quarta-feira, 6 de julho de 2011

Antonio Palocci, Strauss-Kahn, e a obsolescência do jornalismo investigativo

Uma curiosa conexão une os casos do brasileiro Antonio Palocci e do francês Dominique Strauss-Kahn.

Mas para chegar a esta conclusão, precisamos primeiro relembrar com um pouco mais de detalhes a tumultuada carreira do paulista Antonio Palocci.

Palocci, o mafioso bonzinho
Médico, cara de bom moço, fala mansa e sempre com um leve sorriso no rosto. Gozando de prestígio, até bem pouco tempo, inclusive na oposição, Palocci é o tipo de sujeito que a gente dá crédito e nem desconfia.

Não é por menos. Hollywood nos educou a ver os criminosos como homens maus, feios, de fala grossa, barba mal feita e que sempre, sempre sempre, se dão mal no final.

Não é assim na vida real.

Palocci é um reincidente, pelo menos nas páginas dos jornais, já que na justiça tem conseguido escapar ileso. Sua carreira política inicia-se na cidade paulista de Ribeirão Preto. E é de lá que surgem as primeiras denúncias de corrupção, ativa e passiva.

As primeiras acusações são de sua passagem como prefeito. Palocci seria acusado de receber propina de uma empresa de coleta de lixo em troca de favorecimento em uma licitação. Palocci também se envolveria em irregularidades na compra de cestas básicas. Além disso, ainda foi implicado em denúncias que alegavam a cobrança de mesadas de empresas que prestavam serviços à prefeitura.

Traficante de Influência
Mas seria no governo Lula que Palocci sofisticaria e ampliaria seu esquema de arrecadação de dinheiro em governos do PT, e também em empresas governamentais que gerissem um grande volume de contratações de serviços terceirizados (onde a propina pode ser cobrada sem deixar muito rastro).

Para tocar o negócio, Palocci precisava de uma base onde seus lobistas de Ribeirão Preto pudessem atuar em Brasília. Para isso, através de testas-de-ferro ou assessores, como o agora notório Rogério Buratti, por exemplo, foi alugada uma mansão na área mais nobre de Brasília, o Lago Sul (a casa teria ainda outra função, o entretenimento destes homens nos momentos de folga. A presença de prostitutas era uma constante em festas realizadas duas vezes por semana, mas isso não é da nossa conta e sim das esposas de cada um).

Palocci era conhecido pelos frequentadores da casa como “Chefe”. E o chefe aparecia toda semana, e não era para as festinhas.

A CPI dos Bingos
Hoje já nos demos conta de que uma CPI não serve para nada além de ser uma ferramenta usada pela oposição para enfraquecer e/ou chantagear o governo. Quem está fora do governo a usa apenas para expor os inimigos em praça pública através de intermináveis interrogatórios televisionados.

Não se tem notícia de uma Comissão Parlamentar de Inquérito que tenha servido para moralizar o Congresso Nacional ou devolver aos cofres públicos o dinheiro que é desviado em maracutaias e negociatas. Cassações então, nem pensar! Impera o corporativismo.

Das dezenas que já tivemos, uma delas investigava o uso de bingos para a lavagem de dinheiro. Quem montou a CPI não sabia que iria mirar em um passarinho e acabar derrubando um avião.

No início de 2004 fomos todos apresentados ao senhor Waldomiro Diniz (quer nome melhor para um mafioso?). Ele foi flagrado em vídeo achacando o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Waldomiro era assessor de José Dirceu.

Puxando daqui e dali foi que a CPI dos Bingos acabou esbarrando com o esquema de arrecadação ilegal montado por Palocci na mansão do Lago Sul, que ficaria conhecida como República de Ribeirão Preto.

A casa tinha sido alugada em nome de um tal Vladimir Poleto. Este, por sua vez, tinha um motorista chamado Francisco das Chagas. Francisco foi convocado a depor.

E foi durante esse depoimento que um simples detalhe citado por Chagas mudaria o rumo das investigações. O motorista falou sobre a existência de um caseiro na mansão.  Foi o suficiente para Francenildo Santos Costa entrar na história e entrar para a História.

O homem-bomba
Antes mesmo de ser convocado oficialmente para depor na bancada da CPI, Francenildo já sabia que sua vida estava fadada. Seu nome ecoava em todos os noticiários. Pensou em fugir, mas desistiu ao pensar no único filho.

Sem conhecimento nem malícia para lidar com tamanha confusão, Francenildo acabou orientado por pessoas nem tão bem intencionadas assim. Acuado, foi aliciado por políticos da oposição, no caso o então senador tucano Antero Paes de Barros, que o convenceu de que a única forma de se proteger seria falando com a imprensa.

Paes tentou primeiro a revista Época, através do jornalista Andrei Meireles, mas Meireles não se interessou na isca lançada pelo senador. Quem morderia seria a jornalista Rosa Costa, do jornal O Estado de São Paulo.

A matéria foi para a capa com o título: “CASEIRO DESMENTE PALOCCI E DIZ QUE MINISTRO VISITAVA MANSÃO”.

O circo começava a pegar fogo.


O ataque é a melhor defesa
Apesar do caso envolvendo o então ministro da Fazenda não ter necessariamente a ver com o objeto de investigação da CPI, no caso a lavagem de dinheiro através de casas de bingo, a convocação de Palocci para depor era agora uma bandeira da oposição. Não pela possibilidade de apurar a corrupção em si, mas na brecha aberta para enfraquecer o governo, derrubando seu principal ministro.

Não nos enganemos, não havia ali nenhum sentimento patriótico, nenhuma postura pelo saneamento da política nacional. Era pura vingança e mesquinharia. Mas, lamentavelmente, é na briga suja de gente poderosa que a Democracia ganha alguma chance de se fortalecer.

Palocci sabia onde tinha estado e onde não tinha estado. No entanto, sem provas materiais de sua ida a mansão, ele contava agora com o embate de versões e currículos. Seria um ministro contra um caseiro. E para isso, Palocci precisava de elementos para desmoralizar o inimigo, e cúmplices para encobrir o golpe que estava prestes a desferir.

Ouvi dizer
Por uma dessas coincidências do destino, na mansão ao lado morava a jornalista Helena Chagas, editora de política e chefe da sucursal do jornal O Globo em Brasília.

Enquanto acompanhava a manada de jornalistas que agora se aglomerava na frente de sua casa, Helena ouviu um comentário feito pelo seu jardineiro. O funcionário de Helena dizia que estava chateado com toda a confusão, que iria atrapalhar o negócio que Francenildo faria com sua irmã: a compra de um terreno.

Helena mandou logo fazer uma matéria. O título não poderia ser mais capcioso: “COLEGAS DO CASEIRO AFIRMAM QUE ELE VAI COMPRAR UMA CASA”. Não havia apuração, a fonte era duvidosa, e intenção cheia de maldade.

Em um momento de sanidade pouco comum em redações de jornais, principalmente em situações como esta, onde o furo vale ouro, os editores no Rio de Janeiro decidiram não publicar a matéria sugerida por Helena Chagas.

Mas ela não se daria por vencida. Achava que estava diante de uma grande história. Foi direto ao Congresso e lá deu de bandeja  a suposta informação ao então senador Tião Viana (PT-AC): “Olha, parece que que tem uma informação de que o rapaz recebeu dinheiro, a gente está indo atrás disso”. Helena Chagas, a partir de um entreouvido de uma conversa entre jardineiros, chegou a conclusão de que o caseiro atuava em nome da oposição por interesse financeiro. Transformou sua especulação em fato ao soltá-la no mundo real.


Francenildo, o filho
O resto da história a gente já conhece. Tião Viana repassou imediatamente a informação a Palocci. O ministro mandou ordem ao presidente da Caixa Econômica, Jorge Mattoso, para que violasse o sigilo bancário do caseiro para checar se havia algum valor que não batesse com os rendimentos de sua profissão.

E Bingo! Havia!

O Globo não deu, mas a revista Época se prestou ao papel de esquentar a notícia falsa publicando o extrato ilegal sem sequer ouvir o outro lado, sem nem ao menos checar com Francenildo.

O então diretor editorial das revistas da Globo, Paulo Nogueira, diz hoje que Palocci teria passado por cima da redação entrando em contato direto com os diretores das Organizações Globo, ou seja, a própria família Marinho. “Palocci foi quem fez chegar a nós, na redação da Época, informações que supostamente desqualificariam um caseiro de Brasília que dissera que ele freqüentava uma mansão pouco recomendável quando era ministro da Fazenda. Foi um dos episódios mais desagradáveis de minha carreira”, escreveu Nogueira em seu blog Diário do Centro do Mundo.

O resto da imprensa veio junto, ignorando a cartilha mais básica da profissão: a apuração! Valia a lei de publicar primeiro e perguntar depois, uma postura distorcida muito ligada ao medo de se levar um furo (ou a fissura em dar um furo).

Mas qual não seria a nova reviravolta do caso. Francenildo era filho biológico do piauiense Eurípedes Soares da Silva. Meses antes do caso estourar, Francenildo tinha estado em Teresina para tentar, pela segunda vez em sua vida, conseguir o reconhecimento do pai.

Eurípides já era casado, tinha outra família e uma pequena empresa de transportes. Não queria confusão para o seu lado. Para se ver livre de Francenildo o mais rápido possível e ganhar tempo para contar a família, ofereceu 30 mil reais e a promessa de voltar a conversar sobre o assunto em um ano.

Francenildo aceitou.

Strauss-Kahn
Quando o colunista leu na imprensa que Dominique Strauss-Kahn estava contratando uma equipe de investigadores para devassar a vida da camareira guineense Nafissatou Diallo, não teve como não lembrar do caso Francenildo. Até porque, curiosamente, Palocci estava novamente nas páginas dos jornais.
 No entanto, Strauss-Kahn teve uma reação diferente de qualquer envolvido em um caso como este, mantendo-se calado e aceitando as algemas sem protesto, sem gritos, sem resistência, parecia claro que estava ali estampado um mea culpa.

Mas ao observar o caso mais de perto, com os fatos que chegavam a cada dia, o colunista tinha cada vez mais uma pulga que saltitava atrás da orelha. Alguma coisa naquela história não estava encaixando.

Nafissatou Diallo afirmava que havia sido estuprada por Kahn dentro do quarto do Hotel Sofitel em Nova Iorque. O diretor-presidente do FMI teria saltado do banheiro totalmente nu e a agarrado.

Dá pra acreditar?

Até daria, mas uma luta corporal certamente se daria em seguida. Strauss-Kahn deveria ter ao menos um arranhãozinho, certo?

Dominique Strauss-Kahn foi detido dentro da primeira-classe de um avião que preparava-se para decolar para Paris. Como assim? O executivo teve tempo de fazer a mala, sair do hotel, cruzar a cidade até o aeroporto, despachar as malas, embarcar, sentar, afivelar o cinto... e só aí a polícia chegou?

Porque levou tanto tempo para a camareira fazer a denúncia?

Daí veio esta: o exame da perícia havia encontrado “material genético” de Strauss Kahn na gola da camareira.

Epa!, gritou o colunista. Na gola?!?!

Material genético, como sabemos, é uma forma polida de dizer que havia sêmen na roupa da camareira.

Ficou claro, então, que se tratava de um felatio promovido pela camareira em Strauss Kahn, ou, como diríamos no popular, Nafissatou havia proporcionado ao figurão do FMI um boquete de despedida.

Venhamos e convenhamos, a não ser que estivesse sob a mira de uma arma, é difícil associar o crime de estupro à prática anteriormente citada. Os dentes podem fazer um senhor estrago naquela região da anatomia masculina.

Mas nada disso chamou a atenção da imprensa norte-americana e mundial.

Os episódios envolvendo Palocci e Kahn chamam a atenção para algo que merece cuidado: será que a profissão de jornalista vem perdendo perigosamente a sua independência e o seu instinto, o faro? Será que pautados pelo escândalo, que parece vender mais jornais, o jornalista está amolecendo a sua ética? Ou será a culpa dos consumidores, mais interessados no sensacional? Será que o mercado está distorcendo as pautas dentro das redações?

Terá o jornalismo investigativo caído em obsolescência?

KF


EM TEMPO:

  • Se as práticas de Palocci já eram conhecidas, resta saber se Dilma o colocou na Casa Civil (antes ocupada por ela mesma, Erenice Guerra e José Dirceu – que turma!) por pressão do PT ou por conivência.

  • Assim como José Dirceu e Delúbio Soares, Palocci faz sua misancene de saída e permanecerá no poder.

  • Francenildo está processando a revista Época e a Caixa Econômica Federal. A Caixa foi condenada recentemente a pagar R$500 mil. Está recorrendo. Antes havia oferecido R$45 mil com a condição de que ele assinasse um documento inocentando a Caixa Econômica Federal. Não aceitou. A revista, por sua vez, parece que vai escapar.

  • Semanas depois de plantar a notícia falsa sobre Francenildo, a jornalista Helena Chagas foi demitida de O Globo. Mas caiu para cima. Logo em seguida foi indicada para a diretoria da Empresa Brasileira de Comunicação, órgão do governo Lula. Depois saberíamos que sua proximidade com o PT e com Palocci era íntima. Foi assessora de imprensa da campanha de Dilma Roussef (coordenada por Palocci) e hoje é Secretária de Comunicação do governo Roussef. Tem status de Ministra.

  • Frase de Francenildo dita recentemente por ocasião da fortuna amealhada por Palocci: “Por que ele não explicou de onde veio o dinheiro? Eu tive que explicar”.

  • Brasília continua um balcão de negócios onde atuam centenas de picaretas com anel de doutor.

  • Ainda não se sabe quanto Nafissatou cobrou pelo boquete.



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Um comentário:

  1. Belíssimo texto, conseguistes sintetizar bem as informações e principalmente questionar com argumentos bem embasados o que poucos questionam, o papel do jornalismo sério e investigativo, na realidade a ausência do mesmo. É lamentável concordar que quem manda neste país é o poder público e a família Marinho. Lamentável como brasileiro sentir nojo por tudo que li acima.

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