devem ser taxadas. A TV Globo diz que não ganha nada com isso e que todo o arrecadado vai direto para o UNESCO e depois aos projetos. Mentira! É claro que a TV Globo ganha, e ganha muito! Ganha em imagem, em valor agregado. O Criança Esperança é sim uma ação de marketing social

Resta acompanhar o caso e continuar tentando entender o que atrai as pessoas aos cultos da Universal (e tantas outras). Eu também quero ter muito dinheiro no bolso, mas não acredito que um Deus meça no montante de uma doação a fé de quem o ama, ou mesmo um Deus que seja capaz de retribuir mais a este do que àquele por conta dos zeros à direita do cifrão.



KF


* aos incrédulos, tanto do conteúdo como da memória do colunista, informamos que todo o culto teve seu áudio registrado em um gravador de bolso.



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domingo, 9 de agosto de 2009

José Alencar e o Deus que não habita em mim


O vice-presidente José Alencar é hoje um político mais conhecido por sua luta contra o câncer do que precisamente por sua atuação no segundo posto mais importante da república.

Tem sido impressionante a sua perseverança em conter o avanço da doença. Uma força de vontade que ele diz tirar de sua fé em Deus.

Entrevistado pelo Jornal Nacional nesta semana, em mais uma de suas saídas do hospital Sírio-Libanês, José Alencar disse, com um semblante tranqüilo, chegando quase a sorrir (se é que não sorriu de fato) que entregava seu destino à Deus, finalizando com a clássica declaração: “seja o que Ele quiser!”.

Impossível não se comover com a relação serena deste homem com a possibilidade iminente do fim da própria vida. Fez-me lembrar da minha avó, hoje com quase 99 anos e lúcida como qualquer um de nós (talvez mais). Certo dia ela me disse, ao ser indagada por que não saía mais, não passeava mais: “Estou satisfeita!”, disse com a mesma tranqüilidade demonstrada por José Alencar.

A frase ficou impressa na minha cabeça e irá me acompanhar até os meus últimos dias. E fiz dela a minha válvula de escape para suportar a sufocante realidade, absoluta e inquestionável: nossa vida um dia chegará ao final.

Talvez sufocante apenas para mim, ou aqueles que pensam como eu, aqueles que simplesmente não acreditam em Deus. Que simplesmente acreditam que ao morrer encerramos em definitivo a nossa trajetória, sem reencarnações, sem passagens, sem segunda chance, sem volta.

Durante muito tempo a palavra Ateu soou para mim como um palavrão, uma palavra proscrita, banida, uma palavra exilada nos porões das idéias assustadoras, das coisas que não devíamos falar sobre. A morte é o mais opaco de todos os tabus.

A primeira vez que vi alguém assumindo, pública e naturalmente, que era ateu foi em um programa de entrevistas da MTV: o Gordo a Go-Go. Nele o vocalista da banda punk paulistana Ratos de Porão, João Gordo, recebia sempre dois entrevistados por programa. Nesse dia, sabe-se lá por que, o assunto foi parar em fé e religião. Ao serem questionados se acreditavam em Deus, ambos responderam singelamente que não.

Os entrevistados eram o cantor Caetano Veloso e o ator Danton Mello.

A fé e a religião

Há uma frase recorrente na boca de muitos brasileiros: “não tenho religião, mas acredito em Deus”. Entender o que está por trás deste pensamento é uma tarefa que não cabe no espaço da coluna, mas podemos começar a tentar analisar a linha de raciocínio.

Antigamente, ressalvando-se os judeus e muçulmanos, todos os brasileiros nasciam católicos. Ninguém perguntava se queríamos ou não ser batizados, simplesmente era assim. Com o tempo isso mudou. Fomos descobrindo que a igreja católica não era tão bacana assim, fomos nos dando conta que era na verdade a igreja da repressão e das penitências. E, acima de tudo, uma igreja hipócrita.

As igrejas pentecostais, hoje chamadas apenas de evangélicas, perceberam a oportunidade, sacaram o desejo de muitas pessoas em praticar a sua fé sem culpa ou grãos de milho sob os joelhos. Valorizando o ser humano, reconhecendo sua sexualidade e individualidade, e tirando o dinheiro do jugo do pecado (afinal eles também queriam – e iriam – lucrar!), as igrejas evangélicas pipocaram país afora.

Acho curioso o espanto de algumas pessoas quando falo que sou ateu. “Mas como assim, não acredita em nada, nadinha?”. Algumas são capazes até de duvidar: “Ah, você deve acreditar em alguma coisa, isso é só tipo”. Outros ainda dizem: “Ah, deve haver alguma coisa depois, não é possível que seja só isso!”.

Como assim só isso?

A questão é que nunca nos foi apresentada outra opção. Aceitamos sem resistência, sem questionamento, sem pensar. Acreditamos em Deus e seguimos assim, talvez porque sabemos, no fundo, que pensar o contrário é, simplesmente, aterrorizante.


Desconstruindo Deus

Escrevemos Deus com letra maiúscula. Logo Deus é um nome próprio. Se é nome próprio é porque pertence a uma pessoa. Então Deus é uma pessoa (imagem e semelhança). Além de pessoa, Deus é homem, masculino, singular. Porque não uma mulher? Não é dela a fonte da vida?

Mas os que primeiro tiveram a idéia, acharam que seria um homem, então Deus homem se fez. E assim temos hoje um bando de igrejas machistas, ou você consegue encontrar uma mulher em posição de liderança em alguma religião? Curioso, não?

Sempre falamos no que vai acontecer logo após a nossa morte. Subimos aos céus para nos encontrarmos com Deus. Ok, mas e depois? O que acontece depois?!! Vamos ficar ali, convivendo com outras almas? Vamos encontrar todos os nossos parentes que foram antes de nós? Vamos encontrar com todo mundo?! De Montezuma a Cleópatra? Vamos nos encontrar com bilhões e bilhões de almas que já passaram por este planeta? É muita gente!

Os que morrem criança, permanecem criança? Os com síndrome de down, autistas, especiais, continuarão assim ou a alma livre se cura dos males do corpo? E qual será nossa relação com a eternidade, nossas almas sentirão o passar do tempo, veremos a luz do dia e a escuridão das noites? Já paramos para pensar o quão cansativa e angustiante deve ser a eternidade? Isso sem falar no tédio...

Será que não nos damos conta de que essa história simplesmente não fecha?

Vamos lá, voltando à criação. Deus então criou tudo, tudinho, todo o Universoooooooooooooooo, mas escolheu primeiro povoar a Terra com organismos unicelulares invertebrados, depois vieram os dinossauros, e o resto já sabemos. Também tivemos vários antes de nós, talvez como um ensaio. Homo Habilis, Erectus, Neanderthalensis, Sapiens. Coisa de 200 mil anos atrás. Só pra começar...

E aí eu sou obrigado a novamente perguntar: mas e eles, tinham alma?

Pois essa coisa de ter ou não ter é uma questão muito da conveniência do momento. Afinal, quando foi preciso a igreja determinou que negros e índios não tinham alma e que por isso podiam ser escravizados, já que desalmados nada mais seriam do que bestas, como um burrico ou um boi (depois teve de pedir perdão, mas isso já é outra história).

Não tenho orgulho de me declarar ateu. Na verdade não é algo para se acanhar ou se vangloriar. O ateu simplesmente se reconhece assim, ao não encontrar dentro de si o desejo de ter um deus, e ao não encontrar fora nada que o faça pensar diferente. E mais ainda, ao não querer ter um deus, resignando-se com a verdade em seu estado puro e aplicado, que é a validade do corpo humano.

A lei que rege o Universo é uma só e vem em três verbos: nascer, desenvolver, extinguir.

Ser ateu nada mais é do que reconhecer, humildemente, esse prazo que nos foi dado a viver pela mãe natureza.

O escritor Raduan Nassar tem um escrito interessante em seu livro Lavoura Arcaica. Ele fala assim sobre o tempo:

O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor.

Embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento.

Sem medida que o conheça, o tempo é, contudo,

o nosso bem de maior grandeza.

Não tem começo, não tem fim.

Rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas,

e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas;

rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo,
aproximando-se dele com ternura, não se rebelando contra o seu curso,

brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não sua ira.

O equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo,

e quem souber com acerto a quantidade de vagar,

ou a de espera, que se deve pôr nas coisas,

não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é.

Pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas.

O ateu não quer convencer ninguém. Essa coluna não quer convencer ninguém. O ateu não é um cético cínico, a debochar dos outros. Em sua grande maioria são amantes da vida e entendem que não estão aqui de passagem. Que não estão aqui em algum teste que o aprove para uma vida melhor em outro lugar. Apenas entendem que precisam viver a vida em sua plenitude para poder, quem sabe, chegar ao final com o grato sentimento de dever cumprido.


Carpe Diem



KF



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