sexta-feira, 19 de outubro de 2012

PODEROSA AVENIDA BRASIL



 Avenida Brasil vai parar o Brasil hoje a noite.

Desde Vale Tudo, novela de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, que parou a nação com seu mistério sobre a morte de Odete Roitman, que não via nada igual na televisão.

O último capítulo de Vale Tudo chegou à estonteantes 94 pontos de audiência.

Avenida Brasil começou com o público cativo da Novela das Oito (que a Globo tenta há tempos, em vão, que as pessoas se acostumem a chamar de Novela das Nove...), além dos que apreciam o trabalho do roteirista João Emanuel Carneiro. Mas de repente algo mudou e todos começaram a prestar atenção. Os motivos são vários.

Um novo autor
Emanuel escreveu seu nome no rol da fama dos grandes novelistas brasileiros não só por sua pouca idade (hoje tem apenas 42 anos), mas pelo estilo. O autor gosta de brincar com a cabeça dos telespectadores, levando-os em diferentes direções, manipulando, no bom sentido, a opinião pública. Foi assim com A Favorita, e confirmou-se como estilo em Avenida Brasil.

Em uma novela de João Emanuel Carneiro, um não deve formar sua opinião sobre as coisas - sobre as pessoas - tão cedo, pois no final você pode se deparar com seus próprios preconceitos e padrões de moral que talvez não sejam de conhecimento de você mesmo. Essa é a grande sacação.

O colunista faz parte de um grandessíssimo contingente de espectadores que voltou a assistir novela, ou, talvez melhor colocado, que voltou para assistir a novela Avenida Brasil.

A primeira característica de Avenida Brasil que chamou a atenção do colunista não foi algo que geralmente seja um elemento primordial em telenovelas: a fotografia.

Com um ritmo de produção industrial, os diretores não têm o tempo de trabalhar com mais cuidado a fotografia das cenas em uma novela. Entendendo fotografia não só a paisagem bonita por trás dos atores, mas sim o enquadramento, o posicionamento da câmera e os elementos dos planos, ou seja, o que se vê em primeiro plano (perto da lente), no plano médio e no plano de fundo. Elementos fundamentais para a composição de uma cena feita para ser captada através de uma lente.

E falando em lentes, este foi outro diferencial de Avenida Brasil. Câmeras de altíssima definição já são um padrão na Globo há cerca de 5 anos. Novelas com cara de cinema são hoje uma realidade. Primeiro as novas câmeras foram testadas com mais liberdade nas novelas da 18 horas, onde a menor pressão por audiência sempre permite ousadias maiores. Mas foi a decisão dos diretores por uma mudança técnica, principalmente da jovem diretora Amora Mautner, que fez de Avenida Brasil também um deleite para os olhos.

Filmando com as poderosas (e caríssimas) câmeras Ikegamis, o grande jogada dos diretores foi optar pelas lentes fixas, que geram uma outra textura para a imagem e, acima de tudo, uma profundidade de campo diferenciada.

Para que os leitores pouco acostumados com esta linguagem técnica, vale uma breve explicação. Existem basicamente dois tipos de lente: a zoom e a fixa.

A lente zoom é como se fosse uma série de lentes em uma só. Um lente é definida por sua distância focal. Então temos lentes 50mm, 28mm, 150, 300, 75, e por aí vai.

Mas para conseguir colocar tantas variações em uma mesma lente, algo se perde. Normalmente perde-se em abertura de diafragma (o quanto de luz uma lente é capaz de capturar) e profundidade de foco.

Resumindo, lentes Zoom acabam pasteurizando a imagem e deixando tudo igual.

Já uma lente fixa, além de ser uma lente mais clara e que deixa a imagem mais cristalina, tem uma profundidade de campo mais curta, ou seja, consegue-se o efeito de desfoque do fundo, que destaca ainda mais o que está em foco.

Os diretores de Avenida Brasil decidiram pelas lentes fixas, algo que não havia sido feito antes por um motivo simples: praticidade.

Com a lente zoom você pode mudar o enquadramento com um simples girar da lente. Para fazer o mesmo com uma lente fixa é preciso trocar de lente ou, mais complicado ainda, transportar todo o conjunto de câmera, tripé e acessórios para um ponto mais próximo ou mais distante do objeto filmado. Para uma produção de uma novela, com o ritmo frenético de gravações, isso seria algo impensável.

Até Avenida Brasil...

A opção pelas lentes fixas trouxe uma imagem cinematográfica para o gênero telenovela.

E assim que o colunista foi, como se costuma dizer, fisgado. Ao assistir um trecho da novela, já em sua metade, o colunista pensou: “há algo de diferente nesta novela!”.

A história em primeiro lugar
E depois veio a história. Um texto muito bem escrito, leve, fluído e, acima de tudo, novamente encenado por atores (e não por modelos).

Murilo Benício, Adriana Esteves, Alexandre Borges e Débora falabella são figurinhas fáceis, cartas marcadas. Mas como desconfiar de uma novela que tem em seu elenco Vera Holtz e Marcos Caruso?

Caruso apesar de veteraníssimo, atuando em telenovelas desde 1978, sempre foi mal aproveitado em papéis menores. Avenida Brasil libertou este talentoso profissional. Leleco ainda será lembrado por muito tempo.

Os nomes dos personagens é outro trunfo de Avenida Brasil. João Emanuel e sua equipe devem ter dado boas risadas enquanto escolhiam os nomes de cada um.

Avenida Brasil é um prato cheio: Leleco, Muricy, Ivana, Olenka, Nilo, Lucinda, Monalisa, Cadinho, Alexia, Silas, Maxuel, Diógenes, Dolores/Soninha Catatau, Tessália, Betânia, Adauto, Beverly, Ágata, Begônia, Genésio, e sem esquecer de Zezé e Jimmy. E é claro: Tufão e Suelen. Mas como não colocar nas alturas o melhor de todos: Darkson!!!

A atriz veterada e a atriz novata (e o ator durão)
Claro que o trono está reservado para ela, Carmem Lúcia. Nome composto que toda grande vilã merece ter.

Tudo já foi falado sobre Adriana Esteves. Mas não cabe qualquer contestação quando o próprio autor se refere a ela como a alma de toda a história. João Emmanuel disse recentemente que, apesar de Adriana não ter sido a primeira escolha para o papel, a novela não teria sido o que foi sem a interpretação dada pela atriz à vilã Carminha.

Falando em atrizes, João Emmanuel parece ter dado outra demonstração de seu talento e sofisticação, além do domínio da trama, em uma jogada pouco comentada entre durante estes últimos dias: a exclusão da jovem atriz Ana Karolina, que interpreta Ágata, das cenas mais fortes no fim da novela.

Com momentos onde os temas assassinato, traição, vingança, e todo o baú de tópicos pesadíssimos vindo à tona, Emanuel achou melhor deixar Ágata (e consequentemente a jovem atriz) fora desta pressão. Arrumou uma viagem de férias para Miami, deixando a pancadaria apenas para maiores de 18 anos. Ponto para o autor! Sutil e elegante.

A dramaturgia de Avenida Brasil é tão poderosa que mesmo um ator de atuação mais enferrujada como é Juca de Oliveira, com um estilo duro demais para a televisão, tem todo o seu potencial de interpretação libertado pelos diretores. Não se enganem, Avenida Brasil é o que é pois tem não só um autor fora de série, mas uma equipe de diretores ousados e comprometidos com uma nova teledramaturgia.

Congelando
E para acabar de completar, a trilha sonora. Mas antes vale um comentário. Durante os últimos anos houve um entendimento do setor comercial da TV Globo de que uma novela era essencialmente um produto comercial, focado em gerar lucro para a empresa. O lado artístico, teatral, lúdico, acabou sendo deixado de lado.

A Novela das Oito é o carro chefe da emissora. Simplesmente não pode dar errado, o fracasso significa colocar em risco toda a estrutura da emissora.

Até aí compreensível.

Sem margem de inovação e campo para experimentar, as novelas desta faixa de horário foram ficando todas iguais. Rostos bonitos foram priorizados. Avenida Brasil mudou tudo isso (sem abrir mão da beleza, que é fundamental...).

Mas voltando ao assunto musical, as novelas tinham se transformado em uma plataforma de venda não só dos intervalos comerciais, mas de toda uma gama de produtos, entre eles, a trilha sonora. Com toda novela vem junto um pacote fonográfico das trilhas nacional e internacional.

Mas chamou a atenção em Avenida Brasil a trilha sonora orquestral, cinematográfica, ampliando ainda mais o clima de tensão. Hoje não há quem não saiba quando a novela vai acabar. Uma assinatura sonora que vai acelerando até o congelamento em preto e branco da expressão facial do ator ou atriz que arma o gancho para o próximo capítulo, no que podemos chamar de uma renovação sofisticada do hoje descartado cenas dos próximos capítulos.

João Emanuel prova que é possível a convivência de talento artístico e retorno financeiro. A revista Forbes recentemente classificou a novela Avenida Brasil como a mais bem sucedida de toda a história da TV Globo, tendo faturado 1 bilhão de reais em anúncios (uma novela custa em média 45 milhões de reais).

Deixar para o último capítulo a revelação do assassino não é nenhuma inovação. Salomão Ayala, da novela o Astro(1977/78), de Janete Claire, ou a já citada Odete Rotiman estão aí para registro, mas Avenida Brasil trouxe algo de novo além dos milhares de espectadores que tinham desistido do gênero.

Glória Perez tem um baita desafio pela frente com seu Salve Jorge!





KF



ps – Chute do colunista: Santiago atira e mata Carminha. Antes de morrer, nos braços de sua rival Nina, a perdoa e pede perdão. Redenção final. A conferir...


sábado, 18 de agosto de 2012

As Olimpíadas, a guerra dos canais e a volta do limoeiro!

Bolt!

Ao longo de todo o primeiro semestre, a Rede Globo deu a entender que simplesmente ignoraria os jogos de Londres. O impacto poderia ser quase nenhum se não fosse a emissora a detentora de mais de 70% da audiência nacional e, acima de tudo, sendo o veículo de comunicação que influencia a cobertura do jornalismo que se faz no Brasil.

A transmissão foi perdida para a TV do bispo Edir Macedo, que em uma ousada(ilegal?)  jogada, a arrematou por 60 milhões de dólares. A Globo havia oferecido metade.

Segundo o diretor-geral da Rede Globo, Octavio Florisbal, o valor deveria ser esse mesmo, cerca de U$30 milhões. “Nós tínhamos uma visão de que os Jogos Olímpicos de 2012 deviam valer entre US$ 25 milhões e US$ 30 milhões. Porque a anterior se tinha pago US$ 15 milhões. E foi essa oferta que fizemos, dentro da realidade de mercado. Nós vivemos de audiência e publicidade. Se passar daqui, vai dar prejuízo. Até onde eu quero ir com este prejuízo?", declarou em entrevista ao colega Maurício Stycer, do UOL. 

A ausência da Globo nas transmissões gerou uma consequência clara e preocupante. Sem ela, o evento pareceu, por algum tempo, que sequer existia.

E essa consequência, que é muito mais preocupante do que saber a origem do dinheiro pago pela Record, é constatar que uma nação de 200 milhões de habitantes forma sua opinião a partir de um único veículo de comunicação.

O mesmo já havia acontecido em 2011, quando ignoramos por completo a realização dos Jogos Panamericanos, sediados na cidade mexicana de Guadalajara. A transmissão do Pan 2011 também tinha sido arrematada pela Record.

Mas será?
Desde que a data dos jogos se tornou visível no horizonte, o colunista ficou na expectativa de como seria a cobertura da Globo em relação as Olimpíadas. Ter ignorado o Pan 2011 era uma coisa, agora em uma Olimpíada, o buraco seria mais embaixo.

Mas não houve um segundo sequer no Jornal Nacional, Jornal da Globo, Jornal Hoje... Nada, absolutamente nada. O jornalismo da emissora chegou a cobrir ostensivamente as Olimpíadas Escolares, sem dar uma nota sobre a preparação de nossos atletas olímpicos, que nada tinham a ver com a briga entre a Globo e a Record.

Arthur Zanetti nas argolas.
Talvez com uma cobertura digna, tivéssemos sabido que um certo paulista de São Caetano do Sul, de nome Arthur Zanetti, vinha se preparando forte nas argolas...

O silêncio da Globo em relação aos jogos chegou muito próximo de um boicote. Mas alguma mente sensata na diretoria da Globo deve ter peitado: “temos que cobrir os jogos!!!”.

Mas isso só ocorreu quando já era tarde demais.

A emissora ainda teve a empáfia de se apresentar como vítima, se dizendo excluída e citando as regras do COI para justificar sua pobre cobertura. Ainda popularizou um novo adjetivo: não-detentora.

Um comunicado foi publicado em sua página institucional:

 “A cobertura jornalística da Rede Globo dos Jogos Olímpicos 2012 seguirá dois princípios de que não pode abrir mão: informar os seus telespectadores e respeitar acordos sobre direitos esportivos.

Para isso, a emissora comprou da Olympic Broadcast Services o acesso às imagens dos Jogos Olímpicos vendido a não detentores dos direitos de transmissão que aceitam as regras do COI (Comitê Olímpico Internacional) para a utilização jornalística em suas coberturas do evento.

(...)*

Seguindo a experiência internacional, e sem ferir as regras do COI, fotos serão utilizadas sempre que imagens de um evento não puderem ser exibidas.

São restrições importantes do COI que a TV Globo acata num esforço para bem informar os seus telespectadores. Como acontece em todo o mundo com os não detentores de direitos de transmissão, o respeito a essas regras implicará, naturalmente, uma cobertura mais limitada do que a que realizamos nos últimos anos, mas suficiente para divulgar as principais notícias sobre os Jogos Olímpicos”.


Vejamos como se posicionam. Dizem que não podem abrir mão de informar seus telespectadores. Se expõe sujeitos a fortes restrições e se colocam como limitados para apresentar uma melhor cobertura.

Mas fica a pergunta. Se pretendiam cobrir as Olimpíadas, mesmo amarrados pelas regras do COI, porque não cobriram, ao longo do primeiro semestre, a preparação de nossos atletas? Quem eram? De que cidades vinham? Que modalidades competiríamos? Não creio que essa restrição estivesse prevista nas regras do COI...

Será que Teresina era tão longe assim para contar a história da judoca Sarah Menezes, primeiro ouro do Brasil em Londres, primeiro ouro da história no judô feminino?

Cínica, a emissora carioca se fez de morta.

Como pôde ignorar um evento dessa magnitude? Duzentas e quatro bandeiras nacionais estavam representadas nos jogos, isso mesmo, 204 nações. Que traz aliás uma curiosidade, a ONU só reconhece 193 nações soberanas. Então o COI é ainda mais generoso, mais plural, mais diverso do que as Nações Unidas.

Ao todo foram 10.820 atletas reunidos em 302 eventos esportivos cobrindo 26 modalidades. A maior delegação, naturalmente, foi a da Inglaterra, que por ser a dona da casa tem o direito de inscrever atletas e equipes em todas as categorias sem a necessidade de participar das classificatórias (o Brasil terá o mesmo direito em 2016). Os britânicos chegaram com 541 atletas, os EUA com 530, e o Brasil com 258. Mas também estavam lá o Timor Leste, a Guiné Equatorial e a República de Nauru, uma ilhota no Pacífico Sul, com dois atletas cada.

Medalhas, fama e dinheiro
Outra curiosidade desta Olímpiada, que a restrita cobertura também não mostrou, foi a grande polêmica em torno dos atletas mercenários, como foram chamados por parte da imprensa britânica.

Em pauta estava o que eles batizaram de Plastic Brits, ou em tradução direta, os Britânicos de Plástico. Uma referência aos atletas profissionais de outras nações que se naturalizaram ingleses em troca de benefícios financeiros.

De fato houve um investimento bilionário na formação dos atletas locais, ao todo 300 milhões de libras, cerca de 1 bilhão de reais . E o resultado foi colhido no quadro de medalhas. Das 19 medalhas de ouro ganhas em Pequin, os ingleses arremataram desta vez 29. Fica a dica.

Mas também é fato que cerca de um terço das 65 medalhas conquistadas, incluindo prata e bronze, foram ganhas por atletas imigrados, sendo a grande estrela desta constelação o somali Mohamed “Mo” Farah, ouro nos 10 e 5 mil metros. Junto a ele enfileiram-se o belga Bradley Wiggins, ouro no ciclismo; a alemã Laura Bechtolsheimer, ouro no hipismo, entre outros que ajudaram a dourar o quadro de medalhas inglês. Até um brasileiro estava neste time de súditos da rainha. O carioca Mark Plotyczer, que apesar do nome, é filho legítimo de Copacabana. Mark defendeu as cores ingleses no vôlei de quadra.

Durante o farto debate na imprensa britânica, o COI se declarou impotente para interferir em assuntos de soberania, mas deixou clara a sua insatisfação com a migração de atletas tendo como pano de fundo a motivação financeira (obs: Mo Farah não se enquadra neste cenário. O somali é considerado um refugiado).

Aliás não só a Somália vem oferecendo ao mundo exímios corredores, como vários outros países africanos. Algo que talvez os estudos da genética deva se debruçar um pouco.

Os africanos há décadas dominam todas as provas de média e longa distância. Em Londres, além de Mo Farah, o queniano Wilson Kipsang venceu a maratona, tendo em sua cola o compatriota Martin Lel e o etíope Tsegaye Kebede. No final, uma olimpíada é um misto de competições que misturam força muscular, técnica, pontaria e resistência. Ou seja, tem lugar pra todo mundo, dos magrinhos corredores aos super-pesados do judô. O que é bom.

O cabelinho escovinha não esconde as origens de Wang (de costas)
Mas este novo cenário não é exclusivo dos ingleses. Estas repatriações, seja de que origem e com qual interesse, já mostra um mundo diferente. Vejamos o brasileiro Hugo Hoyama, super-campeão do tênis de mesa, brasileiríssimo de São Bernardo do Campo, mas cujo sobrenome não esconde as origens. Hoyama perdeu para o Polonês Wang Zengyl. Um polonês falsificado. Chinês que era...

O mundo está mudando, e não é a economia.

Simona neles!
E no mais foi isso. A Jamaica, que competiu apenas com jamaicanos, deixou de ser a terra de Bob (Marley) e passou a ser a terra de Bolt (Usain). Aliás, o atleta da Jamaica fez um curioso gesto ao final da sua vitória nos 100 metros rasos. Com o dedo indicador nos lábios, mandou o mundo ficar calado.

Com quem falava Bolt? Com aqueles que previram o seu fracasso em Londres? Riu por último, afinal são jogos Olímpicos, e não de adivinhação...

E o Brasil não fez feio. Mas também não fez bonito. Como uma nação que sediará os próximos jogos, nosso país já deveria estar investindo muito na formação de novos atletas, ou no aperfeiçoamento dos que têm idade para chegar em forma competitiva em 2016. O que vimos até agora foi um aquecido mercado da construção civil.

Ao longo de toda a trajetória olímpica, o Brasil já ganhou 108 medalhas, sendo 23 de ouro, 30 de prata e 55 de bronze. Nosso irmão do norte, os EUA, nos deixa em uma situação muito constrangedora. São 2406 medalhas, sendo 976 só de ouro.

Há muito trabalho pela frente.

Mas nem tudo são dores (musculares ou não). Há que se tirar o chapéu para a equipe responsável pela participação brasileira na Cerimônia de Encerramento. Que coisa linda aquilo. E que medo estava o colunista, minutos antes de nossa emtrada em cena, que aparecessem mulatas, araras e índios pintados de urucum.

O show foi perfeito e de um bom gosto irretocável, e ousadia pouco vista. Alguém esperava o excelente - porém desconhecidíssimo do grande público - B Negão? Um dos fundadores do Planet Hemp (que lançaria também o cantor Marcelo D2), B Negão cantou Maracatu Atômico na versão de Chico Science & Nação Zumbi. Ousadia sobre ousadia!

Isso sem falar no início triunfal do gari Sorriso. Quem um dia apostaria que um funcionário da empresa de limpeza urbana do Rio de Janeiro representaria a nossa nação aos olhos do mundo? Quem?! E que descontração! Sorriso estava em casa!

Mas a surpresa máxima estaria reservada para o final. Seu Jorge, esse sim super conhecido internacionalmente, o filho do município fluminense de Belford Roxo, entrou cantando, no mais elegante conjuntinho de Malandro, nada mais, nada menos que ele, Wilson Simonal!!! Quem apostaria nesta volta triunfal do extraordinário Simona? Que do céu devia estar falando: agora só esse lado cantando... Só as mulheres... Agora todo mundo: meu limão, meu limoeiro...



KF


em tempo:

·        pelo apurado até agora, a transmissão das olimpíadas foi um péssimo negócio para a Record. A emissora ficou em terceiro lugar e bem abaixo dos índices de audiência de Pequin 2008. Pelas ruas onde andou o colunista, todos os televisores estavam sintonizados no... SporTv!
·        As Paraolimpíadas, que agora estão sendo chamadas de Paralimpíadas, começam no dia 29 de agosto. É imperdível, isso sim pode ser chamado de superação. O colunista não sabe dizer quem vai transmitir...
·        Fechando: a cobertura da Record pode ser simbolizada pela gafe da experiente jornalista Ana Paula Padrão. Mesmo estando já há 3 anos na Record, foi capaz de chamar, ao vivo, o Jornal da Record de Jornal da Globo (clique e  confira...).
·         Como diria o Simonal: Nem vem de garfo que hoje é dia de sopa!


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O que que a Alemanha tem?


França cai e Europa fica nas mãos da Alemanha (manchete O Globo – 14/01/2012).

Uma manchete assim não há como se ignorar, principalmente se levarmos em conta que o país em questão foi totalmente destruído, duas vezes, no século passado.

O colunista esteve recentemente na Alemanha e tenta entender o incrível poder de recuperação deste povo alemão. 





Uma expressiva cadeia montanhosa coberta de neve captou a atenção do colunista. Eram os Alpes suíços, que marcavam os momentos finais de aproximação do longo vôo São Paulo-Frankfurt, na Alemanha.

Logo em seguida, na baixada que se seguiu, enormes cataventos apareceram na paisagem. Com certeza não era a Holanda, voávamos Alemanha adentro. E os cataventos em questão não serviam para moer grãos, mas sim para gerar energia limpa.

A Alemanha é hoje líder no desenvolvimento de novas fontes de energia. E vai precisar delas cada vez mais visto que a presidente Ângela Merckel anunciou, após a catástrofe na usina de Fukushima, que irá desativar 17 usinas nucleares alemães.

Mas o país não está apenas na liderança de soluções energéticas. Os alemães vem desenvolvendo produtos, idéias, arte, ciência e máquinas a mais tempo do que nos damos conta e crédito.

É curioso que pensemos nos norte-americanos, japoneses ou até mesmo nos italianos quando os assuntos são invenções ou construções. Mas depois deste texto o nobre leitor talvez perceba, assim como aconteceu com o colunista, que os Alemães vão muito além da Cerveja Cerveja Cerveja!!!

Os elefantes* da Germânia

Talvez a permanência da Alemanha na sombra da história possa ser entendida a partir de algumas observações: primeiro a pouca habilidade dos alemães em se comunicar, não só pelo idioma complicado mas principalmente pelo pouco domínio sobre isso que chamamos de publicidade, ou a arte de tornar público, notório, de vender o seu peixe.

Por outro lado, o poder empreendedor desse povo é impressionante. Destruída e falida, a Alemanha levou 2 décadas após a I Guerra Mundial para se tornar novamente uma superpotência rica e armada. Muito bem armada.

De tão armada chegou a ocupar praticamente toda a Europa. O passeio de Hitller ao Louvre em plena guerra é o emblema máximo deste momento.

No entanto, a mesma característica que faz os alemães serem quem são, seria justamente o que os derrotaria: são metódicos e racionais.

No fim das contas, os alemães foram derrotados por eles mesmos, por seu excesso de confiança no método alemão, no jeito alemão de fazer as coisas.

Confiantes de que seus Panzers, que sua Blitzkrieg (guerras-relâmpago), e que o sangue azul da raça ariana seriam o suficiente, faltou aos alemães a flexibilidade e o poder de adaptação para entender que a guerra estava mudando, e que eles precisavam mudar.

Hitler jamais admitiria mudar sua estratégia, pois mudar, para ele, seria admitir que estava errado.

Sorte nossa!

O fim da guerra trouxe ao mundo uma verdade horrenda sobre a Alemanha. As imagens dos campos de concentração com suas câmaras de gás jogaram o povo alemão dentro de um grande sentimento de vergonha. Um grande constrangimento.

Em um resumo (sem qualquer rigor científico), parece que esse abatimento, somado aquela pouca habilidade em divulgar seus resultados e sucessos, levou a Alemanha para a sombra. Sombra que ainda permanece (ou permanecia) até hoje.

* o mundo é como a selva, quem leva a fama é o Leão, que ruge mais alto, mas o Rei da Selva é o elefante.


Os alemães e suas máquinas

Os tais eficientes tanques Panzers, que tanto aterrorizaram as tropas aliadas, nada mais foram do que o resultado de uma habilidade tradicional do povo alemão em inventar e produzir máquinas.

Da próxima vez que entrar em um elevador ou estiver subindo de andar confortavelmente em uma escada rolante, agradeça a alemã ThyssenKruppe. Precisa pregar um quadro na parede ou fixar uma prateleira? Provavelmente você vai usar uma furadeira Bosch (que também produz, entre tantos itens, as velas que fazem nossos carros funcionarem).

 E já que falamos em automóveis, entrou em um ônibus, talvez o motor que te movimentará pela cidade seja da Mercedez Benz ou Volkswagen.

E não para por ai. Pense em carros e você também terá os Audis, BMWs, Opels, Daimlers, e Porsches, todos alemães. O Fusca é alemão (sob encomenda de Hitler para o engenheiro Ferdinand Porsche) !

E não só sabem construí-los, pilotam que é uma beleza. São sete os títulos do alemão Michael Schumacher e dois (por enquanto) os do conterrâneo Sebastian Vettel.

Ficou com dor de cabeça? Vai tomar uma aspirina? Então agradeça a farmacêutica Bayer, de Leverkusen, Alemanha. Ficou resfriado? Vai tomar um Cebion? Então apresente seus cumprimentos à Merck, de Darmstadt, Alemanha também.

Os muito antigos ouviram rádio, os nem tão antigos viram a TV a cores, todas Telefunken, de Berlin! É do tempo das fitas K-7? Então você deve ter gravado suas músicas preferidas em uma fita da Badische Anilin und Soda-Fabrik, ou simplesmente: BASF!

E se você está lendo isso é porque o alemão Johannes Gutenberg inventou o primeiro sistema de impressão, e seu patrício Konrad Zuse, o primeiro computador funcional!

E você ficaria surpreso ao saber que a Árvore de Natal é uma invenção alemã? E o coelho da Páscoa? Tradição trazida pelos alemães para os Estados Unidos no final do século XVII. O happy hour, ou seja, o hábito de parar para uma relaxada antes de chegar em casa depois do trabalho? Também uma invenção da cultura germânica. A vida ao ar-livre, o montanhismo? Tudo alemão!

Cláudia Schiffer em seus melhores dias
E por aí podemos seguir sem parar. Einstein era alemão, Freud também (na verdade austríaco, mas a Áustria é basicamente uma Alemanha com outro nome...), Bertold Brecht, Beethoven também (Reino da Prússia – logo germânico) assim com Bach, Handel, Orff, Schumann, Strauss, Wagner e dezenas de outros menos conhecidos.

Branca de Neve? Cinderela? O Flautista de Hamelin? O Príncipe Sapo? Rapunzel? A Bela Adormecida? Você acha que são de Walt Disney? Nada disso! Todos estes contos são dos alemães Jacob e Wilhelm Grimm.

Durante muito tempo tivemos como ideal de beleza a alemã Cláudia Schiffer, que figura hoje no Guinness como a modelo que mais capas fez em todo o mundo. Hoje quem ocupa este posto é a brasileira Gisele Bündchen. Não precisamos pensar muito para saber de onde vem o DNA da moça com sobrenome tão sonoramente germânico.

Em suma: os alemães estão por toda parte!

Terra dos alemães

Então que povo é esse? Porque sabemos tão pouco dos alemães? Porque damos tão pouco crédito? Porque interagimos tão pouco? Será pelo dificílimo idioma?

Durante muito tempo o colunista tentou entender porque tinha a sensação de que os alemães não usavam a vírgula em suas conversas. Para um não-falante, parecia que uma palavra emendava na outra, e na outra, e na outra, fechando apenas no ponto final.

Compreendendo a formação do idioma alemão, fica mais fácil entender essa sensação de verborragia.

Ao invés de inventarem novas palavras, criando um idioma vasto em vocábulos originais, como é o português, os alemães preferiram ir juntando palavras para criar novas descrições e idéias. Para se ter um brevíssimo exemplo, a famosa despedida em alemão Auf Wiedersehen, é na verdade a junção de três palavras: auf=em, wieder=de volta,  sehen=ver.

Ou seja, para dar um simples tchau em alemão temos que dizer algo como “nos veremos na volta”. É até simpático, mas com certeza não muito prático.

O principal jornal da Alemanha chama-se singelamente: FRANKFURTER ALLGEMEINE ZEITUNG. Frankfurter (aquele que é de Frankfurt) Allgemeine (all=todos; gemeine=comum) Zeitung (Zeit=tempo; Tung=processamento, juntas querem dizer jornal). Resumindo: Jornal de Frankfurt

A estrutura das frases é também curiosa. Se você precisar dizer para alguém que não fala português, a frase será: Eu não falo português. No inglês seguirá a mesma estrutura: I dont speak english. E no espanhol igual: Yo no hablo español.

No entanto, se quiser dizer o mesmo em alemão teremos: Ich sprechen nicht Deutsch. Ou seja: Eu falo não alemão. Ou seja, a negação vem no final. É por isso que dizem que um tem que esperar a frase ser dita até o final, pois será apenas com a frase completa que o sentido da mensagem será entendido. Talvez seja por isso que Caetano Veloso cantou em Língua, um de seus sucessos, que só seria possível filosofar em alemão. E nisso temos Thomas Mann, Karl Marx, Nietzsche, Adorno, Walter Benjamin, Engels, Goethe, Habermas, Kant, Schopenhauer. Ou seja, os alemães influenciaram todo mundo!

E é claro que os alemães não ficariam para trás quando o assunto fosse as finanças. Os bancos alemães sempre foram potências. Vale lembrar que as viagens lusitanas para o além-mar eram financiadas em parte por banqueiros germânicos.

O Brasil, apesar de pouco sabido, teve uma forte relação comercial com a Alemanha desde a vinda da família real até a II Guerra Mundial. Depois da entrada do Brasil na II Guerra, quando os EUA convenceram Getúlio Varga$ a trocar de lado, todas as parcerias comerciais, tecnológicas, culturais e científicas foram interrompidas. Hoje fica claro que perdemos muito mais do que ganhamos.

A Europa está caótica. Muito em parte pela insensatez de seus governantes e, acima de tudo, de empresários inescrupulosos que jogaram com as bolsas de valores de forma irresponsável e ilegal (para este tema vale pedir na sua locadora o documentário - vencedor do Oscar 2011 - Trabalho Interno (Inside Job)).

Os alemães estão segurando as pontas, não se sabe até quando.




KF



segunda-feira, 18 de julho de 2011

Rio de Dinheiro: 2014-2016


Arion, o mascote dos Jogos Militares 2011

A nobre leitora e o prezado leitor já devem ter ouvido por aí que estamos iniciando a Década de Ouro brasileira.  Mas o que, na opinião do colunista, vale realmente conferir é para quem irá o ouro. E não estamos falando de medalhas.

Os grupos

Eventos esportivos de grande porte custam mesmo fortunas. E onde fortunas estão sendo gastas, há os grupos empresariais interessados nos lucros.

Dois grupos estão envolvidos com a vinda da Copa do Mundo e das Olimpíadas para o Brasil. De um lado as empresas que fazem negócios com o cartola Ricardo Teixeira, que há 22 anos comanda a CBF. De outro o grupo que fecha contratos com o chefão do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, a frente da instituição há 16 anos.

Chama a atenção o fato de que, desde que vencemos as duas concorrências, o único assunto que ocupa as páginas dos jornais quando o tema é tratado não são os esportes, a preparação dos atletas, o investimento em centros de treinamento, mas sim os valores dos orçamentos, o estouro dos orçamentos, o sigilo nos valores do orçamento, os atrasos na execução que geram orçamentos cada vez mais altos em um rio de dinheiro que não sabíamos nem que tínhamos em nossos cofres.

Mas e do esporte? E o investimento nas novas gerações? Saberíamos dizer quem são as promessas? Quem são os atletas que o Brasil está formando para se destacar em casa, assim como fizeram os chineses?

O Projeto 119

Assim que soube que sediaria as olimpíadas de 2008, o governo chinês lançou um ambicioso projeto em busca do topo do ranking das medalhas. O objetivo era claro: superar os Estados Unidos!

A China então investiu cerca de 6 bilhões de dólares na formação de atletas em 3000 escolas esportivas espalhadas pelo país. Trouxeram de diversos países especialistas nas modalidades que eles ainda não dominavam. O projeto se chamou 119 pois os chineses se deram conta de que era justamente nas modalidades onde vinham tendo resultados menos expressivos, no caso o atletismo, natação, remo, vela e canoagem, que estavam uma grande quantidade de medalhas de ouro em disputa, no caso, precisamente 119 delas.

O resultado a gente viu no final. A China superou os EUA com ampla vantagem: 51 ouros contra 36 dos norte-americanos (o Brasil conquistou 3 ouros). A isso podemos chamar de projeto olímpico, por mais desagradável que seja para o colunista elogiar o regime chinês.


Apagão da informação

Se parece que os órgãos ligados ao esporte não estão preocupados com a formação dos nossos atletas, tão pouco a imprensa está interessada no assunto.

E os motivos talvez sejam os mesmos que movem os grupos empresariais que tanto lutaram para trazer estes jogos para o Brasil: lucro. E no caso da imprensa, o motivo pelo hiato na cobertura pode estar justamente na ausência desse retorno financeiro.

Para que o leitor que não conhece ou acompanha de perto a maneira de se fazer jornalismo no Brasil, vale uma breve iniciação.

Lamentavelmente, vivemos um mercado dominado por apenas uma empresa, a Rede Globo. Para se ter uma dimensão mais palpável do que estamos falando, a Globo (ainda) detém 70% do mercado publicitário. Não há aqui uma crítica a emissora neste quesito, visto que a qualidade do que produz merece a fatia de mercado, mas deixar a formação da opinião nas mãos de apenas um grupo jornalístico, tem o seu preço.

A Globo é tão influente que forma a opinião não só de seus clientes, mas também da concorrência tamanha é a força da sua marca e da sua máquina. Para entender como isso funciona na prática, basta dizer que todas as redações do país param para assistir os telejornais da emissora, seja o Jornal Hoje, Jornal Nacional ou Jornal da Globo. O que sai ali é o que vai ser notícia. O que sai ali é o que se vai atrás.

Mais jogos ainda

No momento em que publicamos mais esse texto, inicia-se no Rio de Janeiro os Jogos Mundiais Militares, um evento esportivo não tão vigoroso como as Olimpíadas, mas com certeza maior que os Jogos Pan-americanos.

Mesmo assim, não fosse a publicidade paga, provavelmente nem nos daríamos conta de que um evento que reúne 6 mil atletas vindos de mais de 100 países, em 20 modalidades, algumas presentes apenas em jogos desta categoria, está acontecendo no país.

Para ilustrar o argumento, podemos dizer que os números acima não foram capazes de seduzir, por exemplo, os editores do dominical Esporte Espetacular da TV Globo que, apesar de sua épica duração de 3 horas, não deu nenhuma linha sobre os Jogos Militares na edição que precedeu o início da competição.

Não se mostrou quem são os atletas-militares que irão defender o Brasil ao longo dos nove dias de competição, não se documentou como foi sua preparação. Não foram apresentadas as sedes dos jogos. Não foram divulgadas as modalidades, algumas exclusivas dos Jogos Militares como o natação de salvamento, natação utilitária, paraquedismo, corrida de orientação, ou o até mesmo a pouco simpática (e deveras arcaica) lançamento de granadas (isso mesmo, nobre leitor, lançamento de granadas!).

Nada disso foi capaz de atrair a atenção da Rede Globo, e por consequência...

Daí começa a parecer que o jornalismo praticado pela Globo não está interessado no esporte, mas sim nos contratos publicitários que um evento como este gera para a empresa. Ou seja, não havendo lucro, não há cobertura.

Ok, vamos lá.  Aqui temos apenas um colunista e não um comunista. Nada contra o lucro. Mas cabe a um veículo de comunicação, até pelo seu caráter de concessão, uma certa dose de participação voluntária no desenvolvimento de seu país.

Mas caso o leitor ainda esteja achando o colunista exagerado, quase revanchista, aqui vai mais um argumento, e esse assaz escandaloso.

Pan pan pan pan!

O leitor saberia dizer quando serão os próximos Jogos Pan-americanos? Saberia dizer onde será realizado?

O leitor ficaria surpreso se o colunista lhe informasse que os Jogos Pan-americanos acontecerão dentro de 3 meses na cidade mexicana de Guadalajara?

Sim, dentro de três meses teremos novamente os jogos que unem os atletas das Américas!!!

Saberíamos dizer que são os atletas que se prepararam nos últimos quatro anos para representar a nossa bandeira no México? O nosso velho e bom México de boas lembranças da década de 1970?

Pois é nobre leitor. E você quer saber por que isso está acontecendo? Você quer entender como sua opinião é formada e manipulada?

A compra do pódio

Há dois anos atrás aconteceu algo inédito no mercado jornalístico brasileiro. Pela primeira vez a Rede Globo teve sua hegemonia abalada, perdendo um edital internacional para a aquisição de direitos de transmissão. Quem venceria seria a TV Record, que através de uma oferta milionária adquiriu os direitos de transmissão de Guadalajara 2011.

Entendeu agora por que parece que o Pan não está acontecendo?

Fica claro também que o compromisso da Globo não é com o atletismo nacional, com o esporte, com tudo o que vem nesse pacote (saúde, bem-estar, patriotismo e quetais) mas sim com contratos publicitários. Sendo assim, o fato comercial supera o fato jornalístico.  

Mas isso ainda não é o mais grave. A TV Record também venceu a Globo para as Olimpíadas de 2012 em Londres!!!!  É ou não é algo nunca antes visto na história deste país?

E agora? Será que a Globo vai ignorar também as Olimpíadas de 2012?

Fosse o compromisso com o esporte, deveríamos estar assistindo através das lentes da líder de mercado, que sem dúvida alguma tem as melhores equipes de jornalistas e cinegrafistas, não só do Brasil como do mundo, uma cobertura exemplar para os Jogos Panamericanos, que a partir de 2007 passaram a fazer parte do nosso vocabulário.

E porque não exigir o mesmo para os Jogos Militares? Não só pelo seu ineditismo (está apenas em sua quinta edição), mas pela inspiração que pode trazer a uma nação.

Se fosse profissional, teríamos acompanhado a bela cerimônia de abertura onde, em um gesto ousado e moderno para uma instituição conservadora e masculina como as Forças Armadas, foi concedida a uma mulher a honra de hastear a bandeira nacional diante da Pira Olímpica. Mas não só uma mulher, mas a primeira oficial de origem nativa, a tenente Sílvia Wajãpi.

No final acabamos descobrindo que a imparcialidade é um mito e que o ouro, talvez seja de tolo.




KF


Em tempo:

  • Os Jogos Militares seguem até dia 24 de julho. Todas as competições com entrada franca.
  • Também nos Jogos Militares o orçamento estourou. Quem paga a conta é o Ministério da Defesa. Ou seja, eu e você.
  • A TV Record é de propriedade do Bispo Edir Macedo, dono também da Igreja Universal do Reino de Deus.
  • É difícil de acreditar que as verbas publicitárias da Record tenham sido suficientes para bancar o compra dos direitos de transmissão do Pan 2011 e Olimpíadas 2012.
  • Os militares chineses já lideram o ranking de medalhas dos Jogos Militares.
  • Dilma não foi vaiada.
  • Para mudar de canal use o controle-remoto.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

Antonio Palocci, Strauss-Kahn, e a obsolescência do jornalismo investigativo

Uma curiosa conexão une os casos do brasileiro Antonio Palocci e do francês Dominique Strauss-Kahn.

Mas para chegar a esta conclusão, precisamos primeiro relembrar com um pouco mais de detalhes a tumultuada carreira do paulista Antonio Palocci.

Palocci, o mafioso bonzinho
Médico, cara de bom moço, fala mansa e sempre com um leve sorriso no rosto. Gozando de prestígio, até bem pouco tempo, inclusive na oposição, Palocci é o tipo de sujeito que a gente dá crédito e nem desconfia.

Não é por menos. Hollywood nos educou a ver os criminosos como homens maus, feios, de fala grossa, barba mal feita e que sempre, sempre sempre, se dão mal no final.

Não é assim na vida real.

Palocci é um reincidente, pelo menos nas páginas dos jornais, já que na justiça tem conseguido escapar ileso. Sua carreira política inicia-se na cidade paulista de Ribeirão Preto. E é de lá que surgem as primeiras denúncias de corrupção, ativa e passiva.

As primeiras acusações são de sua passagem como prefeito. Palocci seria acusado de receber propina de uma empresa de coleta de lixo em troca de favorecimento em uma licitação. Palocci também se envolveria em irregularidades na compra de cestas básicas. Além disso, ainda foi implicado em denúncias que alegavam a cobrança de mesadas de empresas que prestavam serviços à prefeitura.

Traficante de Influência
Mas seria no governo Lula que Palocci sofisticaria e ampliaria seu esquema de arrecadação de dinheiro em governos do PT, e também em empresas governamentais que gerissem um grande volume de contratações de serviços terceirizados (onde a propina pode ser cobrada sem deixar muito rastro).

Para tocar o negócio, Palocci precisava de uma base onde seus lobistas de Ribeirão Preto pudessem atuar em Brasília. Para isso, através de testas-de-ferro ou assessores, como o agora notório Rogério Buratti, por exemplo, foi alugada uma mansão na área mais nobre de Brasília, o Lago Sul (a casa teria ainda outra função, o entretenimento destes homens nos momentos de folga. A presença de prostitutas era uma constante em festas realizadas duas vezes por semana, mas isso não é da nossa conta e sim das esposas de cada um).

Palocci era conhecido pelos frequentadores da casa como “Chefe”. E o chefe aparecia toda semana, e não era para as festinhas.

A CPI dos Bingos
Hoje já nos demos conta de que uma CPI não serve para nada além de ser uma ferramenta usada pela oposição para enfraquecer e/ou chantagear o governo. Quem está fora do governo a usa apenas para expor os inimigos em praça pública através de intermináveis interrogatórios televisionados.

Não se tem notícia de uma Comissão Parlamentar de Inquérito que tenha servido para moralizar o Congresso Nacional ou devolver aos cofres públicos o dinheiro que é desviado em maracutaias e negociatas. Cassações então, nem pensar! Impera o corporativismo.

Das dezenas que já tivemos, uma delas investigava o uso de bingos para a lavagem de dinheiro. Quem montou a CPI não sabia que iria mirar em um passarinho e acabar derrubando um avião.

No início de 2004 fomos todos apresentados ao senhor Waldomiro Diniz (quer nome melhor para um mafioso?). Ele foi flagrado em vídeo achacando o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Waldomiro era assessor de José Dirceu.

Puxando daqui e dali foi que a CPI dos Bingos acabou esbarrando com o esquema de arrecadação ilegal montado por Palocci na mansão do Lago Sul, que ficaria conhecida como República de Ribeirão Preto.

A casa tinha sido alugada em nome de um tal Vladimir Poleto. Este, por sua vez, tinha um motorista chamado Francisco das Chagas. Francisco foi convocado a depor.

E foi durante esse depoimento que um simples detalhe citado por Chagas mudaria o rumo das investigações. O motorista falou sobre a existência de um caseiro na mansão.  Foi o suficiente para Francenildo Santos Costa entrar na história e entrar para a História.

O homem-bomba
Antes mesmo de ser convocado oficialmente para depor na bancada da CPI, Francenildo já sabia que sua vida estava fadada. Seu nome ecoava em todos os noticiários. Pensou em fugir, mas desistiu ao pensar no único filho.

Sem conhecimento nem malícia para lidar com tamanha confusão, Francenildo acabou orientado por pessoas nem tão bem intencionadas assim. Acuado, foi aliciado por políticos da oposição, no caso o então senador tucano Antero Paes de Barros, que o convenceu de que a única forma de se proteger seria falando com a imprensa.

Paes tentou primeiro a revista Época, através do jornalista Andrei Meireles, mas Meireles não se interessou na isca lançada pelo senador. Quem morderia seria a jornalista Rosa Costa, do jornal O Estado de São Paulo.

A matéria foi para a capa com o título: “CASEIRO DESMENTE PALOCCI E DIZ QUE MINISTRO VISITAVA MANSÃO”.

O circo começava a pegar fogo.


O ataque é a melhor defesa
Apesar do caso envolvendo o então ministro da Fazenda não ter necessariamente a ver com o objeto de investigação da CPI, no caso a lavagem de dinheiro através de casas de bingo, a convocação de Palocci para depor era agora uma bandeira da oposição. Não pela possibilidade de apurar a corrupção em si, mas na brecha aberta para enfraquecer o governo, derrubando seu principal ministro.

Não nos enganemos, não havia ali nenhum sentimento patriótico, nenhuma postura pelo saneamento da política nacional. Era pura vingança e mesquinharia. Mas, lamentavelmente, é na briga suja de gente poderosa que a Democracia ganha alguma chance de se fortalecer.

Palocci sabia onde tinha estado e onde não tinha estado. No entanto, sem provas materiais de sua ida a mansão, ele contava agora com o embate de versões e currículos. Seria um ministro contra um caseiro. E para isso, Palocci precisava de elementos para desmoralizar o inimigo, e cúmplices para encobrir o golpe que estava prestes a desferir.

Ouvi dizer
Por uma dessas coincidências do destino, na mansão ao lado morava a jornalista Helena Chagas, editora de política e chefe da sucursal do jornal O Globo em Brasília.

Enquanto acompanhava a manada de jornalistas que agora se aglomerava na frente de sua casa, Helena ouviu um comentário feito pelo seu jardineiro. O funcionário de Helena dizia que estava chateado com toda a confusão, que iria atrapalhar o negócio que Francenildo faria com sua irmã: a compra de um terreno.

Helena mandou logo fazer uma matéria. O título não poderia ser mais capcioso: “COLEGAS DO CASEIRO AFIRMAM QUE ELE VAI COMPRAR UMA CASA”. Não havia apuração, a fonte era duvidosa, e intenção cheia de maldade.

Em um momento de sanidade pouco comum em redações de jornais, principalmente em situações como esta, onde o furo vale ouro, os editores no Rio de Janeiro decidiram não publicar a matéria sugerida por Helena Chagas.

Mas ela não se daria por vencida. Achava que estava diante de uma grande história. Foi direto ao Congresso e lá deu de bandeja  a suposta informação ao então senador Tião Viana (PT-AC): “Olha, parece que que tem uma informação de que o rapaz recebeu dinheiro, a gente está indo atrás disso”. Helena Chagas, a partir de um entreouvido de uma conversa entre jardineiros, chegou a conclusão de que o caseiro atuava em nome da oposição por interesse financeiro. Transformou sua especulação em fato ao soltá-la no mundo real.


Francenildo, o filho
O resto da história a gente já conhece. Tião Viana repassou imediatamente a informação a Palocci. O ministro mandou ordem ao presidente da Caixa Econômica, Jorge Mattoso, para que violasse o sigilo bancário do caseiro para checar se havia algum valor que não batesse com os rendimentos de sua profissão.

E Bingo! Havia!

O Globo não deu, mas a revista Época se prestou ao papel de esquentar a notícia falsa publicando o extrato ilegal sem sequer ouvir o outro lado, sem nem ao menos checar com Francenildo.

O então diretor editorial das revistas da Globo, Paulo Nogueira, diz hoje que Palocci teria passado por cima da redação entrando em contato direto com os diretores das Organizações Globo, ou seja, a própria família Marinho. “Palocci foi quem fez chegar a nós, na redação da Época, informações que supostamente desqualificariam um caseiro de Brasília que dissera que ele freqüentava uma mansão pouco recomendável quando era ministro da Fazenda. Foi um dos episódios mais desagradáveis de minha carreira”, escreveu Nogueira em seu blog Diário do Centro do Mundo.

O resto da imprensa veio junto, ignorando a cartilha mais básica da profissão: a apuração! Valia a lei de publicar primeiro e perguntar depois, uma postura distorcida muito ligada ao medo de se levar um furo (ou a fissura em dar um furo).

Mas qual não seria a nova reviravolta do caso. Francenildo era filho biológico do piauiense Eurípedes Soares da Silva. Meses antes do caso estourar, Francenildo tinha estado em Teresina para tentar, pela segunda vez em sua vida, conseguir o reconhecimento do pai.

Eurípides já era casado, tinha outra família e uma pequena empresa de transportes. Não queria confusão para o seu lado. Para se ver livre de Francenildo o mais rápido possível e ganhar tempo para contar a família, ofereceu 30 mil reais e a promessa de voltar a conversar sobre o assunto em um ano.

Francenildo aceitou.

Strauss-Kahn
Quando o colunista leu na imprensa que Dominique Strauss-Kahn estava contratando uma equipe de investigadores para devassar a vida da camareira guineense Nafissatou Diallo, não teve como não lembrar do caso Francenildo. Até porque, curiosamente, Palocci estava novamente nas páginas dos jornais.
 No entanto, Strauss-Kahn teve uma reação diferente de qualquer envolvido em um caso como este, mantendo-se calado e aceitando as algemas sem protesto, sem gritos, sem resistência, parecia claro que estava ali estampado um mea culpa.

Mas ao observar o caso mais de perto, com os fatos que chegavam a cada dia, o colunista tinha cada vez mais uma pulga que saltitava atrás da orelha. Alguma coisa naquela história não estava encaixando.

Nafissatou Diallo afirmava que havia sido estuprada por Kahn dentro do quarto do Hotel Sofitel em Nova Iorque. O diretor-presidente do FMI teria saltado do banheiro totalmente nu e a agarrado.

Dá pra acreditar?

Até daria, mas uma luta corporal certamente se daria em seguida. Strauss-Kahn deveria ter ao menos um arranhãozinho, certo?

Dominique Strauss-Kahn foi detido dentro da primeira-classe de um avião que preparava-se para decolar para Paris. Como assim? O executivo teve tempo de fazer a mala, sair do hotel, cruzar a cidade até o aeroporto, despachar as malas, embarcar, sentar, afivelar o cinto... e só aí a polícia chegou?

Porque levou tanto tempo para a camareira fazer a denúncia?

Daí veio esta: o exame da perícia havia encontrado “material genético” de Strauss Kahn na gola da camareira.

Epa!, gritou o colunista. Na gola?!?!

Material genético, como sabemos, é uma forma polida de dizer que havia sêmen na roupa da camareira.

Ficou claro, então, que se tratava de um felatio promovido pela camareira em Strauss Kahn, ou, como diríamos no popular, Nafissatou havia proporcionado ao figurão do FMI um boquete de despedida.

Venhamos e convenhamos, a não ser que estivesse sob a mira de uma arma, é difícil associar o crime de estupro à prática anteriormente citada. Os dentes podem fazer um senhor estrago naquela região da anatomia masculina.

Mas nada disso chamou a atenção da imprensa norte-americana e mundial.

Os episódios envolvendo Palocci e Kahn chamam a atenção para algo que merece cuidado: será que a profissão de jornalista vem perdendo perigosamente a sua independência e o seu instinto, o faro? Será que pautados pelo escândalo, que parece vender mais jornais, o jornalista está amolecendo a sua ética? Ou será a culpa dos consumidores, mais interessados no sensacional? Será que o mercado está distorcendo as pautas dentro das redações?

Terá o jornalismo investigativo caído em obsolescência?

KF


EM TEMPO:

  • Se as práticas de Palocci já eram conhecidas, resta saber se Dilma o colocou na Casa Civil (antes ocupada por ela mesma, Erenice Guerra e José Dirceu – que turma!) por pressão do PT ou por conivência.

  • Assim como José Dirceu e Delúbio Soares, Palocci faz sua misancene de saída e permanecerá no poder.

  • Francenildo está processando a revista Época e a Caixa Econômica Federal. A Caixa foi condenada recentemente a pagar R$500 mil. Está recorrendo. Antes havia oferecido R$45 mil com a condição de que ele assinasse um documento inocentando a Caixa Econômica Federal. Não aceitou. A revista, por sua vez, parece que vai escapar.

  • Semanas depois de plantar a notícia falsa sobre Francenildo, a jornalista Helena Chagas foi demitida de O Globo. Mas caiu para cima. Logo em seguida foi indicada para a diretoria da Empresa Brasileira de Comunicação, órgão do governo Lula. Depois saberíamos que sua proximidade com o PT e com Palocci era íntima. Foi assessora de imprensa da campanha de Dilma Roussef (coordenada por Palocci) e hoje é Secretária de Comunicação do governo Roussef. Tem status de Ministra.

  • Frase de Francenildo dita recentemente por ocasião da fortuna amealhada por Palocci: “Por que ele não explicou de onde veio o dinheiro? Eu tive que explicar”.

  • Brasília continua um balcão de negócios onde atuam centenas de picaretas com anel de doutor.

  • Ainda não se sabe quanto Nafissatou cobrou pelo boquete.



.